Veja
também |
|
|
|
O povo das águas
Retratos da
saga dos 5 milhões de pessoas que vivem e tiram o
sustento
dos rios e da Floresta Amazônica
Daniel
Hessel Teich
 |
|
TRINTA
ANOS DE FLORESTA
O
paulista Pedro Martinelli descobriu a Floresta Amazônica
no início dos anos 70. Durante quase três
anos, ele acompanhou os esforços dos irmãos
Villas-Boas para contatar os kranhacarores, no norte
de Mato Grosso. Fez as fotos dos primeiros índios
a se encontrar com os sertanistas, em 1973. De volta,
Martinelli trabalhou na Editora Abril, sem jamais
perder o contato com a floresta. Em 1993, voltou para
a Amazônia. Viveu num barco e durante seis anos
percorreu seus rios, fotografando os moradores da
floresta.
|
Quando viajou à
Amazônia no início do século XX, o escritor
Euclides da Cunha foi muito preciso ao definir o homem que
então chegava à floresta. Era o "intruso impertinente,
que chega sem ser esperado nem querido". Tudo lá
conspirava para que a aventura humana fosse malsucedida
em meio às dificuldades e a uma hostilidade brutais.
O passar dos anos provou que as coisas não foram
bem assim. Houve fracassos enormes como a ferrovia MadeiraMamoré,
o Projeto Jari e a Transamazônica, mas hoje, por baixo
da mata, vivem quase 5 milhões de pessoas. São
homens, mulheres e crianças que arrancam dela seu
sustento ao mesmo tempo que zelam pela presença brasileira
num mundo perdido de 4 milhões de quilômetros
quadrados. É quase duas vezes mais que os territórios
somados de França, Espanha, Alemanha, Inglaterra,
Portugal e Suécia, imensidão na qual se espalham
mais de 324 espécies de mamíferos e 3 000
de peixes. Às margens de alguns dos maiores rios
do mundo, os habitantes dessa região gigantesca e
estranha levam uma vida dura, em atividades arcaicas, tendo
unicamente a água como contato com a civilização.
Chegar perto dessa gente não é tarefa fácil.
Durante seis anos, o fotógrafo Pedro Martinelli percorreu
200.000 quilômetros de rios, movido pela idéia
de fazer um levantamento de como vivem pescadores, mineradores,
índios e agricultores no miolo da floresta. Ele se
mudou para um barco, onde passava seis meses por ano junto
dos caboclos à beira dos rios. Gastou 990 rolos de
filme, tirou 4.700 fotografias e transformou 300 delas no
livro Amazônia: O Povo das Águas (Editora
Terra Virgem, 50 reais), que será lançado
em duas semanas. "Eu quis mostrar a Amazônia que vai
além dos índios pintados para o Quarup, das
araras e das vistas aéreas dos rios", conta Martinelli.
O livro, de fato, não tem animais coloridos e plantas
extravagantes. É um documentário no qual o
fotógrafo mostra o que fazem, como ganham a vida,
como se divertem as pessoas que moram à beira dos
rios amazônicos. Os índios retratados em O
Povo das Águas usam farda do Exército,
em São Gabriel da Cachoeira, a 860 quilômetros
de Manaus, rezam numa missão evangélica no
Alto Rio Içana, quase na fronteira do Amazonas com
a Colômbia. Bichos nas fotos só mesmo os macacos
servidos como refeição e os peixes nos mercados,
nas redes e na ponta do arpão. As únicas araras
foram fotografadas a contraluz, dentro de uma gaiola na
mineradora Vale do Rio Doce.
Além de fugir
do exotismo fácil, Martinelli preocupa-se em documentar
o impacto da presença predatória do homem
na floresta. Exibe as máquinas de mineração
que abrem crateras no verde, mostra queimadas, garimpos
e os imensos porões de navios atracados em Belém,
cheios de madeira. O documento mais contundente é
o contato, entre 1972 e 1973, com a tribo dos kranhacarores,
que depois ficaram conhecidos com o nome de panarás.
Foi a primeira grande epopéia de Martinelli em quase
trinta anos de relação íntima com a
floresta. Ele foi o primeiro a fotografar esses índios
altivos contatados pelos irmãos Cláudio e
Orlando Villas-Boas no norte de Mato Grosso. São
reveladores os instantâneos dos índios atirando
suas flechas contra um avião da Funai, de onde o
fotógrafo acionava sua câmara. Desse período
de desbravamento há também flagrantes de homens
e mulheres nus alisando a aeronave como se fosse uma ave
misteriosa. Em dois anos, a tribo de 600 indivíduos
foi reduzida a apenas 79, massacrados pelo avanço
do progresso e pela abertura da rodovia ligando Cuiabá
a Santarém. Por decisão dos Villas-Boas, os
panarás foram transferidos em aviões para
o Xingu em 1975. Lá ficaram por 22 anos até
voltarem para Mato Grosso, na primeira transferência
de toda uma tribo já registrada na História
do Brasil. Martinelli estava lá com a câmara
a postos para documentar a volta e as transformações
ocorridas com essa gente.
Para conseguir fotografar
a pesca do pirarucu, Martinelli instalou-se por trinta dias
num complexo de 360 lagos conhecido como Lagos Moura, na
região do Alto Solimões. Procurava os pescadores,
saía com eles nas canoas, acompanhava todo o ritual
de afiar os arpões. "A pesca é parte da vida
na região. Feita por aqueles moradores das barrancas
do rio, não tem nada de predatória", diz.
"O problema é quando um barco de pesca profissional
sobe o rio pagando menos de 1 real por quilo de peixe e
atiça a cobiça do matuto." Esse acaba sendo
o meio mais fácil de conseguir artigos que dificilmente
viriam de outra forma, como café, açúcar,
tecidos baratos, sandálias havaianas, óleo
diesel e cartuchos de bala. É o tipo de vida real
que o livro de Martinelli documenta. Um Brasil tão
escandalosamente espantoso como o das araras coloridas e
plantas enormes que também existe na Amazônia.