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Edição 1 763 - 7 de agosto de 2002
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Mutirão da fome

A cidade mais obesa do Brasil
faz do regime
para emagrecer
um projeto comunitário

Arlete Lorini

 
Fotos Liane Neves
Três-cantenses em regime, na frente do placar geral: cartilha define cardápios

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Reportagens do arquivo de VEJA

Duas toneladas é pouco. A meta dos gorduchos da cidade gaúcha de Lagoa dos Três Cantos era perder 3 toneladas em quatro meses. Mesmo contabilizando "apenas" 2.137 quilos a menos, devidamente inscritos em um enorme placar, os três-cantenses estão satisfeitos com os resultados preliminares do regime coletivo a que se submetem. Com a iniciativa, eles querem livrar-se da fama de habitantes da cidade mais obesa do Brasil. Cerca de 60% da população local, na maioria descendentes de alemães, apresenta obesidade ou, na melhor das hipóteses, excesso de peso. A largada foi dada em 16 de março. Hoje, 503 cidadãos de peso (quase um terço da população) aderiram ao programa de emagrecimento por pontos desenvolvido pelo endocrinologista Alfredo Halpern, da Universidade de São Paulo. Um dos mais entusiasmados, o ex-prefeito Ernor Weber, 43 anos, comemora: já perdeu onze de seus 104 quilos e conta dispensar mais treze até o Natal.

Fundado há dez anos, o município de Lagoa dos Três Cantos, com 1.650 habitantes, começou a prestar atenção ao que come quando se constatou que, lá, 25% da população é hipertensa devido ao excesso de peso causado pela dieta ultracalórica. "Nosso único regime até hoje tinha sido o de comer muita cuca", conta Edi Dorst, 65 anos, 138 quilos (perdeu catorze), que segue o programa junto com a filha Noeli, 47 anos, 111 quilos (perdeu nove). Cuca, esclareça-se, é a especialidade local: um bolo alemão à base de ovos, manteiga, açúcar, recheio de geléia, requeijão, doce de leite ou coco. A equipe de Halpern elaborou uma cartilha específica para a cidade, pontuando os 300 alimentos mais consumidos localmente, e fiscaliza os resultados via internet ou ligação telefônica gratuita.

 
O ex-prefeito Weber e família à mesa: em forma no Natal

Os tais pontos, decoradíssimos (um copo de cerveja, 33; uma fatia de cuca de coco, 88), são assunto de todas as conversas, para o bem e para o mal. Quanto menos, melhor. O casal de agricultores Soneta, 44 anos, e Eclair Petry, 53, celebra a perda conjunta de 24 quilos, à custa de sofridas decisões, como a de só fazer os célebres bolos quando receber visitas. Desgostoso, o filho Elizandro, 22 anos, que nunca teve problema de peso, observa que ninguém visita a casa desde março. Animado com o resultado, que inclusive reduziu o gasto com merenda escolar em 40%, o prefeito Édio Schrader anuncia: "Vamos ser o município mais saudável do mundo". Para ele, é fácil falar: com 67 quilos, é um dos raros magros da cidade.

   
 
   
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