Relator do caso Renan
diz que não se intimida e chama
de canalhas os responsáveis pelo dossiê contra
ele
Alexandre Oltramari
Ueslei Marcelino/Folha
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Jefferson Péres: o relatório
sobre os laranjas de Renan será apresentado na
semana que vem
Se
o objetivo das pessoas que espalharam no Congresso um dossiê
contra o senador Jefferson Péres era tentar intimidá-lo
de alguma maneira, a trama fracassou. Da tribuna do Senado,
em um pronunciamento depois da reportagem de VEJA que revelou
a existência das falsas acusações contra
ele, o senador encerrou o caso com um recado direto e contundente:
"Canalhas de todos os matizes, eu não sou como vocês.
Ética para mim não é pose. Não
é bandeira eleitoral". O senador disse ter evidências
sobre a origem do dossiê, mas não quis revelar
suas suspeitas. Limitou-se a ler uma carta do presidente licenciado,
senador Renan Calheiros, negando qualquer responsabilidade
pela produção ou difusão do vídeo
em que Péres é mostrado como envolvido numa
fraude contra uma siderúrgica na década de 70.
Na semana passada, Jefferson Péres, encarregado de
apurar se Renan Calheiros feriu o decoro parlamentar ao participar
de uma sociedade clandestina para a compra de um grupo de
comunicação em Alagoas, começou a ouvir
as testemunhas do caso.
O primeiro a depor
foi o contador José Amilton Barbosa. Ele disse que
trabalhou no grupo de comunicação e que sabia
da sociedade entre Renan Calheiros e o usineiro João
Lyra. A outra testemunha foi o juiz estadual Marcelo Tadeu
Lemos de Oliveira. O magistrado é o responsável
por um processo criminal no qual Lyra é acusado de
ordenar um assassinato em Alagoas. O que ele tinha a dizer
sobre a sociedade secreta? Nada. Por estratégia da
defesa do senador, o juiz foi arrolado como testemunha apenas
para desqualificar o depoimento do usineiro João Lyra,
que confirmou o negócio clandestino entre ele e o presidente
licenciado do Congresso. Percebendo que alguns depoimentos
podem servir apenas para atrasar as investigações,
Péres decidiu se concentrar na análise de documentos.
É nesse ponto que a vida de Renan se complica. Um dos
documentos em poder do Conselho de Ética é uma
proposta de venda do grupo de comunicação endereçada
e entregue pessoalmente ao senador em 1998, quando ele era
ministro da Justiça. Renan admite ter recebido o documento,
mas declara ter sido apenas o "portador de uma correspondência"
a um amigo, agindo como se fosse um office-boy e não
um ministro.
É inacreditável
que o vendedor das empresas de comunicação,
radicado em Maceió, tenha ido a Brasília só
para usar o então ministro da Justiça como mensageiro
de uma proposta comercial enviada na verdade a João
Lyra, que vive e trabalha na capital alagoana. É mais
inacreditável ainda supor que, por mera coincidência,
as empresas de que Renan Calheiros afirma nunca ter participado
estejam registradas hoje em nome de seu filho, Renanzinho,
cujo patrimônio se resumia a um Golf com três
anos de uso. No fim do ano passado, ao relatar o processo
do ex-senador Ney Suassuna, que teve um assessor envolvido
com a máfia dos sanguessugas, o senador Jefferson Péres
foi implacável. Recomendou a cassação
do colega, mesmo sem ter encontrado provas cabais, sob a acusação
de "condescendência criminosa". Por tudo isso, não
há quem, em sã consciência, duvide que
o mandato de Renan está por um fio, ao menos no que
depender de Jefferson Péres.