Edição 1 652 -7/6/2000

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Slide show das fotos de Pedro Martinelli

O povo das águas

Retratos da saga dos 5 milhões de pessoas que vivem e tiram o sustento
dos rios e da Floresta Amazônica

Daniel Hessel Teich

TRINTA ANOS DE FLORESTA

O paulista Pedro Martinelli descobriu a Floresta Amazônica no início dos anos 70. Durante quase três anos, ele acompanhou os esforços dos irmãos Villas-Boas para contatar os kranhacarores, no norte de Mato Grosso. Fez as fotos dos primeiros índios a se encontrar com os sertanistas, em 1973. De volta, Martinelli trabalhou na Editora Abril, sem jamais perder o contato com a floresta. Em 1993, voltou para a Amazônia. Viveu num barco e durante seis anos percorreu seus rios, fotografando os moradores da floresta.

Quando viajou à Amazônia no início do século XX, o escritor Euclides da Cunha foi muito preciso ao definir o homem que então chegava à floresta. Era o "intruso impertinente, que chega sem ser esperado nem querido". Tudo lá conspirava para que a aventura humana fosse malsucedida em meio às dificuldades e a uma hostilidade brutais. O passar dos anos provou que as coisas não foram bem assim. Houve fracassos enormes como a ferrovia Madeira–Mamoré, o Projeto Jari e a Transamazônica, mas hoje, por baixo da mata, vivem quase 5 milhões de pessoas. São homens, mulheres e crianças que arrancam dela seu sustento ao mesmo tempo que zelam pela presença brasileira num mundo perdido de 4 milhões de quilômetros quadrados. É quase duas vezes mais que os territórios somados de França, Espanha, Alemanha, Inglaterra, Portugal e Suécia, imensidão na qual se espalham mais de 324 espécies de mamíferos e 3 000 de peixes. Às margens de alguns dos maiores rios do mundo, os habitantes dessa região gigantesca e estranha levam uma vida dura, em atividades arcaicas, tendo unicamente a água como contato com a civilização. Chegar perto dessa gente não é tarefa fácil. Durante seis anos, o fotógrafo Pedro Martinelli percorreu 200.000 quilômetros de rios, movido pela idéia de fazer um levantamento de como vivem pescadores, mineradores, índios e agricultores no miolo da floresta. Ele se mudou para um barco, onde passava seis meses por ano junto dos caboclos à beira dos rios. Gastou 990 rolos de filme, tirou 4.700 fotografias e transformou 300 delas no livro Amazônia: O Povo das Águas (Editora Terra Virgem, 50 reais), que será lançado em duas semanas. "Eu quis mostrar a Amazônia que vai além dos índios pintados para o Quarup, das araras e das vistas aéreas dos rios", conta Martinelli. O livro, de fato, não tem animais coloridos e plantas extravagantes. É um documentário no qual o fotógrafo mostra o que fazem, como ganham a vida, como se divertem as pessoas que moram à beira dos rios amazônicos. Os índios retratados em O Povo das Águas usam farda do Exército, em São Gabriel da Cachoeira, a 860 quilômetros de Manaus, rezam numa missão evangélica no Alto Rio Içana, quase na fronteira do Amazonas com a Colômbia. Bichos nas fotos só mesmo os macacos servidos como refeição e os peixes nos mercados, nas redes e na ponta do arpão. As únicas araras foram fotografadas a contraluz, dentro de uma gaiola na mineradora Vale do Rio Doce.

Além de fugir do exotismo fácil, Martinelli preocupa-se em documentar o impacto da presença predatória do homem na floresta. Exibe as máquinas de mineração que abrem crateras no verde, mostra queimadas, garimpos e os imensos porões de navios atracados em Belém, cheios de madeira. O documento mais contundente é o contato, entre 1972 e 1973, com a tribo dos kranhacarores, que depois ficaram conhecidos com o nome de panarás. Foi a primeira grande epopéia de Martinelli em quase trinta anos de relação íntima com a floresta. Ele foi o primeiro a fotografar esses índios altivos contatados pelos irmãos Cláudio e Orlando Villas-Boas no norte de Mato Grosso. São reveladores os instantâneos dos índios atirando suas flechas contra um avião da Funai, de onde o fotógrafo acionava sua câmara. Desse período de desbravamento há também flagrantes de homens e mulheres nus alisando a aeronave como se fosse uma ave misteriosa. Em dois anos, a tribo de 600 indivíduos foi reduzida a apenas 79, massacrados pelo avanço do progresso e pela abertura da rodovia ligando Cuiabá a Santarém. Por decisão dos Villas-Boas, os panarás foram transferidos em aviões para o Xingu em 1975. Lá ficaram por 22 anos até voltarem para Mato Grosso, na primeira transferência de toda uma tribo já registrada na História do Brasil. Martinelli estava lá com a câmara a postos para documentar a volta e as transformações ocorridas com essa gente.

Para conseguir fotografar a pesca do pirarucu, Martinelli instalou-se por trinta dias num complexo de 360 lagos conhecido como Lagos Moura, na região do Alto Solimões. Procurava os pescadores, saía com eles nas canoas, acompanhava todo o ritual de afiar os arpões. "A pesca é parte da vida na região. Feita por aqueles moradores das barrancas do rio, não tem nada de predatória", diz. "O problema é quando um barco de pesca profissional sobe o rio pagando menos de 1 real por quilo de peixe e atiça a cobiça do matuto." Esse acaba sendo o meio mais fácil de conseguir artigos que dificilmente viriam de outra forma, como café, açúcar, tecidos baratos, sandálias havaianas, óleo diesel e cartuchos de bala. É o tipo de vida real que o livro de Martinelli documenta. Um Brasil tão escandalosamente espantoso como o das araras coloridas e plantas enormes que também existe na Amazônia.