Há
duas décadas os habitantes de São Paulo são
obrigados a conviver com um cancro urbano a que se apelidou
não é difícil imaginar por que
de "Cracolândia". Fincada em pleno centro da
cidade, próximo à belíssima Estação
da Luz, ponto de encontro da elite paulistana na época
áurea do café, a região se transformou
em reduto de tráfico e consumo de drogas a céu
aberto, prostituição e todo tipo de bandidagem.
Há uma semana, com a demolição de meia
dúzia de prédios, a prefeitura da cidade deu
os primeiros passos para acabar com a Cracolândia (como
adiantou VEJA numa reportagem
no ano passado) e promover um ambicioso plano de revitalização
dos 25 quarteirões por onde ela se estende. O projeto
prevê que em breve serão derrubados outros cinqüenta
imóveis deteriorados e sem valor histórico ou
arquitetônico. Em seu lugar serão erguidos prédios
residenciais e comerciais. Outras tantas construções
terão a fachada reformada. Ruas como a Santa Ifigênia,
famosa na cidade por abrigar centenas de lojas de produtos
eletrônicos, serão remodeladas e toda a fiação
será aterrada.
A intenção
da prefeitura é transformar a área da Estação
da Luz e seu entorno num pólo de empresas de tecnologia
da informação, comunicação e telemarketing.
Para atrair os novos empreendimentos, a prefeitura criou uma
política de incentivos fiscais. Serão concedidos
descontos e créditos em tributos municipais como o
imposto predial e territorial urbano (IPTU) e o imposto sobre
serviços (ISS) que podem chegar a 100% do valor, por
um prazo de cinco anos. Dos 34 projetos já apresentados
à prefeitura, 23 foram aprovados, entre eles um prédio
da Microsoft e outro da IBM. O investimento ficará
na casa dos 800 milhões de reais, entre dinheiro público
e privado, e as obras devem durar dois anos. O bairro que
surgirá será batizado de Nova Luz. "A idéia
é criar um pólo de tecnologia, criatividade
e inovação", diz o secretário das Subprefeituras
de São Paulo, Andrea Matarazzo. Ao riscar a Cracolândia
do mapa, substituindo-a por um bairro novo por onde circulará
muito dinheiro, a prefeitura espera estimular a melhoria de
todo o centro da cidade.
Com as obras na
Luz, São Paulo segue uma tendência mundial de
revitalização de zonas degradadas das metrópoles.
São regiões que, por motivos diversos, se tornaram
obsoletas para o papel que desempenhavam na cidade. Puerto
Madero, em Buenos Aires, e as Docklands, em Londres, por exemplo,
entraram em decadência a partir da década de
60 porque não mais conseguiam receber os navios gigantescos
que passaram a dominar o transporte de cargas. Ambas foram
recuperadas. Puerto Madero se transformou num dos metros quadrados
mais caros da capital argentina, onde despontam espigões
modernos e hotéis caríssimos, como o Faena,
projetado pelo incensado arquiteto francês Philippe
Starck. "É desnecessário expandir os limites
da cidade quando regiões com infra-estrutura pronta,
mas mal aproveitadas, já existem", diz o arquiteto
Paulo Bruna, professor de história da arquitetura contemporânea
da Universidade de São Paulo. "O investimento para
dinamizar uma região que já tem redes de transporte
e comunicação instaladas é muito menor."
Em Londres, parte das Docklands foi incorporada à City,
o centro financeiro da cidade.
O arquiteto e urbanista
Jorge Wilheim ressalta que muitas vezes as regiões
centrais das cidades entram em decadência porque não
conseguem acompanhar as mudanças no modo de vida da
população. Diz ele: "A intensificação
do uso de automóveis como meio de transporte no Brasil,
principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, fez
com que muitas pessoas se mudassem das áreas centrais,
pois os prédios em que elas moravam não tinham
garagem". Os urbanistas concordam que uma das maneiras mais
eficazes para recuperar regiões centrais deterioradas
é atrair moradores de volta para elas. É justamente
essa uma das estratégias da prefeitura paulistana para
consolidar o novo bairro da Luz.
O REINO DOS
MENDIGOS
Marlene Bergamo/Folha
Imagem
Praça da Sé
reformada: banheiro ao ar livre
Há menos de um ano, a prefeitura de São
Paulo concluiu uma reforma total na Praça da
Sé, um dos cartões-postais da cidade.
Refizeram-se jardins, trocaram-se luminárias
e bancos tudo para tornar a praça mais
agradável e acolhedora para a população.
De pouco adiantou. Logo a Sé foi tomada por mendigos
e moradores de rua que a utilizam como dormitório,
banheiro e lavanderia. Alguns deles usam drogas. O mau
cheiro impera. E por que a prefeitura não expulsa
os habitantes indesejáveis da praça? Porque
o Ministério Público não deixa,
alegando que a lei preserva o direito de ir, vir e permanecer
em locais públicos. A prefeitura não consegue
nem mesmo fazer com que os mendigos saiam dos bancos
para que seja feita a limpeza com jatos d'água.
Resultado: os 10 milhões de habitantes de São
Paulo têm à disposição uma
praça nova em folha, mas são impedidos
de usufruí-la por causa de meia dúzia
de desocupados. Melhor faria o Ministério Público
se ajudasse a prefeitura a tirar os mendigos da Sé.