Edição 1 652 -7/6/2000

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Ondas de fogo

Descoberta de bolhas na superfície solar
pode ajudar a entender o clima na Terra

Bia Barbosa

 
Montagem sobre foto Soho/NASA-ESA

Com 100 metros de altura e 45 000 quilômetros de largura, as colinas solares (na representação artística) são provocadas por ciclones que se formam com a rotação do astro

A influência do Sol nas alterações climáticas da Terra é um mistério da ciência. Nenhum cientista sabe com certeza como a atividade solar afeta a vida no planeta em longos períodos de tempo. Na semana passada, pesquisadores da Universidade do Havaí deram um passo importante para a compreensão do ciclo solar e do comportamento do astro, do qual depende a vida que conhecemos. Com a ajuda do Observatório Solar e Heliosférico (Soho), instalado na órbita terrestre, foi possível identificar um novo tipo de onda que percorre a superfície solar, chamado Rossby. Formadas pelo movimento de rotação da estrela, essas ondas podem conter informações cruciais sobre a estrutura e a dinâmica da gigantesca bola de gás. E, por tabela, se podem aferir seus efeitos sobre nosso futuro. "São fenômenos tão importantes para a análise do interior do Sol quanto os terremotos para o estudo da Terra", disse a VEJA Jeffrey Kuhn, o coordenador da pesquisa.

As ondas detectadas pelo Soho revelaram uma particularidade inusitada da superfície solar, a chamada fotosfera. O astro é recoberto por bolotas, como se fossem verrugas gigantescas em sua camada visível de gases, de cerca de 300 quilômetros de espessura. Trata-se na realidade de uma rede de ciclones provocados pela propagação das ondas Rossby, que ganham a configuração de "colinas" com temperatura de 6.000 graus Celsius espalhadas de maneira uniforme por toda a estrela. As estranhas formações são relativamente baixas, com apenas 100 metros de altura, mas a largura é monstruosa, em torno de 45 000 quilômetros, mais de três vezes o diâmetro da Terra.

A Terra também tem suas ondas Rossby, provocadas pela rotação do planeta. As oscilações na superfície são suaves, com no máximo 5 centímetros de altura e cerca de 500 quilômetros de extensão. Os cientistas acreditam que as ondas Rossby podem esclarecer outro mistério. É possível que elas estejam ligadas à rotação irregular da estrela. Curiosamente, os pólos do astro giram mais devagar que a região equatorial. Até agora o que os astrônomos já sabem é que as formações não têm relação alguma com as famosas erupções solares, que se estendem pelo espaço a distâncias enormes. Enquanto as erupções são fenômenos aleatórios, as colinas são parte de um movimento regular e constante.

A medição é a mais precisa já feita em uma estrela. Só foi possível devido à altíssima sensibilidade do observatório Soho, lançado ao espaço em 1995. Ainda assim, o grau de acuidade equivale a identificar uma moeda na superfície lunar com um telescópio terrestre. Dois satélites semelhantes devem ser lançados até 2003 pela Agência Espacial Européia e pela Nasa para ajudar no monitoramento das alterações da estrutura solar provocadas pelo ciclo vital da estrela. Os cientistas pretendem calcular a quantidade de energia liberada pelo astro durante o processo e a radiação que chega à Terra.

O dado é fundamental para confirmar se as mudanças na estrutura solar estão ligadas a ciclos climáticos no planeta. Os pesquisadores pretendem checar se a pequena glaciação na Terra ocorrida no século XVIII decorreu de alterações na superfície solar. Os invernos na Europa tornaram-se rigorosíssimos, provocando quebra das colheitas e fome em vários países. Na mesma época, astrônomos registraram uma discreta variação na atividade solar. Os dois acontecimentos eram vistos pela ciência como mera coincidência. Agora, há condições técnicas para descobrir se um foi causa e o outro a conseqüência.