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André
Petry
O país do partido único
"No
Brasil, as visões de mundo não são
representadas pelos partidos. É mais fácil
encontrar uma ONG do que um partido para
defender uma idéia. É o sinal eloqüente de
nossa debilidade partidária"
No Brasil, quase todo mundo é mais confiável
que os políticos. Nas pesquisas de credibilidade social,
os políticos quase sempre perdem para os banqueiros, os padres,
os jornalistas, os militares, os juízes. Invariavelmente,
aparecem no último pelotão. Os políticos costumam
alegar que os eleitores, na verdade, têm o hábito de
puni-los por uma qualidade: a de pertencerem a um poder mais aberto
que os demais. Seus defeitos, portanto, estariam mais expostos aos
olhos do público. De fato, as casas do Parlamento são
bastante visíveis e mais acessíveis que os gabinetes
dos banqueiros, a maioria das paróquias, redações,
quartéis e tribunais. O julgamento severo dos eleitores sobre
os políticos, porém, talvez não se refira apenas
às práticas do cotidiano parlamentar, mas principalmente
às posturas que eles adotam em períodos eleitorais.
Agora mesmo, eles andam por aí fazendo qualquer aliança,
com qualquer partido, sob qualquer compromisso, desde que isso lhes
renda um bom naco de votos. É petista de braço dado
com ex-collorido. É tucano com ex-malufista. Dá para
confiar em gente assim?
Em qualquer democracia, o desejável
é que os partidos políticos atuem como veículos
privilegiados de um conjunto de idéias, de uma concepção
de mundo, de uma visão de sociedade. Claro que, fazendo aliança
com o primeiro que aparece, negociando sabe-se lá que tipo
de mercadoria, os partidos não cumprem esse papel. Deixam
de ser círculos de idéias e se transformam em bandos
de interesses. No mercado do voto, trocam propostas por um minuto
de TV. Na malemolência dos compromissos, chega-se ao ponto
de considerar radical e intransigente gente que simplesmente defende
seus pontos de vista acima das conveniências da hora. Nos
Estados Unidos, se você é a favor de uma legislação
liberal sobre o aborto deve votar no Partido Democrata. Do contrário,
deve ficar com o Partido Republicano. E olha que, no fundo, não
existe lá muita diferença entre um democrata e um
republicano... E no Brasil? No Brasil, as visões de mundo
não são representadas pelos partidos. É mais
fácil encontrar uma ONG do que um partido para defender uma
idéia. É o sinal eloqüente de nossa debilidade
partidária.
Mas, apesar de tudo, dá, sim, para
confiar nos políticos. Em alguns, é claro. Eles não
são os culpados por tais deformações. São
apenas a personificação de um sistema partidário
que nasceu torto. Pelo modo como se formou o Estado brasileiro,
e sobretudo em razão do paternalismo estatal da primeira
metade do século passado, os partidos políticos no
Brasil não surgiram como canais de expressão de segmentos
sociais. Foi o contrário. Primeiro, nasceram e, depois, saíram
atrás de capturar a representação deste ou
daquele grupo social. Deu no que deu. Até hoje, os partidos
são incapazes de absorver e representar a complexidade da
sociedade brasileira. A comunidade gay, por exemplo, coloca 1,5
milhão de pessoas na rua em São Paulo e 600.000
no Rio de Janeiro, mas não logra ter voz partidária
entre as siglas que existem. Os partidos estão começando
a perceber que, sendo os gays tão numerosos como parecem,
talvez devam ser tratados como uma força eleitoral considerável.
Aí, repetindo o fenômeno histórico, os partidos
correm atrás para representá-los. No Brasil, são
tantos e tão iguais os partidos que eles agem, no campo das
idéias, como se fossem um partido único.
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