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Brasil Espião
X espião O jogo da escuta clandestina,
uma especialidade de Brasília, nunca esteve tão intenso quanto
agora, na reta final das CPIs 
Julia Duailibi
Fotos Ana Araujo  | ujo
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 | Delcidio
descobriu que tinha espionagem eletrônica em seu quarto de hotel. Heloísa
Helena recebeu ameaças no celular e Lorenzoni (ao lado) destrói
tudo no picador de papel |
Especialistas em saúde usam
o termo paranóia para descrever desconfiança ou suspeita aparentemente
infundada. A temperatura política nos últimos dias em Brasília
tem causado essa espécie de distúrbio em muitos parlamentares integrantes
das CPIs. Telefones grampeados, sensação de estar sendo seguido,
familiares ameaçados. Deputados e senadores têm identificado mudanças
em sua rotina desde que começaram a investigar o valerioduto. Em alguns
casos, há motivo concreto para desconfiança. Em outros, mero delírio.
Os telefones vêm sendo o principal
motivo de desconforto para quem faz parte das investigações. O deputado
Antonio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA), da CPI dos Correios, passou a usar
cinco aparelhos celulares com números diferentes. Um pouco menos cauteloso,
o presidente da comissão, Delcidio Amaral (PT-MS), usa apenas quatro linhas
de celular. "Mas duas delas troco de quatro em quatro semanas", afirma Delcidio.
O senador Alvaro Dias (PSDB-PR) foi protagonista de um episódio constrangedor.
Um araponga a serviço de um inimigo político chegou a avisá-lo
de que a linha de telefone de sua casa em Curitiba estava grampeada. Segundo o
senador, o espião ainda acrescentou: "Desta vez não fomos nós".
A senadora Heloísa Helena
(PSOL-AL) e Delcidio Amaral viveram situações concretas. A senadora
recebeu uma ameaça em uma mensagem gravada na caixa postal de seu celular
no fim de julho. Embora afirme já ter recebido até ameaças
de morte no decorrer de sua vida política, Heloísa Helena diz que,
desta vez, ficou realmente assustada. O telefonema dava detalhes sobre a vida
de um parente próximo. A Polícia Federal passou a monitorar as ligações
da senadora a seu pedido. Delcidio
chamou investigadores profissionais para fazer uma varredura em suas linhas de
telefone. Já tinha desconfiança de que sua família estava
sendo seguida. A loja de roupas infantis de sua mulher em Campo Grande e a vida
de um irmão que mora em São Paulo não teriam escapado do
tal "monitoramento" dos arapongas. Os profissionais que fizeram o trabalho para
Delcidio encontraram um grampo instalado no aparelho de telefone de seu quarto
no hotel Blue Tree Towers, onde vive em Brasília. Alguém provavelmente
conseguiu entrar no quarto do senador para colocar o grampo. "Agora só
falo ao telefone na varanda", disse Delcidio, que teme escutas ambientes no quarto.
A investigação particular descobriu um tal de "agente Fabinho" por
trás da espionagem. As suspeitas
dos parlamentares apontam quase sempre para a Agência Brasileira de Inteligência
(Abin), antigo Serviço Nacional de Informações (SNI). Questionado
por VEJA, o Gabinete de Segurança Institucional, subordinado à Presidência
da República e ao qual a Abin está ligada, negou qualquer participação
nesses episódios. Os grampos telefônicos não são os
únicos que despertam arrepios na classe política. Há cerca
de quinze dias, o PFL mudou suas tradicionais reuniões do restaurante Piantella
em Brasília para a casa de senadores e deputados. Motivo: suspeita de que
as conversas estavam sendo gravadas. "Optamos então por lugares onde podemos
ficar mais à vontade", diz um cacique do partido. Até com rascunhos
os políticos têm sido cautelosos. Os trituradores de papel são
quase uma unanimidade no Senado, onde existem atualmente 114 aparelhos. Durante
as CPIs, a direção-geral da casa já recebeu novas encomendas.
O gabinete do senador Demostenes Torres (PFL-GO), por exemplo, pediu um modelo
mais potente, com capacidade de destruir vários blocos de papel por vez.
O deputado Onyx Lorenzoni (PFL-RS) conta que usa a máquina para evitar
que os inimigos saibam a linha de investigação que está seguindo.
Diz ele: "É um dos poucos cuidados que tomo". |