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Roberto
Pompeu de Toledo
A
ressurreição
tem futuro?
Algumas
questões
suscitadas
pela
novidade
de
congelar os
mortos, em
vez de enterrá-los
Há coisas incompreensíveis no mundo. Que se está
dizendo? Que banalidade é essa? Claro que há coisas incompreensíveis.
Na verdade, a maior parte das coisas é incompreensível
a vida e a morte, a origem e o fim... Não. Sossegue o leitor que
não é dessas altas questões que se vai tratar aqui.
É de caso mais pedestre, extraído da atualidade o
caso do jogador de beisebol americano Ted Williams, morto há poucas
semanas, aos 83 anos, e cujo corpo foi congelado, à espera de que,
descoberta a cura da doença que o matou, seja ressuscitado.
Ted Williams foi um dos gigantes do esporte americano, um Pelé
do beisebol. Por isso, a decisão de congelar-lhe o corpo, tomada
pelos filhos, chamou a atenção. Mas tal opção
vem se tornando freqüente. No laboratório de congelamento
a que ele foi encaminhado, outros 49 corpos estão na mesma situação.
E mil pessoas, ainda vivas, estão inscritas para, quando morrer,
ter o mesmo destino.
Ressuscitar é antiga aspiração humana. A imortalidade
é antiga aspiração. Surgiu no mesmo instante em que
o primeiro humano tomou consciência de que ia morrer. Não
é pela aspiração à ressurreição,
ou à imortalidade, portanto, que o caso de Ted Williams é
incompreensível. Tampouco o é pelos meios escolhidos. Não
se congela comida com bons resultados? Não se congela sêmen?
Não há certeza de que com corpos possa acontecer o mesmo,
mas também não há certeza do contrário. Acresce
que a medicina tem feito progressos notáveis. Quem pensaria, um
século atrás, que se viesse a fazer transplante de órgãos?
Se é assim, quem assegura que daqui a algumas décadas, ou
um século, a medicina não tenha progredido a ponto de ressuscitar
os corpos e curar-lhes da doença que os vitimou? Até aqui,
estamos diante de cenários razoáveis. O problema...
O problema é quando se tem em conta o Ted Williams que será
ressuscitado digamos, daqui a 100 anos. Ele morreu com 83 anos.
Os octogenários vivem bem hoje em dia. Muitos são felizes
e continuam produtivos. Mas um corpo de 83 anos, convenhamos, é
um corpo de 83 anos. Não é fácil recomeçar
a vida aos 83 anos, e "recomeçar a vida", aqui, não é
uma metáfora, como quando se perde a fortuna, ou a mulher, e fala-se
em recomeçar a vida, mas tem o significado muito literal de nascer
outra vez.
Imagine-se Ted Williams renascido, no ano de 2102. Temos o caso clássico,
tão explorado nos filmes e romances, do personagem que desembarca
num tempo que não é o seu. Todo um mundo novo se desvenda
a seu redor. Novas tecnologias e novos costumes. Comida diferente, roupas
diferentes, jeito diferente de falar. Além disso, Ted Williams
não conhece ninguém. Onde estão a mulher, os filhos,
os amigos? A menos que tenham sido todos congelados, e descongelados ao
mesmo tempo hipótese improvável, pois, por mais que
venha crescendo, o congelamento ainda não é uma opção
de massas , ninguém estará lá. Williams se
verá só, num mundo desconhecido, e num corpo de 83 anos.
Existem certas coisas que esse corpo não faz. Por exemplo, jogar
beisebol. Williams estará privado de dedicar-se ao que mais gosta.
E de reiniciar uma carreira que o reconduziria à riqueza e à
celebridade. O fim da história será melancólico.
Nosso personagem opta por voltar ao congelamento. Ou talvez por algo melhor
morrer.
Uma alternativa seria renascer num corpo mais jovem. Os que morrem jovens
e têm o corpo congelado estarão poupados de alguns dos incômodos
sofridos por Williams. Mas e os que morrem velhos, poderiam eles ressuscitar
em outro corpo, menos usado? Há gente que aposta nisso. São
os que, no mesmo laboratório que congelou Williams, escolhem ter
apenas a cabeça congelada. A suposição é a
de que, à falta da "alma", cuja existência ainda não
foi detectada pelos dissecadores de cadáveres, o cérebro
contenha aquilo que determina o "eu", a identidade, a personalidade. Implantado
o cérebro em outro corpo, a vida daquele que foi dono do cérebro
conheceria um recomeço.
A dificuldade aqui é: como arranjar esse outro corpo? Se, daqui
a 100 anos, estiver provado que o congelamento dá certo, está
afastada a hipótese de que haja doadores de corpo. Todos vão
querer conservar o seu. Também é difícil (por ora)
supor que se consiga fabricar um corpo artificial, com todas as partes
menos o cérebro, a ser implantado oportunamente. Mas digamos que
seja possível, que de alguma forma haja corpos disponíveis
para receber cérebros congelados. Assistiremos então a engates
extraordinários. Por exemplo: o cérebro de um Jorge Luis
Borges implantado num corpo de Xuxa. Teríamos então uma
Xuxa capaz de dar continuidade a O Aleph. Mas será que é
mesmo o cérebro que comanda o "eu"? Ou é o corpo? Se for
o corpo, o que teríamos é um Jorge Luis Borges treinado
para dançar com paquitas e comandar baixinhos. Pode um cérebro
continuar o mesmo sem o corpo original? Ou o corpo impõe suas razões
ao cérebro? Perdoe o leitor, tínhamos prometido não
tocar nos grandes mistérios da vida e da morte, mas eis-nos afundados
neles.
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