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Edição 1 763 - 7 de agosto de 2002
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Sérgio Abranches

Ondas e turbulências

"O mercado está respondendo com fogo
de verdade a uma fumaça de gelo-seco.
A campanha ainda não começou para
valer, não há intenções de voto cristalizadas
nem
tendências eleitorais discerníveis"


Ilustração Ale Setti


O Brasil pode ter de passar estas eleições com o cinto de segurança afivelado, a julgar pela semana que tivemos. A zona de turbulência é extensa e está baseada em leitura apressada da meteorologia eleitoral. Nada garante que novas impressões imprecisas não venham a provocar outras vagas cambiais. O mercado financeiro olha as pesquisas de intenção de voto como se elas contivessem grande quantidade de voto cristalizado e vê a pré-campanha como se campanha fosse. Como os investidores temem que uma vitória da oposição –. Lula ou Ciro – leve o país à insolvência e à reestruturação forçada da dívida, a demanda por dólar sobe e o real se desvaloriza.

O pior é que esse pânico nada tem a ver com os chamados fundamentos da economia, nem com tendências eleitorais firmes – um câmbio muito acima de 2,70 reais não tem justificativa econômica nem política –, apesar das opiniões em contrário de alguns investidores e candidatos. Tudo o que aconteceu no mês de julho foi o aumento da incerteza sobre quem estará no segundo turno – portanto, maior risco para os três candidatos que se mostram competitivos: Lula, Serra e Ciro –, o resto foi fumaça de gelo-seco.

Fumaça produzida por um fenômeno típico das eleições brasileiras: a onda de popularidade decorrente da exposição na TV, intensa e institucional, de um único candidato, usando o programa partidário. Houve cinco ondas – Lula, Garotinho, Roseana, Serra e Ciro –, cada uma apagou da memória a anterior. Diferentemente da campanha, que começará em 20 de agosto, o candidato aparece só, portanto o cidadão não tem como compará-lo aos demais. Na campanha, a exposição é comparativa, competitiva e ainda mais intensa. Tem mais poder de cristalizar votos.

As ondas têm uma seqüência conhecida. A primeira fase é de crescimento na pesquisa, com pouca repercussão editorial e no noticiário. A segunda é de repercussão e reverberação do crescimento, principalmente no noticiário. A terceira é de reconhecimento editorial. A mídia não apenas reverbera o crescimento e a simpatia, mas começa a analisar a candidatura. Da análise surgem as dúvidas, das dúvidas, a visão mais crítica. É a fase madura da onda, que ocorre quando o candidato está na crista da popularidade.

Lula, na sua onda, saiu de 8 pontos de vantagem sobre o segundo – então José Serra – para 22 pontos, ao atingir a crista (todos os dados são do Ibope). Após o amadurecimento da onda, foi perdendo fôlego relativamente, para voltar ao ponto inicial. Quando a última onda atingiu sua crista, ficou a 9 pontos de distância do novo segundo colocado, Ciro Gomes. Mais conhecido e com um grande eleitorado cativo, Lula teve a mais extensa de todas as ondas. Serra, na crista de sua onda, ficou 10 pontos à frente de Ciro, cuja entrada na TV interrompeu a onda tucana. Ele chegou a ficar 13 pontos à frente de Serra e na última terça-feira sua vantagem era de 11 pontos. O único sinal mais negativo para Lula, sempre em primeiro, é que três candidatos, no topo de suas respectivas ondas, conseguiram superá-lo nas simulações de segundo turno: Roseana, 46% a 39%; Serra, 43% a 40%; e Ciro, 47% a 40%.

Agora as pesquisas se estabilizaram com o amadurecimento da "onda Ciro". Será mais difícil para ele sustentar o pico. Durante as ondas, nas pesquisas espontâneas o nível de indecisão não se alterou muito. Indício forte de que não há ainda posições cristalizadas sobre os candidatos na opinião pública e de que a volatilidade aumentará com o horário eleitoral gratuito.

O mercado está respondendo com fogo de verdade a essa fumaça de gelo-seco. Como uma fuga de espectadores da sala de teatro, quando a fumaça de festim invade o palco. Na dúvida, pernas, para que as quero? Não há intenções de voto cristalizadas, a campanha ainda não começou para valer e ainda não há tendências eleitorais discerníveis. Só volatilidade das intenções de voto. As pesquisas de julho mostraram que Ciro Gomes é competitivo e Garotinho não é. Em nada afetaram a competitividade de Serra ou de Lula. A campanha na TV aumentará a intensidade e mudará a natureza da exposição dos candidatos à opinião pública, ao mesmo tempo que elevará grandemente o nível de informação política e eleitoral da população. É improvável que essa conjugação de fatores não provoque mudança significativa na tendência do voto. Houve muito menos evolução e cristalização da opinião eleitoral do que toda essa repercussão na mídia e nos mercados faz supor.



Sérgio Abranches é cientista político
(
sergioabranches@sda.com.br)

 
 
   
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