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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
O navio bêbado
Um iate, encalhado
a seco na
desdenhada Diadema, fornece
uma inevitável metáfora
do Brasil
Charles Ramos é um jovem estudante
de Diadema, na Grande São Paulo, que faz poesias e letras
de rap. Ele não discute os efeitos benéficos da lei
que, desde 2002, determina o fechamento dos bares da cidade às
23 horas, mas aponta para o outro lado da moeda quem circula
depois dessa hora fica parecendo que está aprontando alguma.
Com a lei, os crimes diminuíram, mas, ao mesmo tempo, um
toque de recolher não declarado baixou sobre os habitantes.
"E o lazer?", pergunta ele. Até o Clube do Rap tem de fechar
na hora determinada. Ficaram ainda mais escassas as opções
de diversão na cidade. Reni Batista é outro jovem
estudante de Diadema. Ele conta que a fama de violento do município
levava moradores a esconder que moravam nele. Nos currículos
que expediam à procura de emprego, evitavam esse dado. Podia
pegar mal.
As preocupações dos dois jovens
dão uma idéia do que é Diadema. Prima pobre
dos municípios do ABC paulista, não tem nem a indústria
automobilística nem as recentes glórias futebolísticas
acumuladas pelos vizinhos. Em vez de campeã paulista, como
São Caetano, ou campeã da Copa do Brasil, como se
sagrou Santo André na semana passada, Diadema foi campeã
em taxa de homicídios. Em 1998, foram registrados 140 casos
por 100.000 habitantes, segundo a Fundação
Seade. Quando a cidade irrompia no noticiário nacional, era
na esteira de episódios como o da Favela Naval, na qual um
comando da Polícia Militar, chefiado por uma besta-fera que
orgulhosamente se fazia chamar de "Rambo", foi filmado na rotina
de massacrar os incautos que se aventuravam pela rua onde dava suas
batidas.
Na opinião de Reni Batista, foi a repercussão
na imprensa que acordou os habitantes para a realidade em que viviam.
A violência e os assassinatos não chocavam mais. A
lei dos bares provocou uma queda nos homicídios. Em agosto
de 2002, primeiro mês depois de sua entrada em vigor, foram
registrados cinco casos, contra dezoito no mesmo mês de 2001
e 28 no de 1999. No geral, eles caíram 25%. Mas a paisagem
social continuou ingrata. Emprego? Quando se consegue é fora
da cidade, longe. "Alguém de suas relações
trabalha na própria Diadema?" Charles Ramos dá tratos
à bola. "Deixa ver... Não, não conheço...
Ah, sim, uma menina, Adriana." Entre todas as pessoas que conhece,
conseguiu selecionar uma, não mais.
Diadema foi cenário, na semana passada,
de um extraordinário espetáculo. Um iate cruzou a
cidade. Um iate, não menos que isso, e não um iate
qualquer, mas um exemplar de 30 metros de comprimento e 7 de altura,
com 147 toneladas de peso. O itinerário foi de meros 500
metros, mas nem por isso menos extravagante. A embarcação
estava escondidinha num galpão até que se decidiu
transportá-la, sobre a carreta de uma empresa especializada
nesse tipo de serviço, até um terreno algumas quadras
adiante. O proprietário do iate é um empresário
de São Paulo que a empresa transportadora se recusa a identificar.
Ele o guardava ali por causa da proximidade das estradas que conduzem
ao litoral. Resolveu transferi-lo do galpão para o terreno
por motivo ignorado.
Na chegada ao terreno, problema. A carreta,
e com ela o iate, atolou. Era peso demais para uma terra sem compactação
suficiente para agüentá-lo. E lá ficou o bicho,
por dois dias, um pedaço já dentro do terreno e outro
fora, na rua um branco e majestoso espécime, feito para
reinar nos mares, agora indefeso e humilhado como baleia presa em
banco de areia, a compor uma fantástica paisagem em que se
confundia com carros que passavam e transeuntes que se ajuntavam,
curiosos, para observá-lo. A quem viesse distraído
poderia até parecer uma alucinação, uma versão
dos navios fantasmas que alimentavam as lendas dos navegantes de
outras eras. Se o poeta Rimbaud ressuscitasse, teria ali inspiração
para a segunda versão de um de seus mais célebres
poemas, Le Bateau Ivre, ou O Navio Bêbado.
Duas semanas atrás, esta página
foi dedicada ao "arrastão na Suíça", como dizia
o título. O assunto era o assalto múltiplo, do gênero
"arrastão", que tinha vitimado a assistência de um
show de música popular em Campos do Jordão. A fina
Campos do Jordão, criada no encanto do frio e na serenidade
da arquitetura alpina, onde é raro ver um pobre, e que, de
tanto acreditar em sua embalagem européia, até se
poderia sentir descolada do Brasil, de repente era sugada para dentro
da mais feia realidade nacional. Em Diadema deu-se o choque contrário,
da irrupção de um iate dos bacanas de outras plagas
na paisagem de um Brasil desdenhado. O fato de o iate navegar a
seco sobre ruas mais habituadas à dureza dos indicadores
sociais adversos e das estatísticas criminais recordistas
reforça, em chave surrealista, o estranhamento entre as duas
espécies de Brasil que ali se sobrepunham. E o fato de ter
encalhado contribui para o todo com uma metáfora, tacanha
mas inevitável. O iate Brasil não sairá do
lugar enquanto tiver de navegar sobre um mar de tantas diferenças.
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