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Brasil A
propina de Severino A escandalosa história
do deputado que, de março a novembro de 2003, cobrou 10 000 reais mensais
do concessionário do restaurante da Câmara - e ficou uma fera no mês em
que o empresário extorquido só conseguiu pagar-lhe 6 000 reais...
 Alexandre
Oltramari
Dida
Sampaio/AE
 | MURRO
NA MESA Severino, ao reagir à denúncia
de que recebia propina de Buani, dono de um dos restaurantes da Câmara:
"Mentira, canalha, safado!" | |
O
juiz do escândalo do mensalão, o parlamentar que, na condição
de presidente da Câmara dos Deputados, vai presidir o processo de cassação
dos dezoito acusados de receber propina, quem diria, foi ele próprio atingido
por um sério indício de que achacava um empresário. É
feio, mas tudo indica que Sua Excelência recebeu um "mensalinho". O primeiro
pagamento da propina de 10 000 reais ao deputado Severino Cavalcanti saiu no dia
12 de março de 2003, uma quarta-feira. A propina de abril foi paga em duas
prestações: uma no dia 9, outra no dia 16. No mês seguinte,
voltou a ser dividida em duas parcelas, sendo a primeira paga no dia 7 de maio
e a segunda no dia 15. Em junho, o pagamento foi à vista: 10 000 reais
pagos no dia 11, também uma quarta-feira. E assim foi-se cumprindo o cronograma
de desembolso ao longo do ano de 2003 até o último pagamento de
que se tem notícia, realizado no dia 12 de novembro. O registro minucioso
dessa transação clandestina foi feito pelo empresário Sebastião
Augusto Buani, 54 anos, dono do restaurante Fiorella, instalado no 10º andar
do prédio anexo à Câmara dos Deputados. Em julho passado,
acossado por crescentes dificuldades comerciais, Buani escreveu duas folhas de
próprio punho narrando sua relação com Severino e, num toque
talvez involuntário de picardia, deu até título ao manuscrito:
"A história de um mensalinho". O manuscrito foi mais tarde digitado em
um computador e guardado.
Para quem
jamais andou pelos corredores da Câmara dos Deputados, a suspeita de que
um concessionário de espaço comercial da Casa tenha sido achacado
por Severino pode parecer uma tremenda surpresa, mas os comentários de
que isso acontecia eram recorrentes. Na Câmara, existem vários concessionários
de espaços destinados a restaurantes, farmácias, lanchonetes, agências
de viagens, bancas de jornal. Em geral, há uma concorrência para
cada local, e o vencedor passa a pagar uma quantia mensal. Pela concessão
de seu restaurante, por exemplo, Buani deveria estar pagando 11 580 reais mensais
à Câmara mas, em dificuldades, já deve 105 000 reais.
A suspeita de que os concessionários são forçados a pagar,
por fora, além do que prevê a lei é tão insistente
que, recentemente, voltou a se espalhar a partir de um movimento banal. Um assessor
de Severino esteve na diretoria-geral da Câmara e pediu cópia dos
contratos de todos os concessionários. Pronto. Foi o que bastou para que
os concessionários começassem a ficar de cabelo em pé com
o que poderia estar por vir. "A história
de um mensalinho" é o primeiro indício concreto de que as suspeitas
de achaques de Severino podem ser verdadeiras. O texto de Buani, ao qual VEJA
teve acesso, é riquíssimo em detalhes. Ele informa que os envelopes
com a propina de Severino eram entregues "às senhoras Gabriela e Ruceli".
Acrescenta que as propinas pagas em setembro (pagamento à vista, no dia
11) e em outubro (dois pagamentos, dias 8 e 16) foram feitas diretamente ao deputado
Severino, em pessoa. Conta, ainda, que não conseguiu juntar os 10.000 reais
para pagar a propina de agosto porque no mês anterior o movimento de seu
restaurante foi fraco. Então, no dia 13 de agosto, despachou um envelope
com apenas 6.000 reais, entregue nas mãos de "Ruceli". Severino ficou uma
fera com o abatimento na propina. "Levei uma bronca do deputado por telefone",
relata o empresário. Buani anotou até a hora em que as propinas
foram pagas. A de 13 de agosto, abatida em 4.000 reais, por exemplo, foi paga
às 16h56. Era sempre no fim da tarde, entre 16h e 18h30. Nunca antes disso.
Nunca depois disso. No gabinete de
Severino, há duas secretárias. Gabriela Kênia dos Santos da
Silva Martins trabalha ali desde 2002. A outra é Rucely Paula Camacho.
Está com Severino desde 2001. Elas não se lembram de receber envelopes
de Buani ou seus funcionários. "Como é que vou lembrar de uma coisa
que aconteceu em 2003?", diz Gabriela Martins. "Posso ter recebido envelope, mas
não me lembro", diz Rucely. A memória de Buani é implacável
quando se trata de narrar os desembolsos para Severino. "O seu cartão de
crédito" escreveu Buani "pelo menos uma vez eu paguei em
cheque. Foi descontado pelo motorista do deputado na agência Bradesco 0241,
com a gerente do banco cujo nome é Jane. Tive de confirmar o cheque para
que fosse pago." Na agência 0241, havia de fato uma gerente chamada Jane
de Albuquerque, que hoje trabalha no Sudameris. Ela confirmou a VEJA que cuidava
da conta de Buani. "Liguei a ele para confirmar alguns cheques", relembra. "É
regra do banco. Cheque acima de 5.000 reais precisa desse procedimento." A quebra
de sigilo bancário de Buani revelará a identidade do sacador, caso
o cheque não tenha sido endossado pelo empresário. E, se aparecer
o nome de um dos três motoristas de Severino naquele período, será
um caso facilmente liquidado. Fotos
Ana Araújo
 | Fotos
Ana Araújo
 |  | RAINHA
DAS PROVAS O empresário Buani, ao colocar
um maço de dinheiro no bolso, e seu restaurante, no 10º andar de um
prédio anexo da Câmara. À direita, duas secretárias
de Severino, Rucely e Gabriela, para quem os envelopes lacrados contendo a propina
de 10 000 reais costumavam ser entregues, de acordo com o que Buani escreveu:
um documento assinado por Severino é a rainha das provas |
Apesar da fartura de detalhes, cabe uma indagação: e se Buani inventou
toda essa história? Ele não pode ter criado um relato comprometedor
para Severino só para arrancar vantagens para seu restaurante? Afinal,
no próximo dia 14 de setembro vence a concessão do restaurante,
e Buani, que gostaria de ver sua concessão renovada por mais um ano, terá
de fazer as malas. Ele não poderia estar chantageando o deputado Severino?
"Este homem é um chantagista", disse Severino a VEJA. "Isso é uma
mentira. Ele é um canalha, safado! Esse homem não merece as calças
que veste", repetiu, dando tapas na mesa de sua casa oficial, onde recebeu VEJA
cercado por seis auxiliares um advogado, três assessores de imprensa
e dois funcionários da Câmara. De início, Severino disse que
só conhecia Buani por alto, por freqüentar seu restaurante, e que
jamais o recebera em seu gabinete. Mais adiante, Severino admitiu até que
Buani vivia em seu gabinete levando "pleitos de várias naturezas". Mas
negou a propina. A defesa de Severino
tem muito adjetivo, e pouca substância. O contrato de concessão de
Buani para explorar o restaurante encerrou-se em janeiro de 2003, depois da quarta
e necessariamente última prorrogação. Buani, no entanto,
não foi convidado a se retirar. O deputado Severino mandou que fosse feita
uma licitação para escolher o novo concessionário, mas a
licitação não se realizou, e ficou tudo por isso mesmo. De
tal modo que Buani operou seu restaurante ao longo de todo o ano de 2003 sem nenhum
amparo legal. O que havia de extraordinário nesse ano? No relato de Buani,
foi o ano da propina. Com dificuldades financeiras, o empresário diz que
não conseguiu mais pagar a propina a partir de dezembro de 2003. Por uma
incrível coincidência, em fevereiro de 2004, dois meses depois da
suspensão da propina, seu império começou a ruir. Buani tinha
oito concessões na Câmara, entre restaurantes e lanchonetes. Naquele
mês, perdeu seis. Ele especula: "Não sei se foi por punição".
Na concorrência aberta em setembro de 2004, Buani conseguiu habilitar-se
para ocupar o seu espaço atual no 10º andar o tal que vence
nas próximas semanas. O ponto
mais frágil da defesa de Severino, no entanto, refere-se ao que se passou
em 2002. No início daquele ano, Buani quis prorrogar a licença para
seu restaurante por mais algum tempo e procurou o deputado que, na época,
era o primeiro-secretário e cuidava justamente desse tipo de assunto. Buani
relata que conseguiu a prorrogação que queria, mas teve de desembolsar
40.000 reais para Severino e o deputado Gonzaga Patriota, do PSB de Pernambuco.
Ele escreveu: "Insistiram tanto que paguei 40.000. Entreguei 20.000 ao Severino
e 20.000 ao Gonzaga Patriota". A prorrogação veio na forma de um
documento, assinado por Severino em abril de 2002, mas que não tinha nenhum
valor legal. É o documento mais escandaloso e comprometedor de toda essa
história. Ali, num clandestino ato de ofício, Severino prorroga
a licença de Buani até 2005. Severino não tinha poderes para
isso e, ao fazê-lo, produziu uma prova cabal das relações
promíscuas que manteve com Buani. "É, esse documento vai derrubar
o Severino", lamentou um assessor do deputado, olhos marejados, ao perceber a
gravidade do problema. O documento, ao qual VEJA teve acesso, está nos
arquivos de Buani. O deputado Gonzaga
Patriota admite que foi procurado por Buani, mas nega peremptoriamente ter recebido
dinheiro. Já Severino, que assinou o documento, afirma o seguinte: "Eu
sou um homem experimentado. Tenho mais de quarenta anos de vida pública,
mas não tenho a menor lembrança de ter assinado esse documento dando
a prorrogação. O que pode ter acontecido é ter juntado esse
negócio, ou alguém ter botado no meio dos documentos e eu ter assinado
sem ler", diz Severino. E prossegue: "Acredito que não tenha assinado,
mas pode ser que, numa hora lá... Posso ter assinado. Alguém pode
ter incluído nos documentos de maneira criminosa e mal-intencionada. Esse
homem é capaz de tudo". O empresário Sebastião Augusto Buani
tem 54 anos e vive do ramo de alimentação. Ele foi procurado por
VEJA na quarta-feira passada, na hora do almoço. Ouviu um relato resumido
das informações que a revista tinha e decretou: "Não conheço
nada dessa história". VEJA, então, desceu aos detalhes: valores,
datas, agência do Bradesco, envelopes para Gabriela e Rucely, bronca por
telefone e... O empresário apenas escutou, mordeu os lábios, olhou
para o teto e perguntou: "Como é que eu saio dessa?". VEJA recomendou que
contasse a verdade. Buani pediu para voltar a falar com a revista passada a faina
do almoço em seu restaurante. Não deu mais notícia. |