Ponto de vista: Stephen
Kanitz
Os mesmos erros
do passado
"Lançar novamente títulos
com juros nominais
'flutuantes' é um retrocesso, é retomar o erro
que causou duas décadas perdidas. Não se
assegura 'estabilidade' monetária assinando
contratos com juros 'flutuantes' "
É assustador quão poucos jornalistas
econômicos e economistas criticaram o recente lançamento
pelo governo de 750 milhões de dólares de dívida,
com juros nominais "flutuantes". Dois que olharam feio foram o site
www.jubileubrasil.org.br
e o jornalista Ney Hayashi da Cruz, da Folha de S.Paulo.
A pegadinha está na palavra juro "flutuante".
Todo economista sabe que juros flutuam até o dia da assinatura
do contrato. Esse empréstimo é diferente. Ele reza
que os juros irão flutuar APÓS a assinatura do contrato.
A cláusula de juros não contém um número
predeterminado, como 3% ou 16%. A cláusula de juros reza
que o Brasil pagará a taxa LIBOR, QUALQUER QUE VENHA A SER
ESSA TAXA NO FUTURO. Você assinaria um contrato desses?
Dezenas de ministros e secretários
da Fazenda desde 1964 assinaram sem pestanejar. Assinaram contratos
indeterminados com relação ao preço dos juros,
com cláusula contratual incerta. Seus críticos consideraram
essa cláusula um verdadeiro cheque em branco. Segundo Delfim
Netto, na época não havia alternativa, era pegar ou
largar.
Sabemos o fim daquela história, a libor
"flutuou" para 16% em 1981, e todos os contratos efetuados quando
os juros eram de somente 4%, 5%, 6% e 7% foram imediatamente repactuados
para 16%. Passamos a pagar 16% sobre toda a nossa dívida,
passada e futura. Conclusão: quebramos, dando início
a duas décadas perdidas, quando perdemos a corrida contra
a Índia e a China.
Perguntei
ao melhor economista que tivemos, Mario Henrique Simonsen, por que
ele assinara esses contratos flutuantes: "A ciência econômica
não tinha meios de prever esse aumento excepcional dos juros".
Concordo plenamente, mas essa é justamente a razão
para não assinar esse tipo de contrato. A prudência
financeira nesse caso exigiria, no mínimo, negociar um teto
máximo de juros como precaução, digamos não
mais que 12%, ou negociar um hedge de juros na Bolsa de Chicago.
Nada disso foi feito.
O resto da administração pública
tem de se preocupar com o Orçamento da União, a Lei
de Licitação, o Tribunal de Contas, de pagar preço
fixo em tudo, enquanto um ministério tem carta branca para
assinar preço incerto?
Em 1986 fui trabalhar para o Ministério
do Planejamento, a pedido do ministro João Sayad, para tentar
cancelar esses contratos com juros flutuantes e negociar contratos
com juros reais fixos pela duração do contrato, ou
seja, criar uma alternativa.
A revista Euromoney ficou sabendo do
plano e, para minha grande surpresa, o endossou com o editorial
intitulado "Entra em cena o Alquimista". Os "alquimistas" éramos
nós, do Ministério do Planejamento, que, na opinião
da publicação, estávamos transformando lixo
em ouro, apresentando um plano ganha-ganha além de
reduzir os juros para 3% reais, fixos e imutáveis, e eliminar
o risco da flutuação desestabilizadora. O editorial
completo está em meu site, www.kanitz.com.br.
Enquanto isso, o Ministério da Fazenda preparava a moratória,
uma estratégia perde-perde que nos custou muito caro.
Lançar novamente títulos com
juros nominais "flutuantes" é um retrocesso, é retomar
o erro que causou duas décadas perdidas. Não se assegura
"estabilidade" monetária assinando contratos com juros "flutuantes".
Em 2000, economistas da escola nominalista
de FHC pioraram a situação lançando o Global
Bond 40, com juros nominais fixos de 13% ao ano por quarenta anos,
meses antes de a taxa libor começar a cair para o atual patamar
de 1,8%.
Agora voltamos a lançar títulos
com juros "flutuantes", justamente quando todo mundo espera que
os juros americanos subam acentuadamente.
Que lógica é essa? Não
seria melhor lançar títulos com juros reais fixos,
como incentivou a Euromoney vinte anos atrás, medida
posteriormente adotada pelo governo americano, o que lhe permitiu
lançar títulos com juros reais de 3%, os famosos TIPS?
E se os juros subirem para 16%, como subiram
em 1981? Daquela vez foi uma surpresa, era o cisne negro, o evento
improvável, mas hoje nenhum economista pode dizer que é
impossível ocorrer de novo um juro desses.
Onde estão os protestos de todo mundo
que viveu flutuando nas duas décadas perdidas? Onde está
o bom senso financeiro? Vamos começar tudo de novo?
Stephen Kanitz é administrador
por Harvard
(www.kanitz.com.br)
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