Mataram o rei
Exames comprovam que João VI, rei
de Portugal,
morreu envenenado com arsênico
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| Dom João VI: desprezado pela
mulher |
Uma equipe composta de dois arqueólogos e um médico-legista
começou a rescrever a História de Portugal.
Exames químicos realizados pelo time de pesquisadores
comprovaram que o rei dom João VI morreu envenenado
com arsênico. As análises das vísceras
do monarca detectaram uma quantidade de veneno quase quatro
vezes maior que a necessária para matá-lo,
confirmando as suspeitas de que o rei, morto em 1826, foi
assassinado. Na época creditou-se sua morte a complicações
digestivas, ocorridas logo após um jantar em família.
Mas logo surgiram boatos de que ele havia sido envenenado.
As pesquisas que desvendaram o mistério agora criaram
outro ainda mais inquietante: quem matou o rei? "Trabalho
com fatos. Minha função de arqueólogo
está feita. O resto cabe aos historiadores", disse
a VEJA Fernando Rodrigues Ferreira, chefe da equipe de pesquisadores.
Dom João VI foi o rei de Portugal que em 1808,
fugindo das tropas de Napoleão que invadiram o país,
transferiu a corte para o Brasil. Por aqui ficou até
1821, quando uma revolta na cidade do Porto o obrigou a
retornar. Partiu levando sua esposa, Carlota Joaquina, e
sete dos oito filhos vivos. Só dom Pedro, o mais
velho, ficara no Brasil na condição de regente.
Em Portugal, o rei foi obrigado a jurar a Constituição
liberal, provocando a indignação da mulher
e do filho dom Miguel, ambos de olho no trono real. Carlota
Joaquina, que considerava o marido excessivamente tolerante,
uniu-se a dom Miguel e passou a conspirar contra o marido.
Em 1824, após uma tentativa fracassada de golpe para
derrubar o rei, Carlota foi confinada no Paço de
Queluz, e dom Miguel, exilado em Viena. Dois anos depois
o rei morria, misteriosamente. Será que a rainha
está por trás do crime? Carlota devotava total
desprezo ao marido, e as más línguas na corte
diziam que ele não era o pai dos últimos filhos
dela. Nada que um bom exame de DNA não pudesse esclarecer
hoje em dia.
O corpo de dom João VI foi embalsamado e levado
para o Panteão dos Reis de Bragança, no mosteiro
de São Vicente de Fora, em Lisboa. As vísceras
e o coração acomodados em um pote de porcelana
foram depositados em uma caixa de madeira e enterrados no
chão da Capela dos Meninos de Palhavã, no
mesmo mosteiro. Em 1993, durante a restauração
do mosteiro, o arqueólogo Ferreira encontrou dois
potes similares aos que continham os despojos do rei. Ao
notar que o material daqueles potes estava em bom estado
de conservação, teve a idéia de procurar
pelos restos do rei com o propósito de desvendar
o mistério sobre sua morte. As vísceras do
monarca estavam quase reduzidas a pó, mas, segundo
os pesquisadores, em condições de ser analisadas.
"O arsênico era muito usado para envenenar pessoas,
já que algumas formas da substância não
são perceptíveis ao olfato e ao paladar",
explica Ferreira. Para infelicidade do rei, um copo d'água
com arsênico é idêntico a um copo de
água pura.