Polícia
Pista tardia
Fita
pode ser prova contra suspeita de tráfico libertada
Há cerca de um
mês, a viúva portuguesa Iselinda de Miranda
Santa Clara voltou para casa depois de emocionar o Brasil.
Aos 75 anos, cabelo branco, óculos de lentes grossas
e crucifixo no peito, ela foi acusada de traficar 21 quilos
de cocaína. Mantida no presídio Nelson Hungria,
no Rio de Janeiro, por dois meses, no início de maio
foi absolvida por falta de provas. Como uma senhora acima
de qualquer suspeita injustiçada, retornou a Lisboa
prometendo processar as autoridades brasileiras. Na semana
passada, porém, a mesma polícia acusada de
encarcerar Iselinda sem motivos deixou vazar a informação
de que a portuguesa pode não ser tão inocente
quanto aparenta. A prova seria uma fita gravada por meio
de uma escuta telefônica montada no hotel onde ela
se hospedou antes de voar de volta para seu país.
A polícia fluminense e a Justiça não
revelaram o teor das conversas, mas representantes do Ministério
Público garantem ter indícios para dar continuidade
às investigações do envolvimento da
viúva com o narcotráfico.
No dia 27 de fevereiro,
ela foi presa no Aeroporto Internacional Antonio Carlos
Jobim, no Rio. Num vôo com destino a Lisboa, a polícia
encontrou uma mala com a droga. A bagagem estava em nome
de Iselinda. Interrogada, alegou ter pedido a um casal para
despachar a mala no check-in, já que sofre de artrose
na perna e não podia ficar de pé por muito
tempo. Não convenceu e foi parar no xadrez. "Isso
tudo que está acontecendo é um absurdo", disse
Iselinda a VEJA. "Vou processar as autoridades brasileiras
pelos constrangimentos por que passei", esbravejou. O advogado
de defesa Luiz Carlos Andrade já requereu a fita
que a Justiça diz ter. "Ela sabia que o telefone
do hotel estava grampeado", afirma. A Polícia Federal
acionou a Interpol, a polícia internacional, para
ficar de olho na viúva. O caso não é
tão simples assim. Uma vez absolvida da acusação
do transporte de 21 quilos de cocaína, Iselinda só
poderia ser processada por um novo crime. Além disso,
o acordo de extradição entre Brasil e Portugal
exclui os nativos de cada país. Ou seja, ainda que
fosse condenada aqui, a Justiça brasileira teria
dificuldades em obter a extradição da viúva.
O caso de Iselinda
é confuso. O advogado Andrade não conseguiu
ainda ouvir a fita que incriminaria sua cliente. Mas é
fato que, de uns tempos para cá, cresce o número
de idosos contratados para carregar drogas. A idéia
é que pessoas mais velhas teoricamente despertam
menos a atenção. Só neste ano já
foram registradas as prisões de Maria Teresa Gomes,
67 anos, detida no Aeroporto Internacional de Cumbica, em
São Paulo, com 1,5 quilo de cocaína no fundo
falso de uma mala, e do uruguaio Abel Ayspuro Duran, 82
anos, flagrado com 8 quilos do pó no saguão
do Aeroporto Internacional Antonio Carlos Jobim.