Poucos com muito
Rendimentos de executivos no Brasil batem
os
dos europeus e empatam com os americanos
Consuelo Diegue
Oscar Cabral
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Barreira, da Intelig: ofertas tentadoras
de emprego e troca rápida de empresas
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Enquanto muitos brasileiros brigam por uma vaga no mercado
de trabalho, cresce no país uma casta de superexecutivos
disputados a peso de ouro por empresas poderosas, com faturamento
na casa do bilhão de dólares por ano. Eles
são tão cobiçados que suas conversas
sobre salários com as companhias começam na
faixa dos 300.000 reais ao ano
e rompem a barreira do milhão de dólares.
São ganhos espetaculares em qualquer parte do mundo.
"Há quatro ou cinco anos, salários assim eram
muito raros no Brasil", diz Dárcio Crespi, sócio-gerente
da Heidrick & Struggles, consultoria internacional especializada
em recrutamento de executivos. "Mas ultimamente a coisa
anda explosiva."
O preço dessa mão-de-obra tem surpreendido
os representantes das multinacionais que desembarcam aqui
para montar o primeiro time de funcionários de suas
subsidiárias. A remuneração total dos
executivos está cerca de 30% acima do padrão
europeu e muito próxima do americano. E nesses dois
grupos estão os empregadores mais generosos do planeta.
Ao salário, que já é alto, somam-se
bonificações e vantagens que incluem aluguel
de imóvel, carro, passagens aéreas e o pagamento
das mensalidades escolares das crianças. Com todos
os penduricalhos, o rendimento do superfuncionário
chega a dobrar. Para que todos se empenhem no sucesso da
companhia, ainda há um estímulo adicional:
eles recebem ações das empresas que podem
ser vendidas depois de um prazo.
Há razões de sobra para justificar esses
valores. Primeiro, porque os superexecutivos, como os artistas
famosos e os craques de futebol, fazem a diferença
e, em geral, justificam o salário aumentando os lucros
da companhia. Segundo, porque o mundo está atravessando
um período de carência de mão-de-obra
altamente especializada e qualificada. E terceiro, porque,
numa economia globalizada, o preço da mão-de-obra
tende a se equiparar. "Estamos falando de um executivo global,
que muitas vezes tem responsabilidades regionais no continente",
diz Andrea Reti, consultora da Hewitt Associates. "Um figurão
assim tem de ser valorizado."
O fenômeno da alta nos salários dos executivos
já atacou o mercado brasileiro no passado. "No final
dos anos 80, os bancos pagavam qualquer dinheiro para ter
os melhores homens do mercado e tirar o máximo proveito
da inflação alta", diz o consultor Guilherme
Velloso, da PMC Amrop. A segunda onda veio com a abertura
econômica e a privatização. As empresas
passaram a caçar profissionais a laço porque,
da noite para o dia, precisavam de gente competente para
tocar as companhias adquiridas do Estado, de áreas
de atuação disputadíssimas, como telecomunicações
e energia. A onda mais recente é a da internet, com
suas empresas agressivas que recrutam executivos em companhias
da velha economia oferecendo salários de nababo.
Isso está acontecendo em todo o mundo e no Brasil
não tem sido diferente. "O mercado nunca esteve tão
aquecido", diz o presidente da Perfil Consultores Executivos,
do Rio de Janeiro, Antônio Carlos Martins. Com essa
enorme procura os salários subiram. Nos últimos
dois anos, o salto foi de cerca de 33%, três vezes
a inflação do período, segundo pesquisa
da Perfil.
Oscar Cabral
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Simões, da
SuperVia: quatro convites para deixar a Coca-Cola
e opção pelo desafio
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Nesta temporada de caça ao talento, a empresa de
recrutamento de executivos Manager registrou um aumento
de 45% nas contratações de figurões
em 1999, em comparação com o ano anterior.
Foram 6.590 contratados, principalmente
para as áreas financeira, comercial, administrativa
e de produção. Só no setor de telecomunicações
a Perfil Consultores Executivos detectou um crescimento
de 30% na oferta de vagas em 1999. O movimento turbinou
os salários e provocou um aumento na rotatividade
dos executivos. Antes eles costumavam ficar em média
seis anos no emprego. Agora, a troca se dá, em média,
a cada ano e meio. O engenheiro Guilherme Barreira, de 39
anos, é um exemplo dessa geração. Durante
treze anos foi gerente de marketing da Shell. Em agosto
de 1998 foi contratado pela ATL, operadora de telefonia
celular do Rio. Um ano e dois meses depois já estava
na Intelig, outra empresa de telefonia. "São ofertas
muito tentadoras", diz Barreira. Marco Simões, de
37 anos, até o início do mês passado
diretor de relações externas da Coca-Cola,
acaba de mudar-se para a SuperVia, empresa de transporte
ferroviário do Rio de Janeiro, recentemente privatizada.
É o novo diretor de marketing e vendas. Antes de
pegar esse trem, recebeu ofertas de outras três companhias.
"Vim pelo desafio", diz Simões. Com certeza, mas
também pelo salário mais alto.