Ondas de fogo
Descoberta de bolhas
na superfície solar
pode ajudar a entender o clima na Terra
Bia Barbosa
Montagem sobre foto Soho/NASA-ESA
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Com 100 metros de altura e 45 000
quilômetros de largura, as colinas solares (na
representação artística)
são provocadas por ciclones que se formam com
a rotação do astro
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A influência do Sol nas alterações
climáticas da Terra é um mistério da
ciência. Nenhum cientista sabe com certeza como a
atividade solar afeta a vida no planeta em longos períodos
de tempo. Na semana passada, pesquisadores da Universidade
do Havaí deram um passo importante para a compreensão
do ciclo solar e do comportamento do astro, do qual depende
a vida que conhecemos. Com a ajuda do Observatório
Solar e Heliosférico (Soho), instalado na órbita
terrestre, foi possível identificar um novo tipo
de onda que percorre a superfície solar, chamado
Rossby. Formadas pelo movimento de rotação
da estrela, essas ondas podem conter informações
cruciais sobre a estrutura e a dinâmica da gigantesca
bola de gás. E, por tabela, se podem aferir seus
efeitos sobre nosso futuro. "São fenômenos
tão importantes para a análise do interior
do Sol quanto os terremotos para o estudo da Terra", disse
a VEJA Jeffrey Kuhn, o coordenador da pesquisa.
As ondas detectadas pelo Soho revelaram uma particularidade
inusitada da superfície solar, a chamada fotosfera.
O astro é recoberto por bolotas, como se fossem verrugas
gigantescas em sua camada visível de gases, de cerca
de 300 quilômetros de espessura. Trata-se na realidade
de uma rede de ciclones provocados pela propagação
das ondas Rossby, que ganham a configuração
de "colinas" com temperatura de 6.000
graus Celsius espalhadas de maneira uniforme por toda a
estrela. As estranhas formações são
relativamente baixas, com apenas 100 metros de altura, mas
a largura é monstruosa, em torno de 45 000 quilômetros,
mais de três vezes o diâmetro da Terra.
A Terra também tem suas ondas Rossby, provocadas
pela rotação do planeta. As oscilações
na superfície são suaves, com no máximo
5 centímetros de altura e cerca de 500 quilômetros
de extensão. Os cientistas acreditam que as ondas
Rossby podem esclarecer outro mistério. É
possível que elas estejam ligadas à rotação
irregular da estrela. Curiosamente, os pólos do astro
giram mais devagar que a região equatorial. Até
agora o que os astrônomos já sabem é
que as formações não têm relação
alguma com as famosas erupções solares, que
se estendem pelo espaço a distâncias enormes.
Enquanto as erupções são fenômenos
aleatórios, as colinas são parte de um movimento
regular e constante.
A medição é a mais precisa já
feita em uma estrela. Só foi possível devido
à altíssima sensibilidade do observatório
Soho, lançado ao espaço em 1995. Ainda assim,
o grau de acuidade equivale a identificar uma moeda na superfície
lunar com um telescópio terrestre. Dois satélites
semelhantes devem ser lançados até 2003 pela
Agência Espacial Européia e pela Nasa para
ajudar no monitoramento das alterações da
estrutura solar provocadas pelo ciclo vital da estrela.
Os cientistas pretendem calcular a quantidade de energia
liberada pelo astro durante o processo e a radiação
que chega à Terra.
O dado é fundamental para confirmar se as mudanças
na estrutura solar estão ligadas a ciclos climáticos
no planeta. Os pesquisadores pretendem checar se a pequena
glaciação na Terra ocorrida no século
XVIII decorreu de alterações na superfície
solar. Os invernos na Europa tornaram-se rigorosíssimos,
provocando quebra das colheitas e fome em vários
países. Na mesma época, astrônomos registraram
uma discreta variação na atividade solar.
Os dois acontecimentos eram vistos pela ciência como
mera coincidência. Agora, há condições
técnicas para descobrir se um foi causa e o outro
a conseqüência.