Edição 1861 . 7 de julho de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
O navio bêbado

Um iate, encalhado a seco na
desdenhada Diadema, fornece
uma
inevitável metáfora do Brasil

Charles Ramos é um jovem estudante de Diadema, na Grande São Paulo, que faz poesias e letras de rap. Ele não discute os efeitos benéficos da lei que, desde 2002, determina o fechamento dos bares da cidade às 23 horas, mas aponta para o outro lado da moeda – quem circula depois dessa hora fica parecendo que está aprontando alguma. Com a lei, os crimes diminuíram, mas, ao mesmo tempo, um toque de recolher não declarado baixou sobre os habitantes. "E o lazer?", pergunta ele. Até o Clube do Rap tem de fechar na hora determinada. Ficaram ainda mais escassas as opções de diversão na cidade. Reni Batista é outro jovem estudante de Diadema. Ele conta que a fama de violento do município levava moradores a esconder que moravam nele. Nos currículos que expediam à procura de emprego, evitavam esse dado. Podia pegar mal.

As preocupações dos dois jovens dão uma idéia do que é Diadema. Prima pobre dos municípios do ABC paulista, não tem nem a indústria automobilística nem as recentes glórias futebolísticas acumuladas pelos vizinhos. Em vez de campeã paulista, como São Caetano, ou campeã da Copa do Brasil, como se sagrou Santo André na semana passada, Diadema foi campeã em taxa de homicídios. Em 1998, foram registrados 140 casos por 100.000 habitantes, segundo a Fundação Seade. Quando a cidade irrompia no noticiário nacional, era na esteira de episódios como o da Favela Naval, na qual um comando da Polícia Militar, chefiado por uma besta-fera que orgulhosamente se fazia chamar de "Rambo", foi filmado na rotina de massacrar os incautos que se aventuravam pela rua onde dava suas batidas.

Na opinião de Reni Batista, foi a repercussão na imprensa que acordou os habitantes para a realidade em que viviam. A violência e os assassinatos não chocavam mais. A lei dos bares provocou uma queda nos homicídios. Em agosto de 2002, primeiro mês depois de sua entrada em vigor, foram registrados cinco casos, contra dezoito no mesmo mês de 2001 e 28 no de 1999. No geral, eles caíram 25%. Mas a paisagem social continuou ingrata. Emprego? Quando se consegue é fora da cidade, longe. "Alguém de suas relações trabalha na própria Diadema?" Charles Ramos dá tratos à bola. "Deixa ver... Não, não conheço... Ah, sim, uma menina, Adriana." Entre todas as pessoas que conhece, conseguiu selecionar uma, não mais.

Diadema foi cenário, na semana passada, de um extraordinário espetáculo. Um iate cruzou a cidade. Um iate, não menos que isso, e não um iate qualquer, mas um exemplar de 30 metros de comprimento e 7 de altura, com 147 toneladas de peso. O itinerário foi de meros 500 metros, mas nem por isso menos extravagante. A embarcação estava escondidinha num galpão até que se decidiu transportá-la, sobre a carreta de uma empresa especializada nesse tipo de serviço, até um terreno algumas quadras adiante. O proprietário do iate é um empresário de São Paulo que a empresa transportadora se recusa a identificar. Ele o guardava ali por causa da proximidade das estradas que conduzem ao litoral. Resolveu transferi-lo do galpão para o terreno por motivo ignorado.

Na chegada ao terreno, problema. A carreta, e com ela o iate, atolou. Era peso demais para uma terra sem compactação suficiente para agüentá-lo. E lá ficou o bicho, por dois dias, um pedaço já dentro do terreno e outro fora, na rua – um branco e majestoso espécime, feito para reinar nos mares, agora indefeso e humilhado como baleia presa em banco de areia, a compor uma fantástica paisagem em que se confundia com carros que passavam e transeuntes que se ajuntavam, curiosos, para observá-lo. A quem viesse distraído poderia até parecer uma alucinação, uma versão dos navios fantasmas que alimentavam as lendas dos navegantes de outras eras. Se o poeta Rimbaud ressuscitasse, teria ali inspiração para a segunda versão de um de seus mais célebres poemas, Le Bateau Ivre, ou O Navio Bêbado.

Duas semanas atrás, esta página foi dedicada ao "arrastão na Suíça", como dizia o título. O assunto era o assalto múltiplo, do gênero "arrastão", que tinha vitimado a assistência de um show de música popular em Campos do Jordão. A fina Campos do Jordão, criada no encanto do frio e na serenidade da arquitetura alpina, onde é raro ver um pobre, e que, de tanto acreditar em sua embalagem européia, até se poderia sentir descolada do Brasil, de repente era sugada para dentro da mais feia realidade nacional. Em Diadema deu-se o choque contrário, da irrupção de um iate dos bacanas de outras plagas na paisagem de um Brasil desdenhado. O fato de o iate navegar a seco sobre ruas mais habituadas à dureza dos indicadores sociais adversos e das estatísticas criminais recordistas reforça, em chave surrealista, o estranhamento entre as duas espécies de Brasil que ali se sobrepunham. E o fato de ter encalhado contribui para o todo com uma metáfora, tacanha mas inevitável. O iate Brasil não sairá do lugar enquanto tiver de navegar sobre um mar de tantas diferenças.

 
 
 
 
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