O padrão nórdico
No país que já pertenceu
às morenas, a loirice
virou um estilo, um jeito de vencer na vida
Cida Souza
 |
Vladimir Fernandez
 |
| As clássicas:
cabelo mais curto e fendas que só prometem no
padrão de Ana Maria, Cléo (fotos),
Hebe e Xuxa |
Quem viu Xuxa e Hebe Camargo frente a frente em um recente
programa da Rede Globo levou um susto. Emolduradas pelos
cabelos loiríssimos, elas estavam iguaizinhas
descontadas, é claro, certas reentrâncias.
A imagem das duas apresentadoras resume um fenômeno:
entre as artistas, ser loira virou definitivamente um estilo,
um jeito de aparecer e vencer na carreira. E como são
as artistas que, em geral, influenciam a metade feminina
da população brasileira, pode-se ter uma idéia
de como o modelo vem sendo clonado à exaustão.
As loiras televisivas se dividem em grupos com características
distintas. O primeiro é o das loiras para consumo
infantil. Suas representantes são Angélica,
Eliana, Jackeline Petkovic, todas na casa dos 20 anos. Elas
têm cabelo comprido, quase não utilizam maquiagem
e estão invariavelmente de barriguinha de fora. Na
mesma faixa de idade, há as que se enquadram na categoria
vamp, como Adriane Galisteu e Carla Perez. Bem mais extrovertidas
do que as demais, usam roupas coladas e decotes profundos.
O terceiro grupo é composto de loiras, digamos, clássicas.
Ainda que a contragosto, a belíssima Xuxa faz parte
dessa turma. Sabe como é, apesar de todo aquele silicone,
ela já está com 37 anos e não mostra
o mesmo viço de quando era a preferida de Pelé.
Loiras clássicas cortam o cabelo mais para o curto
e disciplinam o penteado à custa de gel ou laquê.
A maquiagem é carregada, para disfarçar as
marcas do tempo, e as fendas e decotes mais deixam entrever
do que revelam. Em certos casos, prometem o impossível,
num caso típico de propaganda enganosa. Pertencem
a esse pelotão, entre outras, Ana Maria Braga, Cléo
Brandão e, evidentemente, Hebe Camargo.
Mario Llaguno
 |
Cida Souza
 |
| O tipo
vamp: roupas coladas ao corpo e muita desinibição
na categoria liderada por Adriane Galisteu e Carla Perez
|
Ser loira em um país de morenas é uma maneira
de sobressair e também de atender ao gosto da tigrada
do sexo oposto (gosto colonizado, enfatizaria um mal-humorado).
O curioso é que, apesar da preferência nacional
pelo padrão nórdico, muitas mulheres só
têm coragem de tingir os cabelos, emulando as artistas
de televisão, quando os primeiros fios brancos aparecem.
Tanto que um engraçadinho já disse que as
brasileiras não ficam velhas, ficam loiras. Mas é
precipitado dizer que a loirice artificial, não importam
as razões que levam a ela, é uma deformação
terceiro-mundista. Também nos países avançados
o fato se verifica e de há muito. Loira, afinal
de contas, é um ser especial desde que o cinema assim
decretou. A pioneira foi a atriz Jean Harlow (cabelo original:
castanho), que na década de 30 mesmerizava os homens
com seu tom platinado e sua piteira fatal. O arquétipo,
Marilyn Monroe (cabelo original: castanho escuro), protagonista
do filme Os Homens Preferem as Loiras. Embora na
maioria das vezes eles se casem é com as morenas,
Marilyn fez a alegria dos fabricantes de tinturas, servindo
de inspiração para zilhões de mulheres
nos anos 50. Foi nessa época que Hebe aderiu à
água oxigenada, depois de uma viagem aos Estados
Unidos. "Vi aquelas loiras maravilhosas e pensei: por que
não ficar como elas?", conta, orgulhosa de ter introduzido
a moda em território nacional. Hebe foi variando
o tom até chegar ao atual, retocado a cada duas semanas
a manutenção média da moçada
que consome de um a dois tubos de tintura para conservar
o dourado capilar.
Fotos Elina Germer, Cida Souza e J.M.
Ricardo
 |
| As loiras para consumo infantil:
a barriguinha de fora é uma constante em Eliana,
Jackeline e Angélica |
Ser loira não é fácil. Mesmo quem
nasceu clarinha, como Angélica e Jackeline, reforça
a loirice com xampus tonalizantes. E depois que a cantora
Madonna (cabelo original: castanho escuro) inventou que
não basta ser loira, tem de ser forte, as visitas
regulares ao cabeleireiro têm de ser intercaladas
com muita malhação. Muuuiiita. Por razões
insondáveis, é até possível
ser morena e cheinha. Mas loura e gordota? Nunca, jamais,
bate aí na madeira. Basta verificar, numa pesquisa
informal, o número de loiras que suam a camisa nas
academias. Para todas, as medidas ideais são as de
Adriane Galisteu. "Para emagrecer, o negócio é
ter dedicação. E isso nem sempre é
simples ou prazeroso", diz ela. Adriane perdeu 14 quilos
à base de sopinhas ralas e sessões diárias
de exercícios esfalfantes. Quem quiser manter o corpinho
de loira televisiva come cada vez menos à medida
que os anos passam. Aos 50 anos, o regime de fome prevê
o mesmo que para uma criança de 10 anos: 1.200
calorias por dia. O tempo que se economiza nas refeições
pode ser gasto na ginástica. Não menos que
duas horas de exercícios diários, cinco vezes
por semana. "Três vezes já dá condicionamento
físico, mas é preciso mais para esculpir o
corpo", afirma Luiz Sene, personal trainer de Eliana e da
também platinada Sheila Mello. Agora dá para
entender por que, para ser loira, não é imprescindível
cultivar a massa cinzenta. Cadê o tempo para estudar?