A história do americano que
doou 4 bilhões de dólares sem que ninguém tivesse percebido
Jennifer
S. Altman
Feeney,
um crítico dos impostos: as pessoas sabem gastar melhor do que o governo
A filantropia é parte indissociável do capitalismo americano. Os
principais magnatas da história dos Estados Unidos deixaram bilhões
de dólares para museus, escolas e todo tipo de instituição
sem fins lucrativos. Criaram ainda fundações poderosas que carregam
seus nomes até hoje. No início do século passado, figuraram
como grandes filantropos Henry Ford (indústria automobilística),
John Rockefeller (petróleo) e Andrew Carnegie (aço). Essa tradição
persevera ainda hoje, em razão de uma cultura que valoriza a filantropia
e do estímulo tributário (o imposto sobre transmissão de
grandes fortunas pode chegar a 70% em alguns estados). Qualquer que seja a razão
que os leve a fazer doações, o fato é que todos os magnatas
americanos são grandes filantropos. A maioria deles faz questão
de propagandear seus atos de generosidade. Mas existe um time de empresários
que prefere fazer filantropia anonimamente. Entre estes, nenhum é mais
excêntrico e reservado do que o americano de origem irlandesa Charles "Chuck"
Feeney, que doou toda a sua fortuna de 4 bilhões de dólares sem
que ninguém tivesse notado. Uma das particularidades desse filantropo é
o fato de ele ter no processo de paz da Irlanda do Norte uma de suas principais
causas.
Até recentemente, pouco
se conhecia sobre a trajetória de Feeney. Parte do mistério começa
a ser desvendada agora, com a publicação, nos Estados Unidos, do
livro The Billionaire Who Wasn't: How Chuck Feeney Secretly Made and Gave Away
a Fortune, ainda sem tradução no Brasil, escrito pelo jornalista
irlandês Conor O'Cleary com a ajuda do próprio perfilado. Nascido
em Nova Jersey e descendente de irlandeses, Feeney, hoje com 76 anos, ficou rico
como sócio da Duty Free Shoppers, uma rede de lojas de aeroportos que vende
produtos livres de impostos. Feeney descobriu esse filão nos tempos em
que vendia produtos a soldados americanos no exterior. Nos anos 1960, o negócio
floresceu com a explosão do turismo japonês. Sua cadeia tornou-se
uma das maiores do mundo, com forte presença nos países da rota
do Pacífico, como Austrália, Taiwan e Cingapura.
Jacqueline
Arzt/AP
Gerry
Adams (à dir.), ao lado de outros dirigentes do Sinn Fein: escritório
financiado pelo filantropo de origem irlandesa
A história de Feeney, que começou como simples comerciante, iguala-se
à de tantos outros descendentes de imigrantes que realizaram o sonho de
enriquecer na América. Não fosse por um detalhe: em vez de acumular
sua riqueza, Feeney, que tem cidadania americana e irlandesa, sempre doou praticamente
tudo o que ganhava, reservando apenas uma fração para o sustento
de sua família. O empresário não tem carro nem casa própria,
e acompanhava seus negócios viajando de classe econômica. Doava em
parte por ideal, mas em boa medida pela aversão completa ao ato de contribuir
para o Fisco. Ele afirmou certa vez que preferia dar esmolas a pagar impostos.
"As pessoas sabem o que fazer com o dinheiro melhor do que o governo." Evitar
tributos, para Feeney, é uma filosofia de vida: além de ter ascendido
num ramo cujo negócio é vender produtos com isenção
de impostos, sua empresa tinha sede em paraísos fiscais.
A filantropia de Feeney passou despercebida até 1996, quando vendeu a Duty
Free Shoppers. Na transação, o empresário embolsou 3,5 bilhões
de dólares. Embolsou, não, embolsaria porque doou essa dinheirama
à Atlantic Philanthropies, criada por ele em 1982 e que já havia
recebido outros 500 milhões. Com isso, a instituição se tornou
uma das maiores entidades americanas de filantropia. Em 2006, ela investiu 500
milhões de dólares, valor inferior apenas ao de duas das mais ricas
fundações americanas, a Ford e a Bill and Melinda Gates. A Atlantic
se dedica, entre outras ações, a aprimorar a saúde e a educação
em diversos países. Feeney doou também 600 milhões de dólares
à Universidade Cornell, onde estudou hotelaria, transformando-se, assim,
no maior colaborador individual dessa instituição. Mas a mais conhecida
de suas causas é, sem dúvida, o apoio dado ao partido Sinn Fein,
o braço político do IRA. Feeney conheceu Gerry Adams, o líder
do Sinn Fein, no início dos anos 90, e passou a ajudar o movimento republicano
da Irlanda do Norte. Doou, por exemplo, 720.000 dólares para que o partido
mantivesse um escritório em Washington. Ao empenhar-se na institucionalização
do movimento republicano irlandês, Feeney deu a sua contribuição
ao processo de pacificação naquela região.
O lema de Feeney é "doe enquanto ainda está vivo". Conforme afirmou
nas raras entrevistas que concedeu, sua intenção é utilizar
os recursos disponíveis para resolver problemas atuais. Por isso a Atlantic
Philanthropies é uma entidade fadada a desaparecer: investe o máximo
possível e, quando seus recursos acabarem, simplesmente fechará
as portas. Estima-se que isso ocorra em 2016. Uma das frases de Feeney poderia
estar na cabeça dos governantes brasileiros: "Gastar não é
problema, mas gastar bem, sim".