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Sérgio
Abranches
Ondas
e turbulências
"O
mercado está respondendo com fogo
de verdade a uma fumaça de gelo-seco.
A campanha ainda não começou para
valer, não há intenções de voto cristalizadas
nem tendências
eleitorais
discerníveis"
Ilustração Ale Setti
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O Brasil pode ter de passar estas eleições com o cinto de
segurança afivelado, a julgar pela semana que tivemos. A zona de
turbulência é extensa e está baseada em leitura apressada
da meteorologia eleitoral. Nada garante que novas impressões imprecisas
não venham a provocar outras vagas cambiais. O mercado financeiro
olha as pesquisas de intenção de voto como se elas contivessem
grande quantidade de voto cristalizado e vê a pré-campanha
como se campanha fosse. Como os investidores temem que uma vitória
da oposição . Lula ou Ciro leve o país
à insolvência e à reestruturação forçada
da dívida, a demanda por dólar sobe e o real se desvaloriza.
O pior é que esse pânico nada tem a ver com os chamados fundamentos
da economia, nem com tendências eleitorais firmes um câmbio
muito acima de 2,70 reais não tem justificativa econômica
nem política , apesar das opiniões em contrário
de alguns investidores e candidatos. Tudo o que aconteceu no mês
de julho foi o aumento da incerteza sobre quem estará no segundo
turno portanto, maior risco para os três candidatos que se
mostram competitivos: Lula, Serra e Ciro , o resto foi fumaça
de gelo-seco.
Fumaça produzida por um fenômeno típico das eleições
brasileiras: a onda de popularidade decorrente da exposição
na TV, intensa e institucional, de um único candidato, usando o
programa partidário. Houve cinco ondas Lula, Garotinho,
Roseana, Serra e Ciro , cada uma apagou da memória a anterior.
Diferentemente da campanha, que começará em 20 de agosto,
o candidato aparece só, portanto o cidadão não tem
como compará-lo aos demais. Na campanha, a exposição
é comparativa, competitiva e ainda mais intensa. Tem mais poder
de cristalizar votos.
As ondas têm uma seqüência conhecida. A primeira fase
é de crescimento na pesquisa, com pouca repercussão editorial
e no noticiário. A segunda é de repercussão e reverberação
do crescimento, principalmente no noticiário. A terceira é
de reconhecimento editorial. A mídia não apenas reverbera
o crescimento e a simpatia, mas começa a analisar a candidatura.
Da análise surgem as dúvidas, das dúvidas, a visão
mais crítica. É a fase madura da onda, que ocorre quando
o candidato está na crista da popularidade.
Lula, na sua onda, saiu de 8 pontos de vantagem sobre o segundo
então José Serra para 22 pontos, ao atingir a crista
(todos os dados são do Ibope). Após o amadurecimento da
onda, foi perdendo fôlego relativamente, para voltar ao ponto inicial.
Quando a última onda atingiu sua crista, ficou a 9 pontos de distância
do novo segundo colocado, Ciro Gomes. Mais conhecido e com um grande eleitorado
cativo, Lula teve a mais extensa de todas as ondas. Serra, na crista de
sua onda, ficou 10 pontos à frente de Ciro, cuja entrada na TV
interrompeu a onda tucana. Ele chegou a ficar 13 pontos à frente
de Serra e na última terça-feira sua vantagem era de 11
pontos. O único sinal mais negativo para Lula, sempre em primeiro,
é que três candidatos, no topo de suas respectivas ondas,
conseguiram superá-lo nas simulações de segundo turno:
Roseana, 46% a 39%; Serra, 43% a 40%; e Ciro, 47% a 40%.
Agora as pesquisas se estabilizaram com o amadurecimento da "onda Ciro".
Será mais difícil para ele sustentar o pico. Durante as
ondas, nas pesquisas espontâneas o nível de indecisão
não se alterou muito. Indício forte de que não há
ainda posições cristalizadas sobre os candidatos na opinião
pública e de que a volatilidade aumentará com o horário
eleitoral gratuito.
O mercado está respondendo com fogo de verdade a essa fumaça
de gelo-seco. Como uma fuga de espectadores da sala de teatro, quando
a fumaça de festim invade o palco. Na dúvida, pernas, para
que as quero? Não há intenções de voto cristalizadas,
a campanha ainda não começou para valer e ainda não
há tendências eleitorais discerníveis. Só volatilidade
das intenções de voto. As pesquisas de julho mostraram que
Ciro Gomes é competitivo e Garotinho não é. Em nada
afetaram a competitividade de Serra ou de Lula. A campanha na TV aumentará
a intensidade e mudará a natureza da exposição dos
candidatos à opinião pública, ao mesmo tempo que
elevará grandemente o nível de informação
política e eleitoral da população. É improvável
que essa conjugação de fatores não provoque mudança
significativa na tendência do voto. Houve muito menos evolução
e cristalização da opinião eleitoral do que toda
essa repercussão na mídia e nos mercados faz supor.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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