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Edição 1 763 - 7 de agosto de 2002
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De olhos bem abertos

Criar uma dobrinha na pálpebra
é a moda entre os descendentes
de orientais no Brasil

Rosana Zakabi

 
Álbum de família
Claudio Rossi
A estudante Karen Kataguiri antes da operação e hoje: sonho de adolescência

A moda entre os descendentes de imigrantes orientais é encomendar ao cirurgião plástico uma dobrinha de pele extra nas pálpebras. Chamam a isso de "ocidentalizar" os olhos, pois a pálpebra lisa é uma característica das pessoas originárias do Extremo Oriente. Não é o único modismo entre os filhos e netos de japoneses, coreanos e chineses. Mocinhas delicadas apelam para próteses de silicone ansiosas por ter quadris roliços como os da dançarina Scheila Carvalho ou seios voluptuosos como os da atriz Danielle Winits. Também são comuns, para ambos os sexos, a plástica para afinar o nariz e o uso de prótese na batata das pernas para diminuir o vão existente entre elas, outra característica do corpo oriental.

A ocidentalização estética tem no Japão e na Coréia do Sul a popularidade da lipoaspiração no Brasil. Por aqui também está causando furor. Estima-se que 14.000 pessoas, sobretudo em São Paulo e no Paraná, submetam-se a cirurgias de ocidentalização a cada ano, o dobro do que acontecia no início dos anos 90. Metade dessas intervenções médicas é para criar a dobrinha sobre os olhos. A operação é relativamente simples e rápida. Consiste em retirar parte da gordura existente nas pálpebras superiores e, na maioria das vezes, também de uma tirinha fina de tecido muscular para eliminar o aspecto inchado, típico dos rostos orientais. Depois, é feita uma "dobrinha" em cima dos olhos.

Como muitas adolescentes descendentes de japoneses, a paulistana Karen Kataguiri, de 17 anos, usava um tipo de cola vendida em casas especializadas para "grudar" as pálpebras superiores e formar a dobrinha. Ela colocava a substância pela manhã e retirava à noite, antes de dormir. Três semanas atrás, ganhou de presente dos pais a sonhada cirurgia plástica. "Minhas primas já haviam feito, e ficou legal, por isso meus pais se convenceram de que poderia ser um bom negócio", diz ela. Muitas das clientes do cirurgião plástico Paulo Keiki Matsudo, de São Paulo, querem aumentar as mamas e as nádegas. "Geralmente as orientais têm mamas e bumbum menores que a média brasileira", afirma o médico. "Por isso, elas nos procuram para tentar aproximar-se desse padrão." Boa parte dos pacientes é de dekasseguis, descendentes de imigrantes japoneses que foram trabalhar como operários no Japão e lá fizeram um pé-de-meia.

O processo de ocidentalização não é barato. A operação para criar a dobrinha nos olhos custa, em média, 3.000 reais. Outras cirurgias chegam a 7.000 reais. O paulistano Johnny Miyagi, de 36 anos, diretor de uma retransmissora de TV no Japão, criou sua pálpebra ocidental um mês atrás. "Apareço na televisão com freqüência. Por isso, queria realçar meu olhar", conta ele. "Ficou muito melhor do que antes." Modificar as feições pode parecer uma forma de renegar as origens, mas nem todos vêem a questão por esse ângulo. "O ser humano tem necessidade de ser aceito onde vive", observa a cirurgiã plástica Edith Kawano Horibe, professora da Universidade Federal de São Paulo, que faz dezenas de ocidentalizações de olhos por ano. "Ter um corpo dentro dos padrões sociais faz com que ele se sinta mais integrado." Em outras palavras, enquanto ser bonito no Brasil for sinônimo de ter bumbum e mamas abundantes, as clínicas de cirurgia plástica continuarão lotadas de descendentes de orientais.

   
 

   
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