Edição 1 652 -7/6/2000

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Modernista do contra

Ismael Nery, o pintor que só ganhou fama
três décadas depois de morrer, é tema de
uma grande retrospectiva

Lucila Soares

 
Murilo Mendes (à esq.) e Ismael Nery

Ouça um poema de Ismael Nery (em .mp3)

Quando morreu, em 1934, o pintor paraense Ismael Nery era um joão-ninguém das artes plásticas. Na época, ninguém em perfeito juízo tiraria dinheiro do bolso para comprar uma de suas obras. Tanto que a própria viúva do artista, a poeta Adalgisa Nery, acabou deixando sua herança – o acervo do pintor – sob a guarda do melhor amigo do casal, o escritor Murilo Mendes, por achar que aquilo não valia muita coisa. O mais clássico e contido dos modernistas brasileiros também não despertava grande interesse junto à crítica. O baixo prestígio tinha raízes no espírito da época. Nery não estava nem um pouco sintonizado com a temática nacionalista explorada pelos artistas de sua geração, como Tarsila do Amaral ou Portinari. Por causa disso, só arrancava reações de repúdio e desdém. Contrariando uma regra importante no circuito das artes plásticas, era também ruim no que mais tarde viria a se chamar de "marketing pessoal". Apesar da técnica exímia – seus professores de belas-artes recomendaram-lhe estudar na França, por não terem mais o que ensinar –, declarava-se um amador. Faz sentido, portanto, que não tenha vendido um único quadro em vida. Morto precocemente, aos 33 anos, em conseqüência de uma tuberculose galopante, Nery permaneceu esquecido por mais de trinta anos. Sua obra só voltou à tona em 1965, quando a Bienal de São Paulo resgatou cinco telas do artista para uma mostra sobre surrealismo.

 

Como Meu Amigo Chagall e dois nus de Nery: influência do surrealista russo e esposa como musa de várias obras

De lá para cá, Ismael Nery tornou-se um nome tão valorizado nos leilões de arte quanto Tarsila, Portinari ou Di Cavalcanti. Em 1972, um de seus auto-retratos atingiu o maior preço pago até então por uma pintura brasileira: o equivalente, na época, a 50.000 dólares. Hoje, especula-se que a mesma tela valha 1 milhão de dólares. E qualquer um dos 120 óleos do pintor, apostam os especialistas, não sairia atualmente por menos de 200.000 dólares. Como sua obra está quase toda nas mãos de colecionadores particulares, é raro ver grandes retrospectivas do artista. Houve uma no cinqüentenário de sua morte, em 1984. E, nesta terça-feira, entra em cartaz no Rio de Janeiro a mostra que marca o centenário de seu nascimento: Ismael Nery – 100 Anos, a Poética de um Mito, no Centro Cultural Banco do Brasil. Composta de 44 óleos sobre tela e 123 obras em papel, a exposição, que deve chegar a São Paulo em setembro, revela um artista de múltiplas facetas. Além de pintor, Nery foi poeta e aventurou-se por ramos como o design e a arquitetura. Na exposição, isso é revelado em croquis, painéis e esboços. Outra característica forte é seu apego à filosofia e à religião. De formação católica, Nery levava seus traços não raro para o terreno da metafísica. Isso transparece de maneira perturbadora nos desenhos que ele fez quando já vislumbrava o fim iminente. Um deles tem título sinistro: Morte de Ismael. Uma curiosidade: Nery chegou a fundar uma escola filosófica, chamada "essencialismo".

 

Nery, num auto-retrato e na vida real: morte precoce

Pedido de casamento – Com sua pintura, o artista mergulhou em temas introspectivos e trafegou por diversas vertentes modernistas, especialmente o surrealismo. Em Paris, tomou contato com um dos maiores expoentes dessa tendência, o pintor russo Marc Chagall, cuja obra se tornou fonte de inspiração. O desenho Como Meu Amigo Chagall, com sua atmosfera onírica, é ótimo exemplo dessa influência. No mais das vezes, porém, a obra de Nery seguia um estilo muito pessoal. Era obcecado pelas formas humanas, exploradas principalmente em nus femininos e figuras esguias que exibem os olhos vazios. Os modelos de boa parte desses quadros eram o próprio artista, sua mulher e o amigo Murilo Mendes. As relações com Adalgisa azedaram no final da vida de Nery, quando este passou a circular pelo Rio com uma amante. Mendes, por sua vez, era tão apaixonado pela esposa do amigo que a pediu em casamento, em vão, após a morte do artista. Ao que consta, eles nunca formaram um triângulo amoroso. Mendes ficou por trinta anos com as obras que lhe foram confiadas por Adalgisa. Pouco antes da exposição de 1965, ela as retomou para si. E fez a alegria dos marchands.