Edição 1 652 -7/6/2000

VEJA esta semana

Brasil
A caça aos corruptos
Reviravolta no caso da portuguesa presa com drogas
Mário Covas é agredido por manifestantes
Os aviões da FAB que não voam
As críticas ao pavilhão do Brasil em Hannover

Internacional
Geral
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
Veja recomenda
Os mais vendidos

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

São Paulo

A tática do soco

Arruaceiros agridem novamente o governador
Mário Covas durante protesto em São Paulo

Daniela Pinheiro


Inácio Teixeira
O tumulto: o governador é prensado por policiais e manifestantes


Há muito tempo não se viam rancor e falta de respeito reunidos com tanta intensidade numa manifestação de protesto. Na última quinta-feira, o governador de São Paulo, Mário Covas, dispensou a segurança da tropa de choque da Polícia Militar para atravessar um acampamento montado por professores em greve. Seu objetivo era entrar no prédio da Secretaria da Educação, cujo acesso estava bloqueado pelos grevistas. Covas deixou o local com um galo na testa, um corte no lábio superior e a fama aumentada de homem turrão que não vacila em se lançar a uma aventura perigosa. Do lado dos professores, o saldo foi ainda pior. O que antes era visto como um movimento legítimo de reivindicação salarial passou a ser interpretado como pretexto para arruaças.

A confusão foi feia. Com o braço estendido no peito do governador, um manifestante barrou-lhe o caminho. De queixo erguido, Covas forçou o passo. Começaram a voar cadeiras de plástico, pedras, latas, garrafas e laranjas. O governador conseguiu entrar no prédio e, depois de ficar lá dentro alguns minutos, refez o percurso entre os grevistas. De repente, um objeto acertou Covas pouco acima do olho direito. Outro lhe feriu a boca. Só então a polícia interveio, lançando bombas de efeito moral.

Minoria radical – O episódio teve péssima repercussão. O presidente Fernando Henrique Cardoso chamou os manifestantes de "fascistas". A candidata do PT à prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy, disse que agressões "não levam a nada". E até o ex-prefeito Paulo Maluf, adversário número 1 de Covas, declarou que "o governador merece ser respeitado". No dia seguinte, Covas convocou a imprensa para rever as cenas da pancadaria e acusou o PT de incitar os ânimos. Exibiu um vídeo em que o presidente nacional do PT, deputado José Dirceu, dizia que as autoridades deveriam "apanhar na rua e nas urnas". As declarações de Dirceu, segundo o governador, criaram o clima para que episódios como os da semana passada acontecessem. "São uns baderneiros", afirmou.


AE
Na saída da manifestação, escoltado por assessores: "São um bando de neofascistas"


Incidentes dessa natureza têm-se repetido com freqüência preocupante em todo o país. Pela segunda vez em duas semanas, o ministro José Serra levou uma ovada na última sexta-feira, durante uma visita a Belo Horizonte. Algumas dessas manifestações se devem a uma insatisfação real por parte da população em relação ao desemprego e aos baixos salários. O radicalismo e as cenas de violência, no entanto, são coisa de uma minoria radical. Entre os professores, a turma que agrediu Covas em São Paulo é conhecida pela truculência. É um grupo que se reúne em torno de três microssiglas políticas: Coletivo Socialista, Liga Operária Internacionalista e Tendência por um Partido Operário. Fundadas na década de 80, essas siglas jamais conseguiram eleger um único vereador, deputado ou mesmo líder sindical. Na última vez em que disputaram uma eleição para a associação dos professores, a Apeoesp, essa dissidência ficou com apenas 5% dos votos. Um dos líderes dos agressores, o professor Antonio Justino, conhecido como "To-nhão", é ex-vice-prefeito de Diadema pelo PT. Foi expulso do partido porque invadiu o gabinete do prefeito com um grupo de sem-teto. Já esteve preso três vezes.

Outro fator que contribui para a repetição de cenas como a da semana passada é o despreparo da polícia para enfrentar manifestações de rua. A tropa de choque não tem equipamento adequado nem treinamento para desempenhar a tarefa. O resultado são episódios lamentáveis, como o ocorrido no Paraná algumas semanas atrás, em que um sem-terra foi morto por disparo da polícia. Protestos de rua ocorrem em qualquer lugar do mundo e, quando são enfrentados por policiais bem preparados, raramente há feridos – mortos, então, nem pensar. Em Paris, há quase cinco manifestações por dia. Lá, o bom treinamento manda que, em caso de conflito, o policial vá para a rua certo de que tem o controle da situação.

No caso de São Paulo, para complicar, Covas anda contribuindo para esquentar os ânimos. Duas semanas atrás já havia sido atingido na cabeça por uma bandeira durante manifestação no ABC paulista. No dia seguinte, em outra solenidade, reagiu diante de mais um protesto. "Vocês vão ter de me engolir", gritou para os manifestantes. Chamou o grupo de piqueteiros de "panacas" e fez caretas. Covas também insiste em andar pela rua sem um esquema de segurança adequado.

É evidente que, para uma pessoa com a reputação ilibada do governador, ser xingado de "ladrão" e "safado" bate fundo no orgulho. Mas, apesar dos 70 anos de idade, Covas precisa aprender a conter a cólera. O que está em jogo é a figura de uma autoridade que 9,8 milhões de eleitores escolheram para governá-los na última eleição. É essa a questão que tem de ser levada em conta nos confrontos entre ele e arruaceiros no meio da rua.

 
Reinaldo Marques/DGABC
Mascarini, o professor que atingiu Covas com bandeirada em protesto no ABC paulista