Edição 1 652 -7/6/2000

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Questão de estilo

Chegam ao Brasil os hotéis pós-modernos,
que combinam design e preços moderados

Alice Granato


Claudio Rossi
Divulgação
O mesão no bar do Normandie: inspirado no balcão do chique Mondrian americano (à dir.)

A fórmula foi inventada por um marqueteiro espertíssimo, o americano Ian Schrager. Ex-sócio da famosa discoteca nova-iorquina Studio 54 nos anos 70, ele mudou o conceito de hospedagem com uma série de hotéis charmosos nos Estados Unidos e na Inglaterra. O que ele oferece são projetos arrojadíssimos e uma decoração caprichada nos mínimos detalhes, nos quais o hóspede se sente num cenário de Hollywood – as celebridades do rock e do cinema adoram, e a ocupação média é de 90% em qualquer época do ano. O visual mirabolante é assinado pelo francês Philippe Starck, o designer mais badalado do planeta. Os brasileiros antenados com as últimas tendências da moda e da arquitetura não precisam mais pegar no passaporte para conhecer o estilo Starck. Ele está presente em dois hotéis inaugurados recentemente em São Paulo, o Normandie e o Pergamon. O designer francês serviu apenas de inspiração, evidentemente. As versões brasileiras tentam oferecer a mesma "atitude" que faz o sucesso dos nova-iorquinos Paramount e Morgans. Os estabelecimentos recebem a chancela da associação internacional de hotéis de design, que zela pela fidelidade ao estilo.


Claudio Rossi
Hotel Pergamon: 10 milhões de reais e biblioteca no restaurante


Os hotéis de design são uma categoria conhecida internacionalmente pelo apelido de "chic and cheap", ou seja, chique e barato. Mesmo nos mais requintados, projetados por Starck, as diárias estão em torno de 200 dólares. Nos brasileiros, paga-se em torno de 150 reais, com direito a café da manhã. O segredo está no cuidado com os detalhes. No Pergamon, próximo ao centro financeiro da capital paulista, todos os móveis e objetos foram desenhados por uma única arquiteta, a pernambucana Janete Costa, o que deu unidade visual ao ambiente. Os uniformes dos funcionários foram encomendados à consultora de moda Gloria Kalil, que os deixou chiques como roupas de grife. O restaurante inclui uma pequena biblioteca, onde se come entre capas emolduradas dos primeiros livros de Érico Veríssimo. A decoração custou 10 milhões de reais. Valeu o investimento, pois conseguiu atrair hóspedes acostumados a freqüentar os originais no Primeiro Mundo. Lá já se hospedaram a modelo Gisele Bündchen, que vive em Nova York, o estilista Ocimar Versolato e o fotógrafo Sebastião Salgado, ambos residentes em Paris. A ocupação média é de 60%, um índice bom para os padrões brasileiros. No Normandie, o hóspede sai da balbúrdia da Avenida Ipiranga, no congestionadíssimo centro de São Paulo, para cair em um vasto hall, totalmente branco. "Queríamos um ambiente limpo, um contraponto à poluição visual da rua", diz o dono do hotel, Fabio Ionescu.


Divulgação Jantti, Ortiz & Ortiz
Design Suites, em Buenos Aires: sala de estar em torno da piscina e ocupação de 75%


O item mais curioso do Normandie pode ser observado no bar instalado no fundo do lobby. Os visitantes acomodam-se numa espécie de mesa comunitária com cadeiras de espaldar alto e rodinhas. O insólito mesão foi inspirado no balcão criado por Starck para o bar do Mondrian, o hotel californiano de Schrager. "É uma solução para integrar as pessoas", explica Ionescu, que gastou 6 milhões de reais para reformar o velho prédio do Normandie. Ambos os hotéis paulistanos oferecem aos hóspedes assessoria na escolha de programas culturais, exposições de arte, restaurantes da moda, bares e casas noturnas. "A internet e a nova economia criaram uma geração de jovens profissionais que buscam acomodações mais modernas", teoriza o arquiteto Sig Bergamin. "As pessoas querem hotéis que traduzam seu estilo de vida e fujam do padrão impessoal das redes internacionais." Ele está decorando um flat com o mesmo conceito.

Os hotéis de design brasileiros não estão sozinhos na América do Sul. Há dois anos, empresários argentinos começaram a perceber o potencial desse tipo de hospedagem. Em Buenos Aires, o Design Suites, pioneiro nessa categoria na Argentina, conseguiu cravar uma ocupação média de 75% desde que foi inaugurado, no ano passado. Foram necessários 4 milhões de dólares para erguer o prédio de dez andares e apenas quarenta apartamentos, todos enfeitados com fotos, quadros e objetos de design. Uma atração é a espetacular piscina coberta, rodeada de sofás, mesas e cadeiras cromadas. No Chile, há um recém-inaugurado no Deserto de Atacama e um projeto em Santiago.

Com reportagem de Raul Juste Lores,
de Buenos Aires