Prestes a completar
cinqüenta anos de carreira,
Jô Soares diz que o humor exorciza tragédias
e
é imbatível como maneira de demonstrar indignação
Isabela Boscov
Otavio Dias de Oliveira
"O humor tem de
ser anárquico,
e o humorista não pode se engajar. Ao contrário:
tem de ser oposição inclusive da oposição"
No
ano que vem, Jô Soares comemora duas efemérides:
meio século de carreira humorística, durante
a qual criou cerca de 300 personagens, e duas décadas
de seu talk-show, com 10 000 entrevistas realizadas
contadas aí suas fases no SBT e, atualmente, na Globo.
Mas não pára para contemplar tanta longevidade,
porque está trabalhando no seu ritmo peculiar. Jô
não pensa em retornar ao cinema, porque o único
filme que dirigiu, O Pai do Povo sobre um brasileiro
que é o último homem fértil da Terra
e passa então a ser agenciado pelo governo "como uma
Petrobras" , foi lançado durante um Carnaval,
"de onde se vê que não havia grandes intenções
de que fizesse sucesso". Mas acaba de dirigir Bibi Ferreira
no espetáculo Às Favas com os Escrúpulos.
Está ainda lançando, em parceria com o músico
Billy Forghieri, o CD Remix em Pessoa, no qual declama
(com sotaque lusitano, para lhes preservar a musicalidade)
poemas de Fernando Pessoa ao som de hip hop, jazz e drum'n'bass.
Gostou tanto da experiência que, em novembro, estreará
Remix no teatro, como show, com direção
de Bete Coelho. Jô recebeu VEJA em seu apartamento para
argumentar que rir do próprio país não
é só uma vocação dos brasileiros
é quase obrigação.
Veja Uma
das peculiaridades do humor brasileiro é a capacidade
de fazer piada até com as maiores desgraças,
e no momento em que elas estão acontecendo. Isso é
saudável? Jô É.
É uma forma de exorcizar a tragédia. A Denise
Fraga conta uma história que ilustra bem esse espírito
nacional. Certo dia, ela encontrou na secretária eletrônica
uma mensagem da mãe: "Filha, sua avó não
está passando nada bem. Ela está na capela 3
do cemitério São João Batista". Ela adorava
a avó, mas caiu na gargalhada, claro.
Veja Será que às vezes o brasileiro não
ri um pouco cedo demais, e assim tolera acontecimentos políticos
que não deveria tolerar? Jô Acho que o riso, nesses casos, é
uma manifestação de indignação,
de falta de respeito. A primeira arma para desmoralizar um
político é não respeitá-lo.
Veja Mas
ainda dá para rir desse clima de corrupção
e imoralidade? Jô Você
está falando de agora ou desde a descoberta do Brasil?
Veja Vamos
por partes. O Brasil de hoje ainda tem graça? Jô
O poder em si já é uma coisa ridícula.
Assim que o sujeito assume a Presidência, colocam nele
uma faixa que parece um suspensório torto. Quando,
ainda mais, acontecem canalhices como as que têm vindo
à tona, é preciso exacerbar esse ridículo.
Tem pessoas que ainda reelegem essa gente; então, que
pelo menos elas também se sintam ridículas na
parceria com os corruptos e que pensem duas vezes. Afinal,
ninguém gosta de se sentir ridículo.
Veja O
caso Renan Calheiros daria uma boa comédia? Jô O caso
me choca ainda mais por ele ser senador, um cargo que desde
a Antiguidade clássica vem investido de um ideal superior.
Aí o cara tem uma amante, e tem gente que vem dizer
que a vida particular não deve ser misturada à
vida pública. Ora, ele tem uma filha com essa moça,
o que mostra a irresponsabilidade dos dois em transar sem
camisinha. Sabe-se lá onde o senador andou colocando
o pinto dele antes e que relacionamentos a moça teve.
Por que uma pessoa que é incapaz de praticar sexo seguro
não levará essa irresponsabilidade para a vida
pública? É claro que renderia comédia.
Como dizem, este é o país da piada pronta.
Veja Qual é o espaço da baixaria no humor? Jô O importante
é não excluí-la. Existem baixarias que
são de rolar de rir, mas são também críticas
contundentes. No Borat, por exemplo, aquela cena em
que ele e o produtor obeso rolam nus na cama é horripilante
e hilariante. Não existe mau gosto em comédia.
Mau gosto é uma convenção. Hoje significa
uma coisa, amanhã outra. Repare que, no começo,
o Cazaquistão ficou furioso por Borat ser um cazaque.
Depois caiu a ficha: eles se tocaram que o personagem era
uma crítica não a eles, mas aos Estados Unidos.
Aí eles relaxaram. Só não vou dizer que
gozaram porque isso é exclusividade da ministra.
Veja O
que mais o impressionou em Borat? Jô No filme
e nos outros personagens que Sacha Baron Cohen faz, como o
austríaco Brüno e o rapper Ali G, o que me impressiona
é a vontade que as pessoas têm de aparecer. Você
vê ministros, estudiosos, gente de todo tipo, topando
enfrentar situações ofensivas ou constrangedoras
para pôr a cara na televisão.
Veja Então é para aparecer também que as
pessoas vão a um programa de entrevistas como o seu? Jô Claro.
E a primeira que quer aparecer sou eu. Você se coloca
numa vitrine, em que milhões de pessoas vão
te ver, e não tem vaidade nenhuma? É óbvio
que tem. E quem vai ao programa também está
exercendo um pouco da sua vaidade.
Veja É desejável que a platéia possa observar
as reações íntimas do entrevistador ao
seu convidado? Jô Hoje em
dia eu me policio, porque tenho a tendência de começar
a arengar com o convidado quando o assunto pega fogo. Isso
não é bom. Outra coisa que acontece é
gente que mente na pré-entrevista para parecer interessante
e na hora H se desvia do assunto, me deixando com cara de
bobo. E teve o sujeito que bocejou enquanto contava uma história.
Aí não agüentei. Virei para ele e disse:
"Se você está bocejando, imagine o coitado que
está em casa assistindo".
Veja Por que há tão poucas mulheres comediantes?
É um meio machista ou elas são menos engraçadas? Jô Não
é um meio machista. É um mundo machista. Há
muito menos mulheres do que homens na presidência de
grandes corporações. Mas elas não são
menos engraçadas. Antes existia uma noção
primária de que a mulher para ser engraçada
tem de ser feia vesga, ou com uma verruga na ponta
do nariz. Isso está mais do que desmentido. Existem
mulheres lindas e que são também comediantes
de grande talento, como Goldie Hawn. Na verdade, acho que
a repressão ao humor feminino começa cedo, em
casa. As mulheres não são encorajadas a conquistar
pelo humor. Uma menina de 15 anos dizer aos pais hoje que
quer ser comediante é mais ou menos como se, algumas
décadas atrás, ela anunciasse que ia ser artista
de circo.
Veja Humor
tem prazo de validade? Jô
Tem, quando ele começa a se preocupar em não
ofender esse ou aquele segmento. Jerry Lewis, por exemplo,
era genial, até que deu para vetar palavreado chulo,
referências a sexo e por aí vai. O humor tem
de ser anárquico não no sentido político-praticante,
é claro. Aliás, muito ao contrário. Humorista
não pode se engajar. Tem de ser oposição
até da oposição.
Veja Você já encontrou algum povo sem humor? Jô Não.
O fato é que o ser humano é engraçado.
A ausência de humor é a antecâmara do suicídio.
Se o sujeito que quer se matar com a cabeça no forno
conseguir visualizar a posição ridícula
em que ele está, ajoelhado e com o traseiro para cima,
ele vai dar uma gargalhada e desligar o gás.
Veja
Quando você descobriu que era engraçado? Jô Quando
mamãe começou a rir, claro.
Veja Mamãe não vale, porque tem obrigação
de achar o filho uma graça. Jô
Mas mamãe e papai valem, sim. Acredito que todos temos
roteiros de vida que são traçados muito cedo,
num plano mágico até. Eu comecei a falar tarde.
Mamãe, que me teve com 40 anos, o que na época
era considerado um absurdo, achava que, veja só, coitadinho,
nasceu com problemas. Um dia, no berço, do lado dela,
comecei a jogar a lata de talco no chão uma, duas,
três vezes. Na quarta, quando ela se virou brava para
mim, eu finalmente abri a boca: "Caiu!". Todo mundo achou
lindo. Daí vi a utilidade daquilo. E comecei a usar.
Veja Seus
colegas de escola achavam você engraçado? Jô
Crianças podem ser muito cruéis, como sabe qualquer
um que foi gordo ou usou óculos na infância.
O normal é que esse menino seja pego para Cristo. Mas
percebi rapidamente que era melhor ser conhecido por ser engraçado
do que por ser gordo. Tanto que nunca tive apelido de "gordo",
ou as variações de praxe, na escola.
Veja De
onde você tira seus personagens? Jô Às
vezes, do ar. Há tempos criei um lorde inglês
que foi mordido à meia-noite, em Quixeramobim, por
um cearense que por sua vez fora mordido por um lobo. Em noites
de Lua cheia, então, ele se transformava no Cearomem.
Tive a idéia do nada, ao descer do carro em Fortaleza
e topar com um céu enluarado. Eu nunca seria capaz
de explicar como se chega de uma coisa a outra, em casos assim.
Veja Quando você se vê numa cena de um programa
que fez na juventude, você se acha engraçado? Jô Não
consigo me assistir. Acabo de gravar o programa que
também tem muito humor e assisto profissionalmente,
mas só. Fico com pudor de mim. Primeiro porque, quando
está lá, você se acha um deus. Daí
você se vê no vídeo e, claro, percebe que
está muito longe disso. Eu me acho até gordo
quando me vejo na televisão.
Veja Incomodar-se
com a própria aparência não é uma
reação de principiante? Jô Não.
Acho que a gente nunca se acostuma com a própria aparência,
ou com a voz, os cacoetes. Imagine há quantos anos
você usa a secretária eletrônica
e eu aposto que você ainda estranha a sua voz na gravação.
Veja Quais
são os personagens que você criou de que mais
gosta? Jô O
Gardelón, que era aquele pobre coitado daquele argentino,
um sofredor. Gostava muito também do último
exilado em Paris, que falava um francês macarrônico
e dizia à mulher no telefone: "Madalena, você
não quer que eu volte". Ou a Norminha, que era muito
solta, digamos, mas muito menina. E o Reizinho. Mas não
é só uma questão de personagem. Eu me
divertia imensamente com um quadro que fazia com o Paulo Silvino,
o jornal para pessoas mais ou menos surdas. O Silvino dava
a notícia e eu repetia gritando. Era uma bobagem, mas
eu morria de rir.
Veja O
exilado usava a expressão "chose de loque", que virou
bordão popular. Entrar na cultura é a melhor
medida do acerto? Jô Quando
isso acontece, fico como aquelas mães de filho único,
que morrem de orgulho do filho como a minha mãe.
Toda vez que vejo uma expressão dessas sendo usada,
tenho vontade de dizer ao mundo que fui eu quem inventou,
porque a origem se perde, e as pessoas falam sem saber de
onde veio. Como "muy amigo", ou "mata o velho". Um dos reis
do bordão é o meu amigo e colaborador, Max Nunes.
Desde os tempos do rádio ele vem inventando bordões
geniais.
Veja Fazer
os outros rir é um vício? Jô Quando
você experimenta essa sensação, não
há como viver sem ela. É preciso até
maneirar para não se tornar inconveniente.
Veja Ao
contrário dos entrevistadores americanos, você
recebe em seu programa pessoas que não são famosas.
Por que tomou essa decisão? Jô Esses convidados
são um aspecto essencial do programa, e ninguém
descarta pauta por ser exótica ou absurda demais antes
de ela passar por mim. Isso, aliás, é o que
me desagrada nos programas de David Letterman e Jay Leno hoje:
a ênfase nas celebridades. Eles praticamente só
entrevistam gente famosa, que está ali promovendo seus
últimos trabalhos além do ar de que foi
tudo muito ensaiado. Todos somos herdeiros de um mesmo formato.
Mas no auge dele, com Johnny Carson, a variedade de convidados
era enorme.
Veja Você
chama todos os seus convidados, sem exceção,
de "você". Por quê? Jô No
Brasil, "senhor" não é um tratamento que indica
respeito ou falta de intimidade, mas sim uma forma de diferenciação
de classe social. Na França, um ministro chama outro
ministro e também o seu motorista de vous. No
Brasil, outro ministro é "senhor" e o motorista é
"você". Então, no meu sofá, todos teriam
de ser "senhor" ou todos teriam de ser "você". Escolhi
o tratamento informal porque ele é mais coloquial e,
às vezes, faz o entrevistado se soltar mais. Como Luís
Carlos Prestes, que tomou um susto quando eu o tratei por
"você", mas a alturas tantas declarou que Olga Benario
é que havia sido a grande paixão da sua vida
algo que ele nunca dissera com todas as letras antes,
ao menos em público.
Veja Rir
de si mesmo é um dos mandamentos da comédia? Jô Eu diria que é
um mandamento da vida, não só da comédia.
Veja O que, para você, melhor define o que é ser
humorista? Jô
Diz a lenda que, quando um grande comediante estava para morrer,
seus amigos lhe perguntaram se estava sendo difícil
enfrentar o fim. "Não", ele disse. "Morrer é
fácil. Difícil é a comédia."