Edição 1 652 -7/6/2000

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Jogo do milhão

Milionário oferece prêmio pela solução de sete
grandes enigmas da ciência dos números

Ana Santa Cruz

 
Ilustração Wander Mendes

Na matemática existem verdades nas quais todo mundo acredita, que são aplicadas com sucesso na prática, mas que ninguém consegue demonstrar. Na ambição de decifrar tais enigmas, matemáticos do mundo inteiro dedicam anos de estudos, na maioria das vezes sem sucesso. Os cientistas têm agora um novo estímulo para solucionar as charadas matemáticas, algumas delas formuladas há mais de 100 anos. Landon Clay, um milionário americano apaixonado pelo universo dos números, ofereceu sete prêmios de 1 milhão de dólares cada para quem resolver aquilo que ele chama de os "sete enigmas do milênio". Esses problemas matemáticos, selecionados por uma comissão de quatro renomados cientistas, estão entre os mais conhecidos e intrigantes do mundo da ciência.

É o caso das equações de Navier-Stokes. Concebidas no século XIX, elas são largamente utilizadas na meteorologia e na aerodinâmica. Outro é a hipótese de Riemann, que trata da distribuição dos números primos (aqueles que só são divisíveis por 1 e por eles mesmos) e está relacionada à codificação de informações em redes de computadores. Milhões de transações financeiras on-line são feitas diariamente com a segurança de um sistema de criptografia tendo como base a hipótese de Riemann. Também vale 1 milhão de dólares a demonstração das equações de Yang-Mills, leis da física quântica estabelecidas há quase cinqüenta anos. O trabalho de Yang-Mills é utilizado para cálculos em escala microscópica, como processos envolvendo a aceleração de partículas, num papel análogo ao das leis de Newton no mundo macroscópico.

Entre os cientistas escalados pelo Instituto Clay de Matemática – a fundação de pesquisas mantida pelo ricaço americano – para a seleção dos enigmas estava o inglês Andrew Wiles, professor da Universidade de Princeton. Wiles ganhou fama mundial em 1995 ao demonstrar o último teorema de Fermat, pondo fim a um mistério de 363 anos. Ele tomou conhecimento da existência desse enigma quando tinha 10 anos. Adulto, dedicou oito anos exclusivamente à resolução do problema formulado no século XVII pelo magistrado e matemático francês Pierre de Fermat. Como muitos cientistas de seu tempo, Fermat gostava de manter secretas as demonstrações de seus teoremas. Muitos de seus cálculos foram feitos nas margens de livros.

Ao longo dos séculos, os matemáticos foram destrinchando os problemas e hipóteses formulados pelo sábio francês. Restou apenas um, o que finalmente foi desvendado por Wiles. A descoberta produziu novas técnicas e instrumentos matemáticos, revolucionou a geometria e rendeu ao pesquisador fama instantânea. A epopéia foi descrita no livro O Último Teorema de Fermat, do escritor Simon Singh. No Brasil já foram vendidos 22 000 exemplares desde 1998, um best-seller para os padrões nacionais. O sucesso explica-se pelo fascínio exercido pelos enigmas envolvendo números. Mesmo sem conseguir captar em profundidade a demonstração de Wiles, privilégio reservado aos especialistas em teoria de números, o leitor se deixa encantar pela complexidade do desafio.

A premiação do Instituto Clay de Matemática repete o desafio lançado há 100 anos pelo alemão David Hilbert, um dos mais importantes matemáticos da história. Em agosto de 1900, durante um congresso internacional em Paris, Hilbert submeteu 23 hipóteses à sagacidade de cientistas contemporâneos. Muitas permanecem sem comprovação formal até hoje, entre elas a persistente hipótese de Riemann e a conjetura de Poincaré, que fazem parte da lista pela qual se oferecem os prêmios milionários. Henri Poincaré, o autor da conjetura que leva seu nome, viveu na mesma época que Hilbert e usufruiu em seu tempo de enorme popularidade. Ele foi precursor do estilo de Carl Sagan, o tipo do cientista que sabia comunicar-se com o público e dar à ciência um sabor popular.

Os sete desafios foram lançados exatamente 100 anos depois do congresso de Paris. Esse tipo de concurso tem o propósito de estimular os pesquisadores e popularizar a matemática. Uma demonstração como a do teorema de Fermat desperta no cientista emoção equivalente à experimentada por um alpinista ao escalar o Everest. "As pessoas esquecem que as leis da matemática regem tudo que nos cerca", diz Arthur Jaffe, professor da Universidade Harvard e presidente do Instituto Clay. Ele acredita que as hipóteses podem levar anos para ser demonstradas, mas não considera importante o fator tempo. "Ao lançar os sete desafios queremos chamar a atenção do público para a ciência", afirma. Embora o concurso seja aberto a todos os interessados, só uns poucos matemáticos profissionais têm chances reais de faturar o prêmio de 1 milhão de dólares. As regras para participar do concurso podem ser consultadas no site www.claymath.org.

 

Brasileiros bons de conta

Regis Filho
Américo Vermelho

Costa e Dória: charada de 300 anos decifrada

O simples enunciado do principal problema da lista dos sete enigmas do milênio é capaz de dar um nó na cabeça: "Polinomial versus não polinomial", ou, como dizem os entendidos, P versus NP. Para os pesquisadores, esse é o mais fascinante dos desafios que valem 1 milhão de dólares. No Brasil, a questão formulada por Stephen Cook, em 1971, está sendo atacada por dois matemáticos de peso, os professores Newton da Costa, da Universidade de São Paulo, e Francisco Dória, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 1991, depois de uma década de estudos, eles revelaram, de uma só tacada, a solução para dois problemas que fascinavam matemáticos do mundo inteiro. Um era o Problema da Quadratura em Mecânica Clássica, que resistiu a mais de 300 anos de estudos. O outro foi o enigma de Morris Hirsch, elaborado em meados da década de 80. "A demonstração de P versus NP seria uma revolução", diz Francisco Dória. "Provada, daria a chave de todos os códigos que protegem as operações eletrônicas e obrigaria todos os bancos a reorientar seus sistemas de segurança."