Artigo:
Gustavo Ioschpe Preocupe-se.
Seu filho é mal educado.
"A idéia
de que a escola particular brasileira é boa e
protege seus alunos das deficiências da escola pública
é falsa. Nossas escolas particulares são apenas
menos
ruins do que as públicas mas, se comparadas
às
escolas de outros países ou a um nível ideal
de
qualidade, certamente ficam muito distantes"
Tiago Queiroz/AE
Alunos fazem provas: passa da
hora de cobrar mais qualidade do ensino nas escolas brasileiras
O Pisa é
atualmente o teste internacional de qualidade da educação
mais reconhecido globalmente. Ele é aplicado a cada
três anos pela OCDE e sua última edição,
sobre a qual temos resultados disponíveis, pintou um
quadro aterrador para o Brasil. Em primeiro lugar, porque
nosso desempenho geral foi baixíssimo. Entre os quarenta
países participantes (trinta desenvolvidos e dez em
desenvolvimento), ficamos em último lugar em matemática,
penúltimo em ciências e 37º na área
de leitura. Esse resultado não é de todo surpreendente,
já que há anos e em vários outros testes
internacionais colhemos resultados parecidos. Há sempre
uma tendência do setor mais ilustrado da nossa sociedade
de dar de ombros a esses resultados, creditar o fracasso nacional
às escolas públicas e imaginar que, colocando
o filho em uma boa escola particular, o problema não
o afeta. O Pisa demonstra que esse raciocínio não
é apenas tacanho, mas também fundamentalmente
equivocado e aí, sim, há uma surpresa
digna de nota. O problema não é apenas das escolas
públicas, mas da educação como um todo.
Não há ilhas de excelência no mar de lodo.
Em matemática, por exemplo, apenas 1,2% dos alunos
brasileiros chega aos dois níveis mais altos de desempenho,
contra uma média de 15% dos estudantes dos países
da OCDE, 19% dos de Macau (China) e 7% dos da Rússia.
A situação fica ainda mais clara quando fazemos
o recorte por nível socioeconômico: o desempenho
dos 25% mais ricos do Brasil é menor do que a média
dos 25% mais pobres dos países da OCDE. Deixe-me repetir:
os alunos da nossa elite têm desempenho educacional
pior do que os mais pobres dentre os países desenvolvidos.
A idéia
de que a escola particular brasileira é boa e protege
seus alunos das deficiências da escola pública
é falsa. Nossas escolas particulares são apenas
menos ruins do que as públicas mas, se comparadas
às escolas de outros países ou a um nível
ideal de qualidade, certamente ficam muito distantes.
Os pais que colocam
seus filhos em escolas particulares estão, na realidade,
pagando por um diferencial que vem mais deles (pais) do que
da escola em si. Estudos recentes do economista Naercio Menezes
Filho indicam que 80% da diferença de desempenho entre
as escolas públicas e as privadas é explicável
pelo status socioeconômico da família do aluno.
Outros 10% são explicáveis pelo status dos colegas
de ensino. Apenas os 10% restantes são atribuíveis
à qualidade da própria escola. Ou seja, de cada
10 pontos de performance superior de um aluno de escola particular,
8 são explicados pelo fato de ele já vir de
casa com maior bagagem cultural, ter acesso a livros e viver
em um ambiente sem carências materiais agudas; 1 ponto
é explicado pelo fato de os colegas dele virem igualmente
de ambientes privilegiados e a literatura empírica
é categórica ao apontar os efeitos que os colegas
têm sobre o desempenho de um aluno (peer effects)
; e o outro ponto pode ser atribuído à
qualidade da escola.
Não é
muito difícil entender por que esse quadro é
assim. O ator fundamental do processo de ensino é o
professor. A boa administração escolar sempre
é positiva e surte resultados, mas nem toda a eficiência
gerencial do mundo fará com que um mau professor dê
uma boa aula. Segundo o Perfil dos Professores Brasileiros,
da Unesco, 81% dos atuais professores cursaram seu ensino
fundamental em escolas públicas e quase 70% fizeram
o curso secundário em escolas públicas. Se esse
professor é formado em instituições de
ensino claudicantes, ele tenderá a ser também
um professor despreparado, por mais rica e organizada que
seja a escola em que leciona. Não é possível
para a nossa elite criar uma blindagem para se proteger das
mazelas do setor público. Não apenas porque
a escola pública formará a mão-de-obra
dessa elite dirigente, mas também porque formará
os professores dos seus filhos. Em todos os países
do mundo, educação é um projeto público
e nacional. Ou todos vão bem, ou o país vai
mal.
Isso não
significa dizer, obviamente, que a escola particular não
tenha razão de existir ou, pior, que deva ser proibida.
Em uma sociedade livre, cada família deve ter o direito
de dar aos seus filhos a educação que merece
inclusive uma educação que, medida por
testes padronizados, seja de qualidade igual ou inferior à
da escola gratuita. No caso de um país com as carências
educacionais que temos, mesmo que a diferença pró-particulares
seja pequena, nenhum pingo de excelência pode ser sacrificado.
O que esses dados
sugerem é que esse modelo de ensino chegou ao seu esgotamento.
Seus problemas são em larga medida resultantes de uma
mesma mentalidade que permeia nossa vida nacional e causa
dificuldades por onde passa. Por muito tempo, os que tiveram
a responsabilidade de pensar o país pensaram antes
de tudo em si mesmos. Assim, criamos um sistema educacional
em que a qualidade do ensino ministrado aos mais pobres não
importa e o objetivo do ensino destinado aos ricos é
ser tão-somente melhor do que o destinado aos pobres.
Enquanto éramos uma sociedade autárquica e agroexportadora,
essa miopia não tinha conseqüências maiores.
Não é preciso Ph.D. para plantar café
e não é preciso preocupar-se com a indústria
chinesa em tempos de reserva de mercado. O problema é
que nas últimas décadas o mundo mudou e o Brasil
quer participar desse mundo novo sem, porém,
mudar a si mesmo. No momento em que o mercado passa a ser
global e não nacional ou estadual e em que a competitividade
das nações se dá pela produção
de bens e serviços de alto valor agregado, o modelo
educacional brasileiro já não dá mais
conta do recado. Precisamos colocar mais gente nas escolas
e especialmente em nossas universidades, e a saída
para isso é apenas uma: a melhoria da qualidade do
ensino que nossas crianças recebem. Mau ensino hoje
é igual a evasão amanhã.
A conclusão
é lógica: mesmo quem coloca os filhos em escolas
particulares deve se preocupar com a qualidade da educação
pública. E com urgência. Não apenas por
espírito cívico, mas por amor-próprio
também. Atualmente, 13% dos alunos do ensino básico
estão em escolas privadas e os outros 87% estudam em
instituições públicas. O único
encontro entre esses dois grupos que gera alguma mobilização
do setor mais avantajado é quando os ex-alunos da escola
pública entram na escola do crime e cutucam as janelas
dos carros dos ricos com os seus revólveres. Aí,
já é tarde demais. No Brasil de 2007, voltar
nossa atenção para o que acontece na 1ª
série do ensino fundamental das escolas de periferia
virou questão de sobrevivência coletiva
e individual, figurada e literal.