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O vôo hipersônico

Australianos testam protótipo
de motor de
avião que chega
a 9 800 quilômetros por hora

 
AP
HyShot é lançado por um foguete: oito vezes a velocidade do som

Imagine voar em apenas duas horas de São Paulo a Tóquio, um percurso que hoje demora mais de um dia. Não existe um avião rápido o suficiente para executar tal proeza. Mas não se trata de um sonho impossível. Na semana passada, um grupo de cientistas australianos da Universidade de Queensland realizou o primeiro vôo bem-sucedido com um motor hipersônico, capaz de chegar a 9.800 quilômetros por hora, mais de oito vezes a velocidade do som, que é de 1.200 quilômetros por hora. Caso venha a equipar um avião de passageiros, o motor, batizado como HyShot, pode reduzir o tempo de uma viagem entre São Paulo e Paris para pouco menos de uma hora. A velocidade do Concorde, o avião de passageiros mais rápido que existe, é de 2.200 quilômetros por hora, duas vezes a do som.

O curioso é que a tecnologia do motor, chamada de scramjet, é conhecida há meio século, mas nunca tinha sido testada com sucesso. O sistema vale-se do fluxo de ar que entra no motor para acionar a queima do combustível, que no caso é hidrogênio. Isso faz com que o motor seja mais leve que as turbinas convencionais, mas também traz um problema: ele não consegue iniciar a propulsão sozinho, quando não há um fluxo de ar forte o suficiente para fazê-lo funcionar. O protótipo que voou na Austrália foi impulsionado por um foguete que subiu até 300.000 metros de altitude. Depois começou a descer em direção ao solo, adquirindo a velocidade de Mach 5, ou seja, cinco vezes a do som, necessária para iniciar sua operação. Quando estava a 35.000 metros do chão, o motor começou a funcionar e impulsionou o protótipo em velocidade hipersônica até que ele se espatifasse no chão, como previam os técnicos. "É a mesma coisa que um automóvel com dois motores, um para fazê-lo chegar a 100 quilômetros por hora, e outro que acelere o carro de 100 até 300, 400 ou 500 quilômetros por hora", diz Amilcar Porto Pimenta, chefe do departamento de propulsão do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).

No ano passado, o teste de um equipamento semelhante construído pela Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos, lançou dúvidas sobre a viabilidade da tecnologia. O vôo de um protótipo de avião com scramjet, chamado X-43A, foi abortado logo depois da decolagem, quando os técnicos perceberam que o aparelho não funcionaria como o esperado. Um vexame e tanto, já que a Nasa havia investido 180 milhões de dólares no projeto, 100 vezes o que os australianos gastaram no HyShot. A aplicação prática do scramjet, por enquanto, deve restringir-se ao lançamento de satélites e mísseis. O uso dessa tecnologia em aviões civis e militares vai demorar no mínimo dez anos. Quando isso acontecer, os caças mais velozes de hoje, aviões de guerra que voam a mais de 3.000 quilômetros por hora, vão virar peças de museu.

   
 
Foto Vinicius Romanini

   
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