Edição 1 652 -7/6/2000

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Forças Armadas

Pane na turbina

Com caças que não podem voar e racionamento
de comida, a Força Aérea está parando

Ronaldo França

 
Fotos Antonio Milena
Aviões parados: redução do treinamento coloca a eficiência da FAB em risco

A Força Aérea Brasileira (FAB) tem 755 aeronaves. Trata-se da maior frota da América Latina, mas só no papel. Nas pistas de decolagem, não se vê essa exuberância. Mais da metade dos aviões estão impedidos de levantar vôo. Esses aparelhos estão parados por falta de peças ou de condições seguras de vôo. Dos 53 jatos AMX, o mais moderno da Aeronáutica, apenas treze estão disponíveis. Todos os outros quarenta permanecem inertes nos hangares da Base Aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro. Estão embrulhados para evitar a deterioração. A penúria já havia feito com que, no final do ano passado, a Aeronáutica adotasse o meio expediente para economizar em comida, eletricidade e na conta de água. Não bastou. Acendeu-se agora a luz de emergência indicando a pane. As turbinas da Força Aérea começaram a engasgar.


Caças na pista: faltam peças no estoque

Dos dezoito aviões que servem às autoridades do primeiro escalão do governo, somente quatro estão em perfeitas condições. O ministro do Desenvolvimento, Alcides Tápias, teve seus vôos cancelados na última hora, na semana passada, por falta de aeronaves disponíveis. Deixou de comparecer a um compromisso marcado com antecedência. Mas há conseqüências piores do que a relativa imobilização das autoridades federais do primeiro escalão. As principais são a queda na qualidade do treinamento dos pilotos e a incapacidade de patrulhamento do território nacional. A situação da Aeronáutica começou a mudar a partir de 1993, quando os sucessivos cortes reduziram seu orçamento à metade. Hoje a FAB dispõe de apenas 330 milhões de reais por ano para todas as suas atividades. "O Brasil não tem sequer condições de se sustentar em uma guerra de média intensidade, como foi a do Irã com o Iraque, por exemplo", afirma o pesquisador Geraldo Cavagnari, do Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade de Campinas.

Para colocar no ar todos os aviões que estão parados, a Aeronáutica calcula que seriam necessários 300 milhões de dólares em peças e equipamentos. Para voar mais alto, reequipando a força, o governo estima gastar 3 bilhões de dólares em doze anos. "O Brasil pode já ter perdido sua Aeronáutica", afirma o estrategista militar Domício Proença Júnior, membro do International Institute for Strategic Studies, de Londres. "Decisões tomadas agora só vão ter efeito daqui a vinte anos. Pode não haver tempo suficiente." Um plano de modernização e reequipamento da Aeronáutica será entregue nesta semana ao presidente Fernando Henrique Cardoso pelo ministro da Defesa, Geraldo Quintão. Qualquer que seja a avaliação do presidente, ela se ressentirá da falta de um dever de casa básico: Quintão ainda não concluiu os estudos para a criação de uma política nacional de defesa. É um cuidado providencial. Esse documento é que decidirá as grandes diretrizes e permitirá a tomada de decisões em questões práticas. Num exemplo grosseiro, dirá se o Brasil deverá ter caças capazes de chegar rapidamente a qualquer ponto do continente ou se serão aviões apenas para patrulhar o espaço aéreo nacional. A política em vigor, elaborada em 1996, foi apenas um esboço rápido, que não dá conta de todas as questões. "O Brasil ainda precisa decidir qual é a Força Aérea que quer ter", afirma o ministro da Aeronáutica do governo Collor, brigadeiro Sócrates Monteiro.

A oportunidade de discutir o assunto não pode ser desperdiçada. Há perguntas a ser feitas. Por que o país deveria investir bilhões de dólares para se armar até os dentes? De que tipo de Forças Armadas a sociedade brasileira realmente precisa para atender às suas necessidades? Afinal, o Brasil não tem vizinhos de ânimo belicoso, como acontece em outros pontos do planeta. Não se espera também que a Organização das Nações Unidas precise telefonar ao Palácio do Planalto quando estiver empenhada em impedir massacres no Oriente Médio, como acontece com Estados Unidos, Inglaterra ou França. Essas perguntas devem martelar ainda mais a cabeça do governante de um país em que falta dinheiro para as estradas que transportam 80% dos alimentos de sua população e cujos hospitais da rede pública ainda perdem vidas por falta de instrumentos básicos.

Todo o avanço na estrutura militar brasileira se deu por combustão espontânea, meio desorganizada. Durante décadas, ganhava mais dinheiro a Arma cujo ministro batesse à porta do presidente com menos cerimônia. Era questão de prestígio. O que, aliás, desencadeou disputas históricas entre Exército, Marinha e Aeronáutica por orçamentos mais gordos. Quintão já iniciou os estudos para a elaboração de uma nova política de defesa. Entre os temas a ser discutidos, estará, por exemplo, a melhor forma de integração com a sociedade. Além de benéfica para o país, ajudará a evitar escorregões como o que aconteceu na semana passada. O comandante da Aeronáutica, Carlos Almeida Batista, com o aval do ministro Quintão, proibiu VEJA de fotografar os AMX embrulhados no Rio. Não é escondendo os aviões parados atrás dos muros de uma base aérea que a Aeronáutica conseguirá resolver seus problemas.