Edição 1 652 -7/6/2000

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A moda da algema pegou

A punição de corruptos vem se tornando
mais freqüente e o Brasil pode estar
virando o jogo contra a desonestidade

Alexandre Secco


Xandó Pereira/Folha Imagem
José Eduardo, sócio do esquema: caçado por três meses, foi preso na Bahia


Há um item novo no vestuário dos poderosos brasileiros acusados de corrupção. É uma peça metálica que prende de forma dolorosa os dois punhos, mais conhecida pelo nome de algema. Ela tem aparecido em mãos suspeitas que antes só experimentaram amenidades, jóias e relógios caros. Nos últimos tempos tem surgido, com mais freqüência que no passado, gente graúda algemada por ordem judicial. Os mais notórios são os empresários implicados no escândalo da obra do TRT de São Paulo, negociata que desviou para o bolso de espertalhões 169 milhões de reais de dinheiro público. Descoberta há cerca de um ano, a quadrilha foi desbaratada e anda zonza tentando escapar dos braços da lei. Na terça-feira passada, um dos envolvidos, o empresário José Eduardo Teixeira Ferraz, foi preso pela polícia quando se preparava para um banho de mar no paraíso tropical de Morro de São Paulo, a famosa ilha turística do sul da Bahia. Acabou vendo o sol nascer quadrado numa cela da polícia paulista. Seu sócio, Fábio Monteiro de Barros Filho, já está recolhido ao xadrez, acusado de remessa ilegal de dólares para o exterior.

Os cabeças presumíveis do esquema também não estão tendo vida boa. Um deles, o juiz Nicolau dos Santos Neto, o "Nicolau-Lau-Lau", tem prisão decretada e está foragido. O mais interessante indicador, porém, de que há uma mudança de humores com relação à corrupção no Brasil é o que está acontecendo com outro suspeito de altos coturnos, o senador Luiz Estevão, do PMDB do Distrito Federal. Há duas semanas, os procuradores que investigam o caso descobriram documentos que ligam, como algemas, Estevão ao escândalo do TRT. Ele não seria apenas um beneficiário de segunda linha da roubalheira, conforme concluíram os procuradores. Os documentos sugerem fortemente que Estevão é um dos donos da Ikal, empresa criada especialmente para possibilitar a fraude milionária nas obras do prédio do tribunal paulista. Na semana passada, o senador Jefferson Peres (PDT-AM) divulgou um parecer recomendando a cassação do nobre colega Estevão.

Diferentemente do que costumava ocorrer nessas situações, quando um membro da Casa se encontrava sob artilharia da Justiça, desta vez o corporativismo foi contido. Constrangido, cercado de seguranças, Estevão deixou o plenário na semana passada, enquanto em outro andar partidários seus brigavam aos socos com militantes esquerdistas que foram até lá vaiar o senador. Existia no ar outros sinais de que Estevão, milionário há muitos anos e suspeito há doze meses, pode tornar-se o primeiro senador cassado pelos próprios colegas na história do Senado. "É uma questão moral", resumiu Antônio Carlos Magalhães, presidente da Casa. Foi uma semana inesquecível para o senador. No final da tarde de quinta-feira, ele ficou sabendo que o Tribunal Superior Eleitoral decidiu torná-lo inelegível por três anos em decorrência de abuso de poder econômico. Os ministros do TSE entenderam que Estevão usou a Rádio OK FM, de sua propriedade, para fazer propaganda eleitoral proibida pela legislação.


Vidal Cavalcante/AE
Fábio Monteiro, dono da construtora do TRT: o primeiro a ser preso


Uma quadrilha de colarinho branco desbaratada é muito pouco. A chaga da corrupção no Brasil ainda é funda e incomoda. A percepção de muita gente é de que a cultura da fraude ainda é forte no mundo oficial do Brasil. Ela se manifesta em quase todo lugar contra o bolso e os princípios da imensa maioria de brasileiros honestos. Pode ser na farmácia, com a empurroterapia de remédios falsos, ou nas estradas, quando os guardas fazem o câmbio fácil de multas por propinas. Mas duas coisas positivas parecem estar acontecendo nesse cenário triste. Primeiro, os casos de corrupção estão mais visíveis, condição inicial para que possam ser lancetados. Segundo, os escândalos envolvendo os chamados peixes graúdos estão tendo curso nas esferas policial e judicial, aonde, no passado, nem costumavam chegar. Alguns deles:

O prefeito de São Paulo, Celso Pitta, foi afastado do cargo em meio a uma avalanche de acusações. A mais constrangedora delas é de que ele vive à custa da generosidade do milionário Jorge Yunes, de quem recebe mesada de 25.000 reais.

Paulo Maluf, padrinho político de Pitta e campeão de acusações de corrupção sem conseqüências, foi finalmente condenado. A Justiça o está obrigando a devolver 2,5 milhões de reais aos cofres públicos. O prejuízo teria sido causado por Maluf no notório episódio dos precatórios, em que ele, então prefeito da cidade, e Pitta, seu secretário de Fazenda, teriam tomado liberdades transacionando títulos da dívida do município de São Paulo.

A ex-ministra Zélia Cardoso de Mello, condenada a treze anos de prisão, foi acusada de receber dinheiro para fazer reajustes de preços durante o congelamento do Plano Collor.

Rosane Collor, mulher do ex-presidente Fernando Collor de Mello, foi condenada a onze anos e quatro meses de prisão por crimes de corrupção na gestão da Legião Brasileira de Assistência (LBA), entidade beneficente presidida por ela.

O superintendente do Ibama no Pará, Paulo Castelo Branco, foi preso sob acusação de tentar achacar 1,5 milhão de reais do dono de uma madeireira carregada de multas ambientais.

Antônio Rogério Magri, ex-ministro do Trabalho do governo Collor, foi condenado a dois anos de prisão acusado de receber propinas.

No Rio Grande do Sul, 342 prefeitos escolhidos nas últimas eleições estão sendo processados por improbidade administrativa. Desses, 108 já foram condenados. Em todo o Brasil, são mais de duas centenas de prefeitos da última safra de eleições municipais condenados por uso indevido de dinheiro público.


Ed Ferreira/AE
Castelo Branco: o defensor da floresta cobrava propinas das madeireiras


"Essa é a condição mínima para que exista democracia", diz o historiador Evaldo Cabral de Mello. É condição indispensável também para que a economia se modernize. Não é por acaso, portanto, que a democracia brasileira esteja forçando a vinda à luz de casos de corrupção. Por outro lado, um país como o Brasil não pode nem sonhar em ver sua economia integrada aos mecanismos mundiais de produção e circulação de riqueza sem dar mostras de que está tentando coibir a corrupção em todos os níveis. Para início de conversa, a corrupção custa caro. Ela aumenta o preço dos produtos nacionais e deixa as mercadorias menos competitivas diante dos concorrentes estrangeiros. A posição do Brasil no ranking anual da Transparency International, organismo que se dedica a medir a percepção que os empresários têm da honestidade nos locais onde fazem negócios, vem melhorando. Mas ainda não é motivo de orgulho. Cinco anos atrás o Brasil era considerado o quinto país mais corrupto do mundo. No ano passado, já apresentava um desempenho melhor do que 44 nações. Hoje está colocado ao lado de Zimbábue, Marrocos e Malaui.


Rogério Montenegro
Hanna Gharib: primeiro deputado paulista cassado em catorze anos


Outros países entenderam antes o impacto negativo da corrupção na economia. A história mais notável é a dos Estados Unidos. Até a década de 30, o nível de corrupção era muito parecido com o que se registra no Brasil atualmente. Os americanos precisaram de setenta anos para se transformar na atual potência política, econômica e militar. E só o fizeram quando a Justiça conseguiu responsabilizar corruptos poderosos, ricos e célebres. Aliás, estes passaram a ser punidos com mais severidade do que os transgressores anônimos. A corrupção nos Estados Unidos só diminuiu quando ficou provado à sociedade que não existiam intocáveis, cidadãos acima das leis. "Quando a situação se tornou insustentável, eles mudaram. A situação está se tornando insustentável no Brasil, por isso estamos mudando", diz o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos. Ninguém consegue precisar o momento exato em que uma sociedade passa a considerar a corrupção inaceitável e decide livrar-se dessa prática. Mas existem momentos que funcionam como marcos dessa mudança de atitude. Nos Estados Unidos a era da tolerância zero com os deslizes dos homens públicos começou com a renúncia do presidente Richard Nixon, em 1973, no desenlace dramático do escândalo conhecido como Watergate. Nixon tentou encobrir o crime de espionagem política cometido por partidários seus. No Brasil, muitos estudiosos apontam o impeachment do presidente Collor como o grande divisor de águas da política nacional. A sociedade brasileira ficou mais vigilante.

"Parece que se abriu um rombo na redoma que protegia os políticos", diz Elias Thomé Saliba, professor de história da Universidade de São Paulo. Saliba acredita que no momento a sociedade brasileira está dando um passo inédito na direção de conter o avanço da corrupção. Algumas razões justificam essa esperança.

A estabilidade da moeda produz um efeito positivo. A tarefa de vigiar como o dinheiro público está sendo gasto é mais eficiente. Em 1989, com a inflação beirando os 70% ao mês, a construção de um trecho de 1.600 quilômetros da Ferrovia Norte–Sul foi orçada em 12,3 milhões de cruzados novos. Era muito? Pouco? Como saber? Os críticos do governo diziam que era superfaturamento. Os empreiteiros falavam que estavam embutindo no preço a inflação futura, já que demorariam a receber do governo. Fato é que com inflação alta as contas públicas se tornam elásticas, os orçamentos são feitos para ser desrespeitados e fica fácil meter a mão na geléia geral.

Hoje existem leis mais claras e melhores para punir não apenas o roubo puro e simples de dinheiro público mas também seu gasto irresponsável – transgressões que andavam de mãos dadas no passado. Pela Lei de Responsabilidade Fiscal, em vigor há menos de três meses, será possível pôr na cadeia o administrador de qualquer nível que botar dinheiro público no ralo.

Talvez o fator mais alentador seja a existência agora de um time de jovens promotores sedentos de glória pessoal e ansiosos por justiça, combinação que rende manchetes de jornal e corruptos em situação embaraçosa. O Ministério Público se transformou em uma das ferramentas mais importantes para a faxina que o Brasil precisa fazer. Desde a Constituição de 1988 o Ministério Público não está integrado ou subordinado ao Judiciário, nem ao Legislativo, nem ao Executivo. Sem vínculos diretos, os promotores têm poderes amplos para investigar sem constrangimento partidário ou hierárquico. No Estado de São Paulo o número de promotores vem crescendo 6% ao ano nos últimos quinze anos. Mais gente para trabalhar, mais gente sendo investigada. No Estado, mais de 150 investigações atingiram prefeitos nos últimos quatro anos. No Rio Grande do Sul, outras 200 estão em andamento.

"A mudança no Ministério Público foi fundamental para tudo isso que está acontecendo", diz o ministro Marco Aurélio de Mello, do Supremo Tribunal Federal. Segundo ele, a nova geração está empenhada e treinada para lidar com os novos mecanismos introduzidos com a Constituição de 1988. Uma pesquisa conduzida pela socióloga Maria Teresa Sadek mostra que mais da metade dos promotores ingressaram na carreira depois da Constituição de 1988. São eles os instrumentos da ira da sociedade contra os corruptos. Fora alguns exageros perfeitamente evitáveis, o trabalho deles tem ajudado a passar o país a limpo.

Com reportagem de Daniela Pinheiro, Rodrigo Vergara e
Sandra Brasil, da sucursal de Brasília

 

Característica comum: a mesma cara-de-pau

Acusados de corrupção costumam reagir de maneira uniforme e estranhamente calma. Eles dão respostas muito semelhantes e demonstram
frieza profissional quando se defendem das denúncias de desvio de dinheiro público. Alguns exemplos são
antológicos:


Claudio Rossi


"
Eu pago 60 000 reais de imposto de renda por ano. Eu tenho vários recebimentos. Eu tenho os contracheques. Eu ganho bem e minha família sempre foi rica. Essas denúncias são uma piada. Gasto porque posso
gastar. Estou muito tranqüilo."
(O juiz Nicolau dos Santos Neto, o Lau-Lau, sobrea incompatibilidade entre sua renda mensal de 6 000 reais e seu padrão de vida)

 

Egberto Nogueira


"Pode ter havido prefeito tão honesto quanto o Maluf, mas mais do que ele não."
(Do ex-prefeito Paulo Maluf para resumir sua vida política)

 

 
Roberto Jayme


"Eu não fiz nada de errado. Eu não falhei. Eu paguei o preço de quem quer o novo. Algumas pessoas pagam um preço maior do que outras na vida. Eu fiquei entre essas pessoas."  

(Da ex-ministra Zélia Cardoso de Mello, sobre as acusações de corrupção durante sua gestão no governo)

 

Antonio Milena


"Eu estou calmo porque sei que tudo isso vai se resolver. As contas da prefeitura e as minhas estão abertas para qualquer investigação.
Eu não entendo como essa situação atingiu tal ponto. Só sei que tenho a consciência tranqüila."
(Do prefeito Celso Pitta, sobre o mar de lama que culminou em seu afastamento do cargo)

 

Wanderlei Pozzembom

"A possibilidade de eu ser corrupto é zero."
(Do senador Luiz Estevão, quando foi indicado pelo PMDB para a relatoria do Plano Plurianual do governo)