Sem-terra e bandoleiros
saqueiam e destroem fazendas no sul do estado e a governadora Ana Júlia
Carepa nada faz para impedi-los
Leonardo
Coutinho, de Santa Maria das Barreiras
Fotos
arquivo pessoal
A
Fazenda Vitória Régia (acima, à esq.) foi incendiada
por sem-terra. Acima, integrantes armados e encapuzados da Liga dos Camponeses
Pobres ocupam a Fazenda Forkilha. Ao lado, a Fazenda Rodeio, depredada por bandidos
Os frigoríficos
descobriram o sul do Pará há dez anos. O baixo custo da terra atraiu
os gigantes Bertin, Minerva e aventureiros que se embrenharam no setor, como o
banqueiro Daniel Dantas. Hoje, a área, equivalente à do estado do
Rio de Janeiro, abriga um dos maiores rebanhos do país. A economia floresceu,
os investimentos chegaram e o preço do hectare dobrou desde 2004. Agora,
uma onda de conflitos agrários e um surto de banditismo ameaçam
interromper o desenvolvimento. Vinte e cinco fazendas já foram invadidas.
Vinte delas ainda estão ocupadas e oito foram destruídas. A Justiça
concedeu mandados de reintegração de posse a nove fazendeiros. Nenhum
deles foi cumprido, porque a governadora Ana Júlia Carepa, do PT, editou
uma portaria proibindo a polícia de interferir nos conflitos agrários.
Pasme, mas é isso mesmo. A medida define esses casos como "conflitos sociais"
e estabelece que eles devem ser dirimidos exclusivamente por uma delegacia de
assuntos fundiários, que funciona a 350 quilômetros da área
convulsionada, uma distância maior do que a que separa Salvador de Aracaju.
A
decisão da governadora beneficiou não só os sem-terra como
também três quadrilhas de malfeitores que aterrorizam o sul do estado.
Esses bandos invadem fazendas e cobram resgate dos seus proprietários.
Quando não recebem o dinheiro, matam animais, queimam pastos e arruinam
edificações. Em dezembro do ano passado, uma das gangues incendiou
os currais e a sede da Fazenda Rodeio, em Bannach. O prejuízo ultrapassou
1 milhão de reais. Em setembro, outros bandidos tomaram a Fazenda Mirim,
em Redenção, e exigiram 50.000 reais do empresário Darci
Capeleto para desocupá-la. Se ele não pagasse, sua fazenda seria
entregue aos sem-terra. Há duas semanas, três policiais fugiram de
uma estrada tomada por um dos bandos de pistoleiros. Deveriam ter voltado com
reforços. Não o fizeram por causa da portaria da governadora. Casos
como esse levaram o promotor Daniel Barros a advertir Ana Júlia, por meio
de ofício, de que, no Pará, "está-se confundindo reforma
agrária com crimes de extorsão, dano ao patrimônio, ameaças,
lesões corporais e mortes".
Em meio à impunidade, uma recém-criada organização
de sem-terra começou a aterrorizar a região: a Liga dos Camponeses
Pobres, que mantém relações com remanescentes do Sendero
Luminoso, o grupo terrorista de orientação maoísta
que matou 30.000 pessoas no Peru nas décadas de 80 e 90. Os integrantes
da liga andam encapuzados e armados. Dois deles contaram que a organização
funciona com o dinheiro que cobra de pessoas interessadas em ganhar lotes da reforma
agrária. Quem paga 10 reais por mês pode manter uma barraca nas áreas
ocupadas. No mês passado, quarenta integrantes da liga invadiram a Fazenda
Forkilha, em Santa Maria das Barreiras. Os proprietários foram feitos reféns
por doze horas antes de ser liberados. Atualmente, a Forkilha está tomada
por 1.000 pessoas acampadas, algumas das quais têm casa própria em
cidades da região. Os métodos desses marginais são tão
violentos que assustam até as outras organizações de sem-terra
que atuam na região. "São bandidos. Quem age mascarado e com arma
na mão não é de movimento social", diz Pedro Alcântara
de Sousa, da Federação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura
Familiar.
Os crimes dos bandoleiros
e dos sem-terra, combinados com a impunidade assegurada pelo governo do PT, levaram
fazendeiros a contratar empresas de segurança. Graças a isso, a
Fazenda Mirim, de Darci Capeleto, escapou de ser invadida pela segunda vez no
mês passado. Outros proprietários decidiram se cotizar em um fundo
para contratar um serviço coletivo de vigilância. "É a única
alternativa que temos, porque o pouco de presença de estado que existia
aqui desapareceu", afirma a presidente do Sindicato Rural de Redenção,
Rosangela Hanemann. O Pará da governadora Ana Júlia Carepa é
uma terra sem lei.