Edição 1861 . 7 de julho de 2004

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André Petry
O país do partido único

"No Brasil, as visões de mundo não são
representadas pelos partidos. É mais fácil
encontrar uma ONG do que um partido para
defender uma idéia. É o sinal eloqüente de
nossa debilidade partidária"

No Brasil, quase todo mundo é mais confiável que os políticos. Nas pesquisas de credibilidade social, os políticos quase sempre perdem para os banqueiros, os padres, os jornalistas, os militares, os juízes. Invariavelmente, aparecem no último pelotão. Os políticos costumam alegar que os eleitores, na verdade, têm o hábito de puni-los por uma qualidade: a de pertencerem a um poder mais aberto que os demais. Seus defeitos, portanto, estariam mais expostos aos olhos do público. De fato, as casas do Parlamento são bastante visíveis e mais acessíveis que os gabinetes dos banqueiros, a maioria das paróquias, redações, quartéis e tribunais. O julgamento severo dos eleitores sobre os políticos, porém, talvez não se refira apenas às práticas do cotidiano parlamentar, mas principalmente às posturas que eles adotam em períodos eleitorais. Agora mesmo, eles andam por aí fazendo qualquer aliança, com qualquer partido, sob qualquer compromisso, desde que isso lhes renda um bom naco de votos. É petista de braço dado com ex-collorido. É tucano com ex-malufista. Dá para confiar em gente assim?

Em qualquer democracia, o desejável é que os partidos políticos atuem como veículos privilegiados de um conjunto de idéias, de uma concepção de mundo, de uma visão de sociedade. Claro que, fazendo aliança com o primeiro que aparece, negociando sabe-se lá que tipo de mercadoria, os partidos não cumprem esse papel. Deixam de ser círculos de idéias e se transformam em bandos de interesses. No mercado do voto, trocam propostas por um minuto de TV. Na malemolência dos compromissos, chega-se ao ponto de considerar radical e intransigente gente que simplesmente defende seus pontos de vista acima das conveniências da hora. Nos Estados Unidos, se você é a favor de uma legislação liberal sobre o aborto deve votar no Partido Democrata. Do contrário, deve ficar com o Partido Republicano. E olha que, no fundo, não existe lá muita diferença entre um democrata e um republicano... E no Brasil? No Brasil, as visões de mundo não são representadas pelos partidos. É mais fácil encontrar uma ONG do que um partido para defender uma idéia. É o sinal eloqüente de nossa debilidade partidária.

Mas, apesar de tudo, dá, sim, para confiar nos políticos. Em alguns, é claro. Eles não são os culpados por tais deformações. São apenas a personificação de um sistema partidário que nasceu torto. Pelo modo como se formou o Estado brasileiro, e sobretudo em razão do paternalismo estatal da primeira metade do século passado, os partidos políticos no Brasil não surgiram como canais de expressão de segmentos sociais. Foi o contrário. Primeiro, nasceram e, depois, saíram atrás de capturar a representação deste ou daquele grupo social. Deu no que deu. Até hoje, os partidos são incapazes de absorver e representar a complexidade da sociedade brasileira. A comunidade gay, por exemplo, coloca 1,5 milhão de pessoas na rua em São Paulo e 600.000 no Rio de Janeiro, mas não logra ter voz partidária entre as siglas que existem. Os partidos estão começando a perceber que, sendo os gays tão numerosos como parecem, talvez devam ser tratados como uma força eleitoral considerável. Aí, repetindo o fenômeno histórico, os partidos correm atrás para representá-los. No Brasil, são tantos e tão iguais os partidos que eles agem, no campo das idéias, como se fossem um partido único.

 
 
 
 
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