Edição 1 652 -7/6/2000

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O padrão nórdico

No país que já pertenceu às morenas, a loirice
virou um estilo, um jeito de vencer na vida


Cida Souza
Vladimir Fernandez
As clássicas: cabelo mais curto e fendas que só prometem no padrão de Ana Maria, Cléo (fotos), Hebe e Xuxa

Quem viu Xuxa e Hebe Camargo frente a frente em um recente programa da Rede Globo levou um susto. Emolduradas pelos cabelos loiríssimos, elas estavam iguaizinhas – descontadas, é claro, certas reentrâncias. A imagem das duas apresentadoras resume um fenômeno: entre as artistas, ser loira virou definitivamente um estilo, um jeito de aparecer e vencer na carreira. E como são as artistas que, em geral, influenciam a metade feminina da população brasileira, pode-se ter uma idéia de como o modelo vem sendo clonado à exaustão. As loiras televisivas se dividem em grupos com características distintas. O primeiro é o das loiras para consumo infantil. Suas representantes são Angélica, Eliana, Jackeline Petkovic, todas na casa dos 20 anos. Elas têm cabelo comprido, quase não utilizam maquiagem e estão invariavelmente de barriguinha de fora. Na mesma faixa de idade, há as que se enquadram na categoria vamp, como Adriane Galisteu e Carla Perez. Bem mais extrovertidas do que as demais, usam roupas coladas e decotes profundos. O terceiro grupo é composto de loiras, digamos, clássicas. Ainda que a contragosto, a belíssima Xuxa faz parte dessa turma. Sabe como é, apesar de todo aquele silicone, ela já está com 37 anos e não mostra o mesmo viço de quando era a preferida de Pelé. Loiras clássicas cortam o cabelo mais para o curto e disciplinam o penteado à custa de gel ou laquê. A maquiagem é carregada, para disfarçar as marcas do tempo, e as fendas e decotes mais deixam entrever do que revelam. Em certos casos, prometem o impossível, num caso típico de propaganda enganosa. Pertencem a esse pelotão, entre outras, Ana Maria Braga, Cléo Brandão e, evidentemente, Hebe Camargo.

 
Mario Llaguno
Cida Souza
O tipo vamp: roupas coladas ao corpo e muita desinibição na categoria liderada por Adriane Galisteu e Carla Perez

Ser loira em um país de morenas é uma maneira de sobressair e também de atender ao gosto da tigrada do sexo oposto (gosto colonizado, enfatizaria um mal-humorado). O curioso é que, apesar da preferência nacional pelo padrão nórdico, muitas mulheres só têm coragem de tingir os cabelos, emulando as artistas de televisão, quando os primeiros fios brancos aparecem. Tanto que um engraçadinho já disse que as brasileiras não ficam velhas, ficam loiras. Mas é precipitado dizer que a loirice artificial, não importam as razões que levam a ela, é uma deformação terceiro-mundista. Também nos países avançados o fato se verifica – e de há muito. Loira, afinal de contas, é um ser especial desde que o cinema assim decretou. A pioneira foi a atriz Jean Harlow (cabelo original: castanho), que na década de 30 mesmerizava os homens com seu tom platinado e sua piteira fatal. O arquétipo, Marilyn Monroe (cabelo original: castanho escuro), protagonista do filme Os Homens Preferem as Loiras. Embora na maioria das vezes eles se casem é com as morenas, Marilyn fez a alegria dos fabricantes de tinturas, servindo de inspiração para zilhões de mulheres nos anos 50. Foi nessa época que Hebe aderiu à água oxigenada, depois de uma viagem aos Estados Unidos. "Vi aquelas loiras maravilhosas e pensei: por que não ficar como elas?", conta, orgulhosa de ter introduzido a moda em território nacional. Hebe foi variando o tom até chegar ao atual, retocado a cada duas semanas – a manutenção média da moçada que consome de um a dois tubos de tintura para conservar o dourado capilar.

 
Fotos Elina Germer, Cida Souza e J.M. Ricardo
As loiras para consumo infantil: a barriguinha de fora é uma constante em Eliana, Jackeline e Angélica

Ser loira não é fácil. Mesmo quem nasceu clarinha, como Angélica e Jackeline, reforça a loirice com xampus tonalizantes. E depois que a cantora Madonna (cabelo original: castanho escuro) inventou que não basta ser loira, tem de ser forte, as visitas regulares ao cabeleireiro têm de ser intercaladas com muita malhação. Muuuiiita. Por razões insondáveis, é até possível ser morena e cheinha. Mas loura e gordota? Nunca, jamais, bate aí na madeira. Basta verificar, numa pesquisa informal, o número de loiras que suam a camisa nas academias. Para todas, as medidas ideais são as de Adriane Galisteu. "Para emagrecer, o negócio é ter dedicação. E isso nem sempre é simples ou prazeroso", diz ela. Adriane perdeu 14 quilos à base de sopinhas ralas e sessões diárias de exercícios esfalfantes. Quem quiser manter o corpinho de loira televisiva come cada vez menos à medida que os anos passam. Aos 50 anos, o regime de fome prevê o mesmo que para uma criança de 10 anos: 1.200 calorias por dia. O tempo que se economiza nas refeições pode ser gasto na ginástica. Não menos que duas horas de exercícios diários, cinco vezes por semana. "Três vezes já dá condicionamento físico, mas é preciso mais para esculpir o corpo", afirma Luiz Sene, personal trainer de Eliana e da também platinada Sheila Mello. Agora dá para entender por que, para ser loira, não é imprescindível cultivar a massa cinzenta. Cadê o tempo para estudar?