Forças
Armadas
Pane na turbina
Com caças que não podem voar
e racionamento
de comida, a Força Aérea está parando
Ronaldo França
Fotos Antonio Milena
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| Aviões parados: redução
do treinamento coloca a eficiência da FAB em risco
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A Força Aérea Brasileira (FAB) tem 755 aeronaves.
Trata-se da maior frota da América Latina, mas só
no papel. Nas pistas de decolagem, não se vê
essa exuberância. Mais da metade dos aviões
estão impedidos de levantar vôo. Esses aparelhos
estão parados por falta de peças ou de condições
seguras de vôo. Dos 53 jatos AMX, o mais moderno da
Aeronáutica, apenas treze estão disponíveis.
Todos os outros quarenta permanecem inertes nos hangares
da Base Aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro. Estão
embrulhados para evitar a deterioração. A
penúria já havia feito com que, no final do
ano passado, a Aeronáutica adotasse o meio expediente
para economizar em comida, eletricidade e na conta de água.
Não bastou. Acendeu-se agora a luz de emergência
indicando a pane. As turbinas da Força Aérea
começaram a engasgar.
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| Caças na pista: faltam peças
no estoque |
Dos dezoito aviões que servem às autoridades
do primeiro escalão do governo, somente quatro estão
em perfeitas condições. O ministro do Desenvolvimento,
Alcides Tápias, teve seus vôos cancelados na
última hora, na semana passada, por falta de aeronaves
disponíveis. Deixou de comparecer a um compromisso
marcado com antecedência. Mas há conseqüências
piores do que a relativa imobilização das
autoridades federais do primeiro escalão. As principais
são a queda na qualidade do treinamento dos pilotos
e a incapacidade de patrulhamento do território nacional.
A situação da Aeronáutica começou
a mudar a partir de 1993, quando os sucessivos cortes reduziram
seu orçamento à metade. Hoje a FAB dispõe
de apenas 330 milhões de reais por ano para todas
as suas atividades. "O Brasil não tem sequer condições
de se sustentar em uma guerra de média intensidade,
como foi a do Irã com o Iraque, por exemplo", afirma
o pesquisador Geraldo Cavagnari, do Núcleo de Estudos
Estratégicos da Universidade de Campinas.
Para colocar no ar todos os aviões que estão
parados, a Aeronáutica calcula que seriam necessários
300 milhões de dólares em peças e equipamentos.
Para voar mais alto, reequipando a força, o governo
estima gastar 3 bilhões de dólares em doze
anos. "O Brasil pode já ter perdido sua Aeronáutica",
afirma o estrategista militar Domício Proença
Júnior, membro do International Institute for Strategic
Studies, de Londres. "Decisões tomadas agora só
vão ter efeito daqui a vinte anos. Pode não
haver tempo suficiente." Um plano de modernização
e reequipamento da Aeronáutica será entregue
nesta semana ao presidente Fernando Henrique Cardoso pelo
ministro da Defesa, Geraldo Quintão. Qualquer que
seja a avaliação do presidente, ela se ressentirá
da falta de um dever de casa básico: Quintão
ainda não concluiu os estudos para a criação
de uma política nacional de defesa. É um cuidado
providencial. Esse documento é que decidirá
as grandes diretrizes e permitirá a tomada de decisões
em questões práticas. Num exemplo grosseiro,
dirá se o Brasil deverá ter caças capazes
de chegar rapidamente a qualquer ponto do continente ou
se serão aviões apenas para patrulhar o espaço
aéreo nacional. A política em vigor, elaborada
em 1996, foi apenas um esboço rápido, que
não dá conta de todas as questões.
"O Brasil ainda precisa decidir qual é a Força
Aérea que quer ter", afirma o ministro da Aeronáutica
do governo Collor, brigadeiro Sócrates Monteiro.
A oportunidade de discutir o assunto não pode ser
desperdiçada. Há perguntas a ser feitas. Por
que o país deveria investir bilhões de dólares
para se armar até os dentes? De que tipo de Forças
Armadas a sociedade brasileira realmente precisa para atender
às suas necessidades? Afinal, o Brasil não
tem vizinhos de ânimo belicoso, como acontece em outros
pontos do planeta. Não se espera também que
a Organização das Nações Unidas
precise telefonar ao Palácio do Planalto quando estiver
empenhada em impedir massacres no Oriente Médio,
como acontece com Estados Unidos, Inglaterra ou França.
Essas perguntas devem martelar ainda mais a cabeça
do governante de um país em que falta dinheiro para
as estradas que transportam 80% dos alimentos de sua população
e cujos hospitais da rede pública ainda perdem vidas
por falta de instrumentos básicos.
Todo o avanço na estrutura militar brasileira se
deu por combustão espontânea, meio desorganizada.
Durante décadas, ganhava mais dinheiro a Arma cujo
ministro batesse à porta do presidente com menos
cerimônia. Era questão de prestígio.
O que, aliás, desencadeou disputas históricas
entre Exército, Marinha e Aeronáutica por
orçamentos mais gordos. Quintão já
iniciou os estudos para a elaboração de uma
nova política de defesa. Entre os temas a ser discutidos,
estará, por exemplo, a melhor forma de integração
com a sociedade. Além de benéfica para o país,
ajudará a evitar escorregões como o que aconteceu
na semana passada. O comandante da Aeronáutica, Carlos
Almeida Batista, com o aval do ministro Quintão,
proibiu VEJA de fotografar os AMX embrulhados no Rio. Não
é escondendo os aviões parados atrás
dos muros de uma base aérea que a Aeronáutica
conseguirá resolver seus problemas.