"O caso da Telecom
Italia nunca rendeu
nada de bom: só o enfado dos leitores e um
processo judicial contra mim. Mas a Justiça
italiana conseguiu juntar algumas das pontas
que permaneciam soltas. Um dos diretores da
empresa admitiu: em 2003, a Telecom Italia pagou
propina no Brasil"
A Telecom Italia
pagou propina no Brasil. Já leu isso em algum lugar?
Sim: na coluna do autoproclamado Oráculo de Ipanema.
A primeira vez em fevereiro de 2006, a segunda vez em outubro
do mesmo ano, a terceira vez chega, Diogo, chega
na semana seguinte.
O caso da Telecom
Italia, apesar de tratado insistentemente na coluna, nunca
rendeu nada de bom: só o enfado dos leitores e um processo
judicial contra mim. Mas todos sabem que eu sou um renomado
parajornalista, e o que mais aborrece um renomado parajornalista
é isto: uma trama em que as pontas permanecem soltas.
Nos últimos tempos, a Justiça italiana finalmente
conseguiu juntar algumas dessas pontas. Depois de passar oito
meses na cadeia, um dos diretores da Telecom Italia, Giuliano
Tavaroli, admitiu ao juiz Giuseppe Gennari o que eu e meus
leitores menos avoados já sabíamos: em 2003,
nos primeiros meses do reinado lulista, a Telecom Italia pagou
propina no Brasil. O fato foi confirmado por outras duas testemunhas:
o diretor financeiro da sucursal brasileira, Marco Girardi,
e o chefe de segurança institucional da empresa, Marco
Bonera.
A revista italiana
Panorama acaba de publicar uma reportagem reconstruindo
todos os eventos. Em 8 de abril de 2003, Marco Bonera foi
encarregado de transportar 300 000 dólares a Brasília.
De acordo com seu depoimento, ele alugou um helicóptero,
voou à capital e entregou o malote de dinheiro a duas
pessoas num quarto do hotel Blue Tree. Sucessivamente, segundo
ele, essas duas pessoas distribuiriam a propina a uma série
de políticos relacionados numa lista.
Alguns dias depois,
em 30 de abril, a Telecom Italia assinou um contrato de consultoria
de 3,25 milhões de reais com o empresário Naji
Nahas. Recebi uma cópia desse contrato em janeiro de
2006, assim como o comprovante de que o pagamento havia sido
feito em dinheiro vivo. Passei todo o material a VEJA. A reportagem
descobriu que parte do montante fora entregue a Ludgero Pattaro,
uma das pessoas que cito a matéria "apareceram
em relatórios da agência Kroll como sendo responsável
por pagamento de propina da Telecom Italia a dirigentes do
PT". Ludgero Pattaro enfiou o dinheiro numa maleta e, acompanhado
por guarda-costas, levou-o a uma saleta do hotel Renaissance,
em São Paulo. Até agora ninguém podia
apontar com certeza o destinatário do pagamento. Aos
juízes milaneses, Giuliano Tavaroli afirmou tratar-se
da segunda parcela de uma propina destinada aos membros da
Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara
dos Deputados.
Propina, propina,
propina. Eu sei que o assunto se esgotou. Pode parar de bocejar.
Isso tudo é velharia. Isso tudo pertence a um tempo
em que a gente ainda tinha o ímpeto de espernear contra
a imundície na política. O ímpeto passou.
A imundície continua lá.