A ação humana
ameaça de extinção 29% das espécies. O desafio
agora é reverter esse quadro e evitar o desastre
Vanessa
Vieira e Roberta de Abreu Lima
A extinção
de animais faz parte do processo de evolução da vida na Terra
calcula-se que apenas 3% das espécies que já vieram ao mundo existam
hoje na natureza. Mas não há nada de ciclo natural no que está
acontecendo agora. Nas últimas décadas, com a colaboração
da atividade humana, a extinção de animais tem ocorrido a uma velocidade
5.000 vezes maior do que no passado. Uma pesquisa
divulgada na semana passada pela World Conservation Union (IUCN) mostra que os
primatas, os parentes mais próximos dos humanos na escala evolutiva, nunca
estiveram tão ameaçados. Segundo o estudo, 29% das 394 espécies
de primatas correm o risco de desaparecer até o fim do século. No
estudo anterior da IUCN, realizado há dois anos, esse porcentual era de
25%. A pesquisa destaca os 25 primatas mais vulneráveis e o local onde
eles vivem. A lista deste ano traz uma surpresa. O Brasil deixou de figurar no
ranking dos países que abrigam as espécies mais ameaçadas.
O mico-leão-da-cara-preta, o macaco-prego-do-peito-amarelo e o mono-carvoeiro,
embora não estejam a salvo, saíram da classificação
de alerta máximo (veja o quadro abaixo). Os
países campeões nesse indicador negativo são o Vietnã
e o Madagáscar, cada um com quatro espécies ameaçadas.
O
sumiço dos primatas é provocado basicamente por três fatores:
a destruição das florestas que lhes servem de habitat, o comércio
ilegal de exemplares vivos e a caça indiscriminada. Das 25 espécies
sob maior risco, 22 vivem na Ásia e na África e três na América
do Sul na Colômbia, no Peru e no Equador. "No Vietnã
e em toda a Ásia há uma grande dificuldade de proteger as espécies
por causa das barreiras culturais. Existe uma grande procura pelos ossos, pela
pele e até pelos fluidos dos primatas, usados na medicina tradicional",
diz o americano Anthony Rylands, diretor do Centro de Pesquisas Aplicadas à
Biodiversidade da Conservation International. Em Madagáscar, um dos campeões
no desaparecimento de primatas, as queimadas e o corte de florestas para abrir
espaço à agricultura são os principais responsáveis
pela ameaça à sobrevivência das espécies.
A
redução nas populações de primatas também tem
impacto negativo na preservação das florestas que os abrigam. Eles
desempenham funções no equilíbrio do ecossistema, como a
dispersão de sementes das muitas plantas que usam para se alimentar. Em
alguns países da Ásia e da África, inclusive Madagáscar,
a solução encontrada pelos governos para frear a devastação
da fauna foi desenvolver o turismo ecológico. Monta-se uma infra-estrutura
mínima para receber turistas interessados em ver espécies exóticas
e envolvem-se as comunidades locais no projeto, mostrando que elas podem ganhar
dinheiro com a preservação da natureza. Para essas comunidades,
a derrubada das florestas e a caça ilegal deixam de ser as únicas
formas de subsistência.
17
exemplares são tudo o que resta do Gibão
de Hainan. Há 50 anos eram 2 000 os representantes da espécie
3 espécies de lêmures,
os pequenos primatas de Madagáscar, estão ameaçadas de extinção
7 000 orangotangos de Sumatra
sobrevivem na natureza. O governo indonésio tenta salvá-los em áreas
de proteção ambiental
O Brasil fora do alerta
vermelho
Zig
Koch
Mico-leão-da-cara-preta: apenas 400 vivem no Paraná, mas a situação já foi pior
Sempre
que um animal se torna seriamente ameaçado de extinção, os
órgãos ambientalistas internacionais fazem o possível para
deter o processo de diminuição dos exemplares da espécie
. Foi o que aconteceu há dois anos, quando três primatas nativos
do Brasil, o mico-leão-da-cara-preta, o macaco-prego-do-peito-amarelo e
o mono-carvoeiro, foram declarados sob alto risco de desaparecer. A World Conservation
Union, por meio de seus representantes no Brasil, embrenhou-se pelo habitat do
macaco-prego e conversou com fazendeiros e com a população local
para convencê-los da importância de preservar os animais. O mesmo
fez a ONG Instituto de Pesquisas Ecológicas, que funciona com fundos de
instituições estrangeiras como o Zoológico de Parco, no norte
da Itália. Uma equipe do instituto realizou estudos e projetos de conscientização
ambiental no Parque do Superagüi, no norte do Paraná, onde vivem os
últimos 400 micos-leões-da-cara-preta. Ações como
essas parecem tímidas, mas surtem efeito em regiões nas quais muitas
vezes os habitantes nem sequer têm idéia do que seja preservação
ambiental.