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7 de novembro de 2007
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Cidades
Começou a faxina

Com a eliminação da "Cracolândia", São Paulo
segue a tendência mundial de reurbanização
de áreas centrais degradadas


Paula Neiva

 
Valéria Gonçalvez/AE
Screet
As demolições já iniciadas (à esq.) darão nova cara a ruas como a Santa Ifigênia (no projeto à dir.)


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Há duas décadas os habitantes de São Paulo são obrigados a conviver com um cancro urbano a que se apelidou – não é difícil imaginar por que – de "Cracolândia". Fincada em pleno centro da cidade, próximo à belíssima Estação da Luz, ponto de encontro da elite paulistana na época áurea do café, a região se transformou em reduto de tráfico e consumo de drogas a céu aberto, prostituição e todo tipo de bandidagem. Há uma semana, com a demolição de meia dúzia de prédios, a prefeitura da cidade deu os primeiros passos para acabar com a Cracolândia (como adiantou VEJA numa reportagem no ano passado) e promover um ambicioso plano de revitalização dos 25 quarteirões por onde ela se estende. O projeto prevê que em breve serão derrubados outros cinqüenta imóveis deteriorados e sem valor histórico ou arquitetônico. Em seu lugar serão erguidos prédios residenciais e comerciais. Outras tantas construções terão a fachada reformada. Ruas como a Santa Ifigênia, famosa na cidade por abrigar centenas de lojas de produtos eletrônicos, serão remodeladas e toda a fiação será aterrada.

A intenção da prefeitura é transformar a área da Estação da Luz e seu entorno num pólo de empresas de tecnologia da informação, comunicação e telemarketing. Para atrair os novos empreendimentos, a prefeitura criou uma política de incentivos fiscais. Serão concedidos descontos e créditos em tributos municipais como o imposto predial e territorial urbano (IPTU) e o imposto sobre serviços (ISS) que podem chegar a 100% do valor, por um prazo de cinco anos. Dos 34 projetos já apresentados à prefeitura, 23 foram aprovados, entre eles um prédio da Microsoft e outro da IBM. O investimento ficará na casa dos 800 milhões de reais, entre dinheiro público e privado, e as obras devem durar dois anos. O bairro que surgirá será batizado de Nova Luz. "A idéia é criar um pólo de tecnologia, criatividade e inovação", diz o secretário das Subprefeituras de São Paulo, Andrea Matarazzo. Ao riscar a Cracolândia do mapa, substituindo-a por um bairro novo por onde circulará muito dinheiro, a prefeitura espera estimular a melhoria de todo o centro da cidade.

Com as obras na Luz, São Paulo segue uma tendência mundial de revitalização de zonas degradadas das metrópoles. São regiões que, por motivos diversos, se tornaram obsoletas para o papel que desempenhavam na cidade. Puerto Madero, em Buenos Aires, e as Docklands, em Londres, por exemplo, entraram em decadência a partir da década de 60 porque não mais conseguiam receber os navios gigantescos que passaram a dominar o transporte de cargas. Ambas foram recuperadas. Puerto Madero se transformou num dos metros quadrados mais caros da capital argentina, onde despontam espigões modernos e hotéis caríssimos, como o Faena, projetado pelo incensado arquiteto francês Philippe Starck. "É desnecessário expandir os limites da cidade quando regiões com infra-estrutura pronta, mas mal aproveitadas, já existem", diz o arquiteto Paulo Bruna, professor de história da arquitetura contemporânea da Universidade de São Paulo. "O investimento para dinamizar uma região que já tem redes de transporte e comunicação instaladas é muito menor." Em Londres, parte das Docklands foi incorporada à City, o centro financeiro da cidade.

O arquiteto e urbanista Jorge Wilheim ressalta que muitas vezes as regiões centrais das cidades entram em decadência porque não conseguem acompanhar as mudanças no modo de vida da população. Diz ele: "A intensificação do uso de automóveis como meio de transporte no Brasil, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, fez com que muitas pessoas se mudassem das áreas centrais, pois os prédios em que elas moravam não tinham garagem". Os urbanistas concordam que uma das maneiras mais eficazes para recuperar regiões centrais deterioradas é atrair moradores de volta para elas. É justamente essa uma das estratégias da prefeitura paulistana para consolidar o novo bairro da Luz.

 

O REINO DOS MENDIGOS

Marlene Bergamo/Folha Imagem
Praça da Sé reformada: banheiro ao ar livre


Há menos de um ano, a prefeitura de São Paulo concluiu uma reforma total na Praça da Sé, um dos cartões-postais da cidade. Refizeram-se jardins, trocaram-se luminárias e bancos – tudo para tornar a praça mais agradável e acolhedora para a população. De pouco adiantou. Logo a Sé foi tomada por mendigos e moradores de rua que a utilizam como dormitório, banheiro e lavanderia. Alguns deles usam drogas. O mau cheiro impera. E por que a prefeitura não expulsa os habitantes indesejáveis da praça? Porque o Ministério Público não deixa, alegando que a lei preserva o direito de ir, vir e permanecer em locais públicos. A prefeitura não consegue nem mesmo fazer com que os mendigos saiam dos bancos para que seja feita a limpeza com jatos d'água. Resultado: os 10 milhões de habitantes de São Paulo têm à disposição uma praça nova em folha, mas são impedidos de usufruí-la por causa de meia dúzia de desocupados. Melhor faria o Ministério Público se ajudasse a prefeitura a tirar os mendigos da Sé.




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