Schneider e Schelp, em Caracas:
o desvario de Chávez visto pela ótica de
dez cidadãos venezuelanos
O presidente venezuelano Hugo
Chávez é um espécime assustador para
quem é obrigado a viver sob seu jugo e exemplar do
ponto de vista da ciência política. Ele ilustra
em tempo real como é possível destruir a democracia
transformando em veneno os próprios ritos democráticos.
Outros já o fizeram em tempos idos e latitudes mais
frias. Foi assim com Adolf Hitler, na Alemanha, para ficar
no caso mais vistoso. Sentado numa montanha de petrodólares,
armado até os dentes e com o Legislativo e o Judiciário
na coleira, Chávez é um narcisista que não
mede esforços liberticidas para eternizar-se no poder.
O estrago feito na Venezuela por "El Supremo" foi constatado,
em Caracas, pelo editor Diogo Schelp e pelo fotógrafo
Anderson Schneider. Na reportagem que começa na página
86, eles mostram, por meio das histórias de oito pessoas
que tiveram a vida abalada pelo que já pode ser chamado
de ditadura chavista, como o desvario ideológico se
infiltrou no cotidiano daquele país.
Um dos relatos
mais tocantes é o de Angela Beatriz Sposito Falcón,
de 20 anos, vítima de perseguição na
universidade em que cursa psicologia. Filha de um ex-funcionário
da companhia estatal de petróleo que se exilou depois
de participar de uma greve contra Chávez, ela não
tem acesso aos benefícios concedidos aos estudantes
e está na lista negra do Ministério da Educação.
Ao mesmo tempo, quem adere ao chavismo sobe rapidamente na
vida, como demonstram duas histórias que também
constam da reportagem. Ao fim e ao cabo, o "socialismo do
século XXI" do caudilho venezuelano repete como farsa
o socialismo do século XX. Felizmente, no Brasil, as
tentações autoritárias da esquerda não
encontraram terreno propício para vingar. Mas, por
mais distantes que estejamos da nação vizinha
no plano institucional, é bom não descuidar.
Na América Latina, continua valendo o velho mote de
que o preço da liberdade é a eterna vigilância.
Os venezuelanos se descuidaram. Deu em Chávez.