Edição 1848 . 7 de abril de 2004

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Fórmula perfeita

Há dez anos o horário das 7 não
um êxito como Da Cor do Pecado


Ricardo Valladares


Fotos divulgação
O clã Sardinha e, abaixo, Preta, Afonso e Raí: humor e "efeito chiquititas"

Há duas semanas, a Rede Globo reuniu pela primeira vez um grupo de espectadores para discutir sua atual novela das 7, Da Cor do Pecado. Pesquisas de opinião desse tipo são praxe na emissora, e costumam ser usadas para corrigir os erros de um folhetim. Desta vez, contudo, a tarefa dos pesquisadores era das mais agradáveis: tratava-se tão-somente de encontrar explicações para um grande sucesso. Escrita pelo mais jovem autor da Globo, o carioca João Emanuel Carneiro, de 34 anos, Da Cor do Pecado apresenta o melhor ibope do horário das 7 em dez anos. Nas últimas semanas, ela consolidou uma média digna de novela das 8: 45 pontos de audiência. A pesquisa qualitativa revelou que o que mais agrada aos espectadores são "as fortes relações afetivas" que unem alguns personagens, como os do clã Sardinha ou então Preta e Raí, que são mãe e filho. Mesmo que não formem famílias tradicionais, esses personagens cultivam os valores da família – e o público aprecia isso. Outros trunfos são a presença de crianças no centro da trama, personagens jovens convincentes, bom humor e o fato de a novela não fugir de assuntos delicados como o preconceito racial – tratando-os, no entanto, com bastante leveza.

Leonardo Lemos
João Emanuel Carneiro, o autor da novela: isso é que é estrear com o pé direito


Sabe-se exatamente o momento em que começou a arrancada de audiência de Da Cor do Pecado: no capítulo 27, quando entraram em cena os personagens infantis Otávio (Felipe Latge) e Raí (Sérgio Malheiros), o primeiro branco e o segundo negro. Os meninos são filhos da vilã Bárbara (Giovanna Antonelli) e da heroína Preta (Taís Araújo). Em tese, nasceram de um mesmo pai, o cientista Paco (Reynaldo Gianecchini), e são netos do mesmo avô milionário, Afonso (Lima Duarte). Mas o fato é que Bárbara engravidou de um amante e usa o filho para obter vantagens. Enquanto Otávio sofre nas mãos de sua pérfida mãe, Raí enfrenta preconceitos pela cor da pele. As peripécias dos dois parecem ter detonado o que se poderia chamar de "efeito chiquititas", em referência à célebre novela argentina que se passava num orfanato: dramas infantis têm alto potencial de ibope.

Da Cor do Pecado tem uma fatia considerável de seu público (27%) formada por uma garotada entre os 12 e os 17 anos. Manter esse público ligado não é fácil. Uma das estratégias de Carneiro tem sido ampliar seu leque de assuntos para além dos namoricos. A morte na adolescência, por exemplo, é um tema de seu cardápio. Outra arma é a comédia. Há dois núcleos cômicos na novela – o do vidente Helinho (Matheus Nachtergaele) e o do picareta Eduardo (Ney Latorraca) – além da família Sardinha, campeã na preferência de todo tipo de espectador. A família é composta de cinco filhos bonitões e versados em artes marciais e uma mãe com métodos pouco ortodoxos de educação. Como num desenho animado, os lutadores tomam uma sopa mágica que faz crescer seus músculos e os torna invencíveis. As lutas são coreografadas por um professor de artes marciais e incrementadas por efeitos de computação gráfica. O único que não participa delas – apenas usa táticas para se defender – é o sensível Abelardo, interpretado por Caio Blat. "No curso da história, pode ser que ele descubra que é gay", diz o autor, indicando uma possível fonte de polêmica na novela.

João Emanuel Carneiro inspirou-se em sua própria adolescência para incorporar as artes marciais à história. Ele treinou jiu-jítsu com a família Gracie. Também foi surfista, o que o levou a incluir personagens dessa tribo em Da Cor do Pecado. Na mesma época em que pegava ondas, aos 14 anos, Carneiro começou a colaborar com o cartunista Ziraldo, roteirizando histórias em quadrinhos dos personagens Pererê e Menino Maluquinho. Aos 22 anos, ele ganhou o Festival de Gramado como roteirista do curta-metragem Zero a Zero e resolveu se empenhar de verdade nesse trabalho. Primeiro, mirou no cinema. Seu nome está nos créditos do filme Central do Brasil, que concorreu ao Oscar em 1999. Mas ele logo descobriu que a televisão é seu veículo preferido. "A massa me encanta mais", diz. Carneiro fez seus primeiros trabalhos para a TV como colaborador na minissérie A Muralha e na novela Desejos de Mulher. Estava escalado para participar da equipe de Gilberto Braga em Celebridade quando a sinopse de Da Cor do Pecado foi pinçada pela Globo, dentre outras setenta opções, para tornar-se novela. Carneiro ganha 20.000 reais por mês. Conta que está há três meses sem sair de casa para divertir-se. Acorda às 3 da tarde e, até as 7 horas, retoca capítulos que três colaboradores lhe enviam. Depois disso, escreve uma cota diária de vinte páginas de texto. Vai dormir às 8 horas da manhã. "Agora entendo por que os autores de novela costumam ficar doentes", diz ele. A Globo, que logo deve ver medalhões como Manoel Carlos e Benedito Ruy Barbosa se aposentarem, está felicíssima por receber em seu time um noveleiro jovem e entusiasmado, que estreou com o pé direito. O Carneiro é um leão.

 
 
 
 
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