Modernista do contra
Ismael Nery, o pintor que só ganhou
fama
três décadas depois de morrer, é tema
de
uma grande retrospectiva
Lucila Soares
Quando morreu, em 1934, o pintor paraense Ismael Nery era
um joão-ninguém das artes plásticas.
Na época, ninguém em perfeito juízo
tiraria dinheiro do bolso para comprar uma de suas obras.
Tanto que a própria viúva do artista, a poeta
Adalgisa Nery, acabou deixando sua herança
o acervo do pintor sob a guarda do melhor amigo do
casal, o escritor Murilo Mendes, por achar que aquilo não
valia muita coisa. O mais clássico e contido dos
modernistas brasileiros também não despertava
grande interesse junto à crítica. O baixo
prestígio tinha raízes no espírito
da época. Nery não estava nem um pouco sintonizado
com a temática nacionalista explorada pelos artistas
de sua geração, como Tarsila do Amaral ou
Portinari. Por causa disso, só arrancava reações
de repúdio e desdém. Contrariando uma regra
importante no circuito das artes plásticas, era também
ruim no que mais tarde viria a se chamar de "marketing pessoal".
Apesar da técnica exímia seus professores
de belas-artes recomendaram-lhe estudar na França,
por não terem mais o que ensinar , declarava-se
um amador. Faz sentido, portanto, que não tenha vendido
um único quadro em vida. Morto precocemente, aos
33 anos, em conseqüência de uma tuberculose galopante,
Nery permaneceu esquecido por mais de trinta anos. Sua obra
só voltou à tona em 1965, quando a Bienal
de São Paulo resgatou cinco telas do artista para
uma mostra sobre surrealismo.
|
|
 |
 |
|
Como Meu Amigo
Chagall e dois nus de Nery:
influência do surrealista russo e esposa como
musa de várias obras
|
De lá para cá, Ismael Nery tornou-se um
nome tão valorizado nos leilões de arte quanto
Tarsila, Portinari ou Di Cavalcanti. Em 1972, um de seus
auto-retratos atingiu o maior preço pago até
então por uma pintura brasileira: o equivalente,
na época, a 50.000 dólares.
Hoje, especula-se que a mesma tela valha 1 milhão
de dólares. E qualquer um dos 120 óleos do
pintor, apostam os especialistas, não sairia atualmente
por menos de 200.000 dólares.
Como sua obra está quase toda nas mãos de
colecionadores particulares, é raro ver grandes retrospectivas
do artista. Houve uma no cinqüentenário de sua
morte, em 1984. E, nesta terça-feira, entra em cartaz
no Rio de Janeiro a mostra que marca o centenário
de seu nascimento: Ismael Nery 100 Anos, a Poética
de um Mito, no Centro Cultural Banco do Brasil. Composta
de 44 óleos sobre tela e 123 obras em papel, a exposição,
que deve chegar a São Paulo em setembro, revela um
artista de múltiplas facetas. Além de pintor,
Nery foi poeta e aventurou-se por ramos como o design e
a arquitetura. Na exposição, isso é
revelado em croquis, painéis e esboços. Outra
característica forte é seu apego à
filosofia e à religião. De formação
católica, Nery levava seus traços não
raro para o terreno da metafísica. Isso transparece
de maneira perturbadora nos desenhos que ele fez quando
já vislumbrava o fim iminente. Um deles tem título
sinistro: Morte de Ismael. Uma curiosidade: Nery
chegou a fundar uma escola filosófica, chamada "essencialismo".
 |
 |
|
Nery, num auto-retrato e na vida
real: morte precoce
|
Pedido de casamento Com sua pintura, o artista
mergulhou em temas introspectivos e trafegou por diversas
vertentes modernistas, especialmente o surrealismo. Em Paris,
tomou contato com um dos maiores expoentes dessa tendência,
o pintor russo Marc Chagall, cuja obra se tornou fonte de
inspiração. O desenho Como Meu Amigo Chagall,
com sua atmosfera onírica, é ótimo
exemplo dessa influência. No mais das vezes, porém,
a obra de Nery seguia um estilo muito pessoal. Era obcecado
pelas formas humanas, exploradas principalmente em nus femininos
e figuras esguias que exibem os olhos vazios. Os modelos
de boa parte desses quadros eram o próprio artista,
sua mulher e o amigo Murilo Mendes. As relações
com Adalgisa azedaram no final da vida de Nery, quando este
passou a circular pelo Rio com uma amante. Mendes, por sua
vez, era tão apaixonado pela esposa do amigo que
a pediu em casamento, em vão, após a morte
do artista. Ao que consta, eles nunca formaram um triângulo
amoroso. Mendes ficou por trinta anos com as obras que lhe
foram confiadas por Adalgisa. Pouco antes da exposição
de 1965, ela as retomou para si. E fez a alegria dos marchands.