Uma fábula gay
Soldado assassinado por ser homossexual
namorava um transexual. Deu confusão
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| Addams: capa da New York Times
Magazine |
Em julho de 1999, numa base militar do Estado americano
de Kentucky, o recruta Barry Winchell, então com
21 anos, foi assassinado por dois companheiros de quartel.
A polícia não demorou a dizer que o crime
era resultado de uma briga por motivos fúteis. Mas
um grupo gay, ao ser informado do caso, desconfiou de conclusão
tão rápida e contratou uma advogada para acompanhar
o processo. Ela descobriu que Winchell havia sido morto
por ser homossexual. O recruta assassinado tornou-se, assim,
um mártir e os ativistas da causa gay puderam
divulgar aos quatro ventos que o crime do qual o recruta
fora vítima era uma clara violação
da lei que se popularizou com o quilométrico nome
de "Não pergunte, não conte, não persiga,
não moleste". Implementada pela Casa Branca em 1994,
essa lei abriu as Forças Armadas do país aos
homossexuais assumidos, proibindo qualquer tipo de discriminação
e arbitrariedade contra eles. Simples? Nem tanto. Durante
o julgamento dos assassinos de Winchell, os recrutas Calvin
Glover e Justin Fisher, um fato novo veio à tona.
O namorado de Winchell era, na verdade, ela. Ou melhor,
tratava-se de um transexual: Calpernia Sarah Addams, de
29 anos.
Romance firme Em público, apenas a
voz grave e os ombros largos denunciam sua masculinidade.
Na intimidade, porém, seus atributos não são
nada femininos. Calpernia afirma que ainda não fez
a cirurgia de troca de sexo por falta de dinheiro (uma operação
do gênero custa 15.000
dólares). Tirado de um personagem do filme A Família
Addams, o pseudônimo serve para encobrir a identidade
que não revela de jeito nenhum. Sua história
vem alimentando um debate. Afinal de contas, Winchell podia
ser considerado um homossexual típico pelo fato de
namorar um transexual? A questão parece tão
bizantina quanto a que surgiu na ocasião em que o
presidente Bill Clinton se viu ameaçado de sofrer
impeachment por causa de suas travessuras com Monica Lewinsky
aquela sobre se sexo oral era ou não sexo.
Pelo sim, pelo não, para evitar que a condição
do recruta morto fosse posta em dúvida durante o
julgamento de seus assassinos, os ativistas gays trataram
de convencer Calpernia a dizer que ela era ele. Em memória
de Winchell, o transexual aceitou ser apresentado como homem
no tribunal. Terminado o julgamento, Calpernia sentiu-se
abandonado pelos militantes gays que antes o cercavam de
cuidados. Ressentido, resolveu dar uma entrevista a um jornalista
da New York Times Magazine, na qual expôs sua
triste situação. "Se eu fosse um louro musculoso,
provavelmente as coisas seriam diferentes", disse. O transexual
já não sabe que caminho seguir. Até
a morte de Winchell, ele estava estruturando sua personalidade
no sentido de dar-lhe um caráter eminentemente feminino.
A cirurgia de troca de sexo, caso conseguisse o dinheiro,
seria apenas o corolário de um processo psíquico
profundo. Agora, tudo ficou mais difícil. "Só
queria ser a namorada de Barry", lamenta. "E até
isso foi tirado de mim."
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AP
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| O transexual Calpernia Addams e
Glover (algemado): história de
intolerância |
Calpernia entrou na vida de Winchell poucos meses antes
de ele ser morto. Em março de 1999, na companhia
de Justin Fisher, seu companheiro de alojamento, Barry Winchell
foi a um bar gay de Nashville. Lá ele conheceu Calpernia,
por quem se apaixonou à primeira vista. Os dois engataram
um romance firme, no qual era grande a confusão de
papéis Winchell reconhecia sua condição
homossexual, mas referia-se ao transexual como "namorada".
Enciumado, Fisher, um gay enrustido com fixação
por roupas femininas, denunciou a seus superiores a existência
de um homossexual em Fort Campbell. Violando a lei do "Não
pergunte, não conte", oficiais de alta patente levaram
a cabo uma investigação que apontou para Winchell.
O recruta passou, então, a ser hostilizado abertamente.
A vingança de Fisher podia dar-se sem problemas.
Sempre ao lado de Calvin Glover, um alcoólatra, ele
gostava de insultar Winchell. Em julho, este se irritou
com as provocações e deu uma surra em Glover.
Em resposta, Glover aproveitou que o recruta dormia e, com
um taco de beisebol, desferiu seis golpes em sua cabeça.
Winchell morreu sem chance de defender-se.
AP
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| O recruta Barry Winchell: espancado
com um taco de beisebol enquanto dormia |
Glover foi condenado à prisão perpétua,
enquanto Justin Fisher, que limpou o sangue da cena do crime,
pegou doze anos de reclusão. Independentemente da
discussão em torno de Calpernia, os ativistas gays
conseguiram chamar mais uma vez a atenção
para o aumento de ataques contra homossexuais dentro das
Forças Armadas americanas. Em 1997 foram registrados
182 casos de agressão contra gays nos quartéis
do país. No ano seguinte, as violências mais
que dobraram. Foram reportados 400 casos de ataques a homossexuais.
Uma pesquisa revelou que 80% dos soldados entrevistados
já haviam presenciado algum tipo de comentário
depreciativo contra gays. O próprio presidente Bill
Clinton, que elaborou a lei "Não pergunte, não
conte", reconhece que ainda falta muito para conter a intolerância
dos militares. Infelizmente, tudo indica que Winchell não
será a última baixa homossexual entre o pessoal
do quepe.