Em 23 de maio de
2005, quando pulou como um maníaco no programa de Oprah
Winfrey, Tom Cruise se lançou num inferno astral de
sua própria criação. Sua performance
foi esmiuçada ao redor do mundo em tom de chacota.
Logo, veio à tona que a Paramount ficara furiosa com
sua pregação em prol da cientologia no set de
Guerra dos Mundos e no ano passado o estúdio
não quis renovar um contrato que estava entre os mais
lucrativos de Hollywood. Boatos deletérios não
paravam de circular por exemplo, sobre como ele teria
ingerido a placenta de sua filha recém-nascida. Há
alguns meses, na Alemanha, ele teve uma licença de
filmagem negada, ao que se sabe novamente por causa da cientologia.
Leões e Cordeiros (Lions for Lambs, Estados
Unidos, 2007), que estréia no Brasil nesta sexta-feira,
é a tentativa de Cruise de pôr um ponto final
nesse ciclo. Dirigida por Robert Redford, essa é a
primeira produção da "nova" United Artists
companhia que teve vários donos e falências,
à maneira de um ponto "micado", e agora estará
por pelo menos cinco anos nas mãos do astro e de sua
sócia, Paula Wagner, graças a uma quantia estimada
em 500 milhões de dólares e captada entre investidores
privados. O filme esclarece qual o apetite mais agudo que
esse longo inverno despertou no ator: a fome de prestígio
e de poder.
Leões
e Cordeiros discute o envolvimento americano no Iraque
num de seus cenários, o próprio Cruise
faz um jovem senador republicano que bola mais um daqueles
planos de ataque irresponsáveis. É um filme
feito de diálogos, que mira não na massa, mas
no Oscar. A intenção é evidente pelo
elenco papa-prêmios, que inclui Redford e Meryl Streep;
pelo tema, que sugere que Cruise observou com interesse o
que o ativismo fez por George Clooney; e pela maneira quase
ostensiva como descorteja a bilheteria. Mas esse pode não
ser um bom rumo. Outros astros já foram donos de estúdio
(a própria United Artists foi fundada por Charles Chaplin
e Mary Pickford), mas a prática nunca se disseminou
porque é de altíssimo risco: aos olhos da indústria,
os fracassos do ator e os da empresa sempre vão se
confundir, com prejuízo de imagem e confiança
para ambos. Além disso, investidores privados querem
lucro, e não necessariamente prestígio. (Ainda
não está claro se o próximo filme de
Cruise, Valkyrie, sobre um complô de oficiais
alemães para assassinar Hitler, pretende atender a
suas necessidades materiais ou psicológicas.) Até
o prestígio, aliás, pode estar fora do alcance
de Leões e Cordeiros. O filme é grandiloqüente,
condescendente e de uma patriotagem não pouco simplória.
A cara do pai, enfim ou pelo menos a cara que ele adquiriu
desde aquele ataque ao sofá de Oprah.