Edição 1 652 -7/6/2000

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Poucos com muito

Rendimentos de executivos no Brasil batem os
dos europeus e empatam com os americanos

Consuelo Diegue


Oscar Cabral

Barreira, da Intelig: ofertas tentadoras de emprego e troca rápida de empresas


Enquanto muitos brasileiros brigam por uma vaga no mercado de trabalho, cresce no país uma casta de superexecutivos disputados a peso de ouro por empresas poderosas, com faturamento na casa do bilhão de dólares por ano. Eles são tão cobiçados que suas conversas sobre salários com as companhias começam na faixa dos 300.000 reais ao ano e rompem a barreira do milhão de dólares. São ganhos espetaculares em qualquer parte do mundo. "Há quatro ou cinco anos, salários assim eram muito raros no Brasil", diz Dárcio Crespi, sócio-gerente da Heidrick & Struggles, consultoria internacional especializada em recrutamento de executivos. "Mas ultimamente a coisa anda explosiva."

O preço dessa mão-de-obra tem surpreendido os representantes das multinacionais que desembarcam aqui para montar o primeiro time de funcionários de suas subsidiárias. A remuneração total dos executivos está cerca de 30% acima do padrão europeu e muito próxima do americano. E nesses dois grupos estão os empregadores mais generosos do planeta. Ao salário, que já é alto, somam-se bonificações e vantagens que incluem aluguel de imóvel, carro, passagens aéreas e o pagamento das mensalidades escolares das crianças. Com todos os penduricalhos, o rendimento do superfuncionário chega a dobrar. Para que todos se empenhem no sucesso da companhia, ainda há um estímulo adicional: eles recebem ações das empresas que podem ser vendidas depois de um prazo.

Há razões de sobra para justificar esses valores. Primeiro, porque os superexecutivos, como os artistas famosos e os craques de futebol, fazem a diferença e, em geral, justificam o salário aumentando os lucros da companhia. Segundo, porque o mundo está atravessando um período de carência de mão-de-obra altamente especializada e qualificada. E terceiro, porque, numa economia globalizada, o preço da mão-de-obra tende a se equiparar. "Estamos falando de um executivo global, que muitas vezes tem responsabilidades regionais no continente", diz Andrea Reti, consultora da Hewitt Associates. "Um figurão assim tem de ser valorizado."

 

O fenômeno da alta nos salários dos executivos já atacou o mercado brasileiro no passado. "No final dos anos 80, os bancos pagavam qualquer dinheiro para ter os melhores homens do mercado e tirar o máximo proveito da inflação alta", diz o consultor Guilherme Velloso, da PMC Amrop. A segunda onda veio com a abertura econômica e a privatização. As empresas passaram a caçar profissionais a laço porque, da noite para o dia, precisavam de gente competente para tocar as companhias adquiridas do Estado, de áreas de atuação disputadíssimas, como telecomunicações e energia. A onda mais recente é a da internet, com suas empresas agressivas que recrutam executivos em companhias da velha economia oferecendo salários de nababo. Isso está acontecendo em todo o mundo e no Brasil não tem sido diferente. "O mercado nunca esteve tão aquecido", diz o presidente da Perfil Consultores Executivos, do Rio de Janeiro, Antônio Carlos Martins. Com essa enorme procura os salários subiram. Nos últimos dois anos, o salto foi de cerca de 33%, três vezes a inflação do período, segundo pesquisa da Perfil.

 
Oscar Cabral

Simões, da SuperVia: quatro convites para deixar a Coca-Cola e opção pelo desafio

Nesta temporada de caça ao talento, a empresa de recrutamento de executivos Manager registrou um aumento de 45% nas contratações de figurões em 1999, em comparação com o ano anterior. Foram 6.590 contratados, principalmente para as áreas financeira, comercial, administrativa e de produção. Só no setor de telecomunicações a Perfil Consultores Executivos detectou um crescimento de 30% na oferta de vagas em 1999. O movimento turbinou os salários e provocou um aumento na rotatividade dos executivos. Antes eles costumavam ficar em média seis anos no emprego. Agora, a troca se dá, em média, a cada ano e meio. O engenheiro Guilherme Barreira, de 39 anos, é um exemplo dessa geração. Durante treze anos foi gerente de marketing da Shell. Em agosto de 1998 foi contratado pela ATL, operadora de telefonia celular do Rio. Um ano e dois meses depois já estava na Intelig, outra empresa de telefonia. "São ofertas muito tentadoras", diz Barreira. Marco Simões, de 37 anos, até o início do mês passado diretor de relações externas da Coca-Cola, acaba de mudar-se para a SuperVia, empresa de transporte ferroviário do Rio de Janeiro, recentemente privatizada. É o novo diretor de marketing e vendas. Antes de pegar esse trem, recebeu ofertas de outras três companhias. "Vim pelo desafio", diz Simões. Com certeza, mas também pelo salário mais alto.