Edição 1 652 -7/6/2000

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Cotas de 10%

Empresas multinacionais estão reservando
vagas para minorias. Principalmente negros

Anna Paula Buchalla e Juliana Martins

Algumas multinacionais instaladas no Brasil estão iniciando uma cruzada contra o preconceito. Departamentos de recursos humanos dessas companhias passaram a priorizar a contratação das chamadas "minorias". Negros, principalmente. Eles são cada vez mais bem-vindos nas organizações e não apenas para ocupar funções subalternas, mas para ser aproveitados em todos os níveis hierárquicos. As grandes companhias estão reservando algo como 10% das novas vagas para negros, homossexuais e deficientes físicos. A iniciativa ainda não é oficial e não há legislação que as obrigue a contratar um negro ou um gay, mas o processo já acontece em pelo menos catorze grandes grupos no Brasil (veja quadro). Trata-se de uma profunda revolução no ambiente de trabalho. Hoje, representantes das minorias sofrem com um preconceito velado na hora de conseguir uma ocupação. De acordo com levantamento feito em 1998 pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), o desemprego entre homens negros é em média 50% maior do que entre os brancos nas regiões metropolitanas. A sondagem mostra também que os salários das pessoas negras são, em geral, 50% mais baixos.

 
Antonio Milena

Luis Claudio Rosa (ao centro): promoção e chefia na Lucent Technologies


O fato de que se assiste a essa abertura em empresas multinacionais não é coincidência. Desde o ano passado, as matrizes dessas companhias no exterior vêm exigindo que se apliquem por aqui as normas que são obedecidas nas sedes. Nos Estados Unidos, por exemplo, as chamadas ações afirmativas foram instituídas na década de 60 pelo presidente John Kennedy, num momento em que o país vivenciava o auge de seus conflitos raciais. Determinou-se, na ocasião, que firmas e universidades deveriam reservar cotas ou abrir vagas de forma proporcional ao peso dos negros no total da população americana, cuja fatia é de 12%. A penalidade para os que desrespeitam essa regra é a dificuldade de realizar qualquer negócio com o governo. Depois de quase quarenta anos, a medida deu resultados práticos facilmente detectáveis. Hoje, um em cada três negros americanos pertence à classe média. Antes, a relação era de um para quinze.

No Brasil, onde o índice de negros e pardos na população é de 45%, duas razões motivam as firmas a preencher 10% dos cargos com representantes de minorias. A primeira é a imagem. É simpático mostrar que a empresa não discrimina ninguém. A outra é a produtividade. Estudos americanos indicam que a diversidade traz resultados positivos para a produtividade das companhias. Os especialistas em recursos humanos acreditam que o debate e a troca de experiências entre culturas diferentes aproximam a empresa do público consumidor. Ou seja: as companhias querem reproduzir em seu microuniverso o ambiente que se observa no mercado em geral. Tomem-se os exemplos da IBM, em São Paulo, e da General Motors do Brasil, em São Caetano do Sul. Nessas organizações existe uma norma bem clara: de cada dez vagas, uma fica com o candidato negro, mesmo que as competências não sejam iguais. "No princípio, a idéia das empresas era não boicotar minorias, mas elas acabaram descobrindo grandes talentos", diz Winston Pegler, sócio da consultoria Ray & Berndtson.

Muita gente reprova o sistema de cotas. Os opositores dessa "reserva de mercado" entendem que se trata de uma forma invertida de discriminação racial. Brancos com bom nível de competência estariam perdendo espaço para alguém que talvez não estivesse tão preparado para exercer determinada função. Até hoje, nos Estados Unidos, debatem-se as vantagens e desvantagens desse sistema. Uma pesquisa mostrou que, entre os americanos, 77% dos brancos preteridos se julgam discriminados, o que acaba reforçando o antagonismo racial que as cotas pretenderam reduzir. Lá, a coisa funciona da seguinte maneira: negros competem apenas com negros. Brancos disputam com brancos. O que acontecia com alguma freqüência é que uma parcela dos brancos não aproveitados tinha desempenho melhor que o de alguns negros contratados. Esse, no entanto, foi um passo precioso para diminuir as diferenças. Hoje, os próprios negros pedem o fim da legislação especial, já que começam a sentir-se marginalizados pela medida. Como se só tivessem conseguido a vaga em razão das cotas.

Na Xerox do Brasil, uma vez por ano os diretores analisam até que ponto as minorias estão sendo representadas nos cargos de chefia. Na multinacional Monsanto, o programa de diversidade inclui patrocínio de estudantes negros na vida universitária e recrutamento de minorias. No Citibank, qualquer funcionário que esteja ingressando no banco ouve uma palestra sobre a importância da diversidade e o repúdio à discriminação de cor, raça, sexo ou religião. Não se trata de um discurso formal, inventado apenas para produzir uma predisposição politicamente correta no novo funcionário. No Citi brasileiro, os empregados dispõem de um canal direto de comunicação com a sede da empresa em Nova York para denunciar possíveis atos de discriminação. "Pessoas já perderam o emprego por não seguir a política da companhia", diz Fátima Ferreira, diretora de controle interno do Citibank. Na Lucent Technologies, o engenheiro Luis Claudio Rosa foi um dos que se beneficiaram com os novos ares. Há quase cinco anos na empresa, ele foi promovido a diretor de tecnologia. Hoje, chefia uma equipe de 22 pessoas.

No Brasil, a tentativa de criar leis para resolver o problema das minorias nunca pegou. Atualmente, existe uma lei segundo a qual 30% dos candidatos políticos precisam ser obrigatoriamente do sexo feminino. No papel, muito bonito. Na prática não funcionou. O senador Antero de Barros, do PSDB, tem um projeto que tramita no Congresso prevendo que 50% das vagas nas universidades públicas do país sejam reservadas a quem cursou o ensino fundamental e médio em escolas públicas. Já foi aprovada numa das comissões do Senado. Mesmo que seja sancionada, a chance de ser respeitada no dia-a-dia é mínima. Para citar um último exemplo, há uma lei que obriga firmas de determinado porte a contratar uma porcentagem de deficientes físicos, e as pessoas nem sequer sabem que essa cota é uma exigência legal. Em relação a esse cacoete nacional de desrespeito às leis, a reserva de cotas como está sendo aplicada nas multinacionais tem a vantagem de não ser obrigatória. As múltis a aplicam porque querem e pronto. Numa pesquisa recente feita pela Universidade Federal Fluminense, do Rio de Janeiro, 58% dos entrevistados disseram que a reserva de mercado para negros é válida. Sinal de que as empresas estão refletindo um desejo da sociedade.

 

Lei para deficientes não pegou

Raul Junior

Sala do Hospital Albert Einstein: monitorada por deficientes


Pouca gente sabe, mas existe um decreto que obriga empresas brasileiras a contratar deficientes físicos. Todas as companhias com mais de 100 funcionários estão obrigadas a preencher de 2% a 5% de seus cargos com pessoas que apresentam deformações. A lei é de 1999 e até agora surtiu pouco efeito. A última sondagem feita pelo antropólogo João Baptista Ribas, na região metropolitana de São Paulo, apontava que apenas 16,6% das empresas obedeciam à legislação. É o caso do Hospital Albert Einstein, de São Paulo, cuja direção iniciou um programa para dar oportunidades aos deficientes físicos. O projeto prevê a possibilidade de contratação em qualquer uma de suas seções. Uma delas é a área de segurança. Lá, os deficientes monitoram pelas câmaras internas a chegada das ambulâncias e de helicópteros. No mais, há um desrespeito generalizado pela lei. As empresas alegam que não cumprem a legislação por dois motivos. O primeiro é que desconhecem o decreto. O segundo é que teriam de demitir outros empregados para colocá-la em prática. O Ministério Público não está convencido desses argumentos, e muitas instituições já estão sendo chamadas para adaptar-se às novas regras.