A descoberta do animal
mais velho do mundo
pode ajudar a ciência a entender a longevidade
Vanessa Vieira e Roberta
de Abreu Lima
Este molusco
viveu 410
anos
Divulgação
BBC
Quando
ele era jovem...
...Miguel
de Cervantes publicou Dom Quixote ...os
holandeses invadiram o Nordeste brasileiro ...os
ingleses estabeleceram sua primeira colônia na América
do Norte
Uma das grandes
ambições do ser humano é encontrar meios
de prolongar a vida. Não é à toa que
o mito da imortalidade, em matizes diversos, permeia todas
as religiões. A aspiração à vida
longa aguça-se ainda mais diante da constatação
de que várias espécies, da flora e da fauna,
são capazes de viver por vários séculos.
A descoberta de um grupo de cientistas da Universidade Bangor,
do País de Gales, divulgada na semana passada, pode
trazer novas pistas para explicar os segredos da longevidade.
Eles encontraram no fundo do Atlântico Norte, próximo
à costa da Islândia, o animal mais velho de que
se tem notícia: uma concha do tipo Quahog, com mais
de 400 anos. A idade do molusco foi determinada com base na
contagem dos anéis de crescimento que se formam na
concha periodicamente. Para se ter uma idéia de quanto
o molusco viveu, basta pensar que, quando ele veio ao mundo,
William Shakespeare escrevia suas obras mais famosas, como
Otelo e Macbeth, e o Brasil havia sido descoberto
apenas 100 anos antes. Afinal, por que existe uma diferença
tão grande entre o tempo de vida das espécies?
Porque cada uma envelhece a um ritmo próprio.
Andre
Penner
Este jequitibá-rosa
do Parque Estadual de Vassununga, em São Paulo,
é considerado a árvore mais antiga do Brasil.
Sua idade é
estimada em
3 030 anos
O envelhecimento, segundo a consagrada teoria do pesquisador
Leonard Hayflick, elaborada nos anos 60, é um conjunto
de processos mecânicos que acontecem dentro e ao redor
das células. Um ser vivo permanece saudável
enquanto suas células têm o poder de se dividir
e, assim, se renovar. A quantidade de vezes que as células
podem se dividir é programada geneticamente. Mesmo
que um dia a medicina seja capaz de curar todos os males que
acometem os seres humanos na velhice, dificilmente alguém
conseguiria passar dos 120 anos esse é considerado
o limite biológico de nossa longevidade. Além
da influência do fator genético, a longevidade
de cada espécie também está relacionada
à intensidade com que ela se alimenta e gasta sua energia.
Quanto mais intenso o metabolismo de um ser vivo, mais curta
tende a ser sua vida. Para bater as asas a um ritmo de até
noventa vezes por segundo, o beija-flor precisa consumir mais
de 6.000 calorias por dia, o equivalente a oito vezes o peso
do seu corpo. Tanta atividade tem um preço. Algumas
espécies de beija-flor vivem, em média, dois
anos, contra vinte de um canário e até oitenta
de um papagaio. Já a gigantesca baleia fin pode viver
cerca de 100 anos porque, proporcionalmente, não gasta
tantas calorias. "As reações químicas
por meio das quais o organismo sintetiza energia também
produzem radicais livres, que provocam a oxidação
celular e, por conseqüência, o envelhecimento do
corpo", explica o biólogo Carlos Navas, da Universidade
de São Paulo.
Os seres mais primitivos,
unicelulares, não envelhecem. Desde que não
sofram a interferência de fatores externos, como a falta
de alimento, a desidratação ou a ação
de predadores, podem viver indefinidamente. Essa característica
assegura a sobrevivência de seus genes. Com a evolução
e o surgimento dos seres pluricelulares, a transmissão
dos genes começou a ser feita por meio da reprodução
sexuada. A partir daí, os seres vivos passaram a envelhecer.
No estágio atual da evolução, o organismo
dos animais só se preserva saudável até
o período em que eles são capazes de se reproduzir.
Depois disso, suas células começam a perder
a capacidade de renovação. No reino vegetal,
a capacidade de renovação das células
pode se estender por milhares de anos. Na região de
Sierra Nevada, na Califórnia, o pinheiro batizado de
Matusalém tem quase 5.000 anos de idade. No Brasil,
o jequitibá-rosa do Parque Estadual de Vassununga,
no estado de São Paulo, já passou dos 3.000
anos. Quando Jesus Cristo veio ao mundo, o jequitibá
já era um velho senhor. Enquanto a ciência não
descobre como o ser humano pode cruzar a barreira dos 120
anos, o jeito é cuidar bem da saúde.
Reuters
Harriet, a tartaruga
que o naturalista Charles Darwin levou de Galápagos,
morreu no ano passado com
175 anos