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Televisão
Fórmula
perfeita
Há
dez anos o horário das 7 não
vê um
êxito como Da Cor do Pecado

Ricardo
Valladares
Fotos divulgação
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| O
clã Sardinha e, abaixo, Preta, Afonso e Raí: humor e "efeito
chiquititas" |
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Há
duas semanas, a Rede Globo reuniu pela primeira vez um grupo de
espectadores para discutir sua atual novela das 7, Da Cor do
Pecado. Pesquisas de opinião desse tipo são praxe
na emissora, e costumam ser usadas para corrigir os erros de um
folhetim. Desta vez, contudo, a tarefa dos pesquisadores era das
mais agradáveis: tratava-se tão-somente de encontrar
explicações para um grande sucesso. Escrita pelo mais
jovem autor da Globo, o carioca João Emanuel Carneiro, de
34 anos, Da Cor do Pecado apresenta o melhor ibope do horário
das 7 em dez anos. Nas últimas semanas, ela consolidou uma
média digna de novela das 8: 45 pontos de audiência.
A pesquisa qualitativa revelou que o que mais agrada aos espectadores
são "as fortes relações afetivas" que unem
alguns personagens, como os do clã Sardinha ou então
Preta e Raí, que são mãe e filho. Mesmo que
não formem famílias tradicionais, esses personagens
cultivam os valores da família e o público
aprecia isso. Outros trunfos são a presença de crianças
no centro da trama, personagens jovens convincentes, bom humor e
o fato de a novela não fugir de assuntos delicados como o
preconceito racial tratando-os, no entanto, com bastante
leveza.
Leonardo Lemos
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| João
Emanuel Carneiro, o autor da novela: isso é que é estrear com
o pé direito |
Sabe-se exatamente o momento em que começou a arrancada de
audiência de Da Cor do Pecado: no capítulo 27,
quando entraram em cena os personagens infantis Otávio (Felipe
Latge) e Raí (Sérgio Malheiros), o primeiro branco
e o segundo negro. Os meninos são filhos da vilã Bárbara
(Giovanna Antonelli) e da heroína Preta (Taís Araújo).
Em tese, nasceram de um mesmo pai, o cientista Paco (Reynaldo Gianecchini),
e são netos do mesmo avô milionário, Afonso
(Lima Duarte). Mas o fato é que Bárbara engravidou
de um amante e usa o filho para obter vantagens. Enquanto Otávio
sofre nas mãos de sua pérfida mãe, Raí
enfrenta preconceitos pela cor da pele. As peripécias dos
dois parecem ter detonado o que se poderia chamar de "efeito chiquititas",
em referência à célebre novela argentina que
se passava num orfanato: dramas infantis têm alto potencial
de ibope.
Da
Cor do Pecado tem uma fatia considerável de seu público
(27%) formada por uma garotada entre os 12 e os 17 anos. Manter
esse público ligado não é fácil. Uma
das estratégias de Carneiro tem sido ampliar seu leque de
assuntos para além dos namoricos. A morte na adolescência,
por exemplo, é um tema de seu cardápio. Outra arma
é a comédia. Há dois núcleos cômicos
na novela o do vidente Helinho (Matheus Nachtergaele) e o
do picareta Eduardo (Ney Latorraca) além da família
Sardinha, campeã na preferência de todo tipo de espectador.
A família é composta de cinco filhos bonitões
e versados em artes marciais e uma mãe com métodos
pouco ortodoxos de educação. Como num desenho animado,
os lutadores tomam uma sopa mágica que faz crescer seus músculos
e os torna invencíveis. As lutas são coreografadas
por um professor de artes marciais e incrementadas por efeitos de
computação gráfica. O único que não
participa delas apenas usa táticas para se defender
é o sensível Abelardo, interpretado por Caio
Blat. "No curso da história, pode ser que ele descubra que
é gay", diz o autor, indicando uma possível fonte
de polêmica na novela.
João
Emanuel Carneiro inspirou-se em sua própria adolescência
para incorporar as artes marciais à história. Ele
treinou jiu-jítsu com a família Gracie. Também
foi surfista, o que o levou a incluir personagens dessa tribo em
Da Cor do Pecado. Na mesma época em que pegava ondas,
aos 14 anos, Carneiro começou a colaborar com o cartunista
Ziraldo, roteirizando histórias em quadrinhos dos personagens
Pererê e Menino Maluquinho. Aos 22 anos, ele ganhou o Festival
de Gramado como roteirista do curta-metragem Zero a Zero e
resolveu se empenhar de verdade nesse trabalho. Primeiro, mirou
no cinema. Seu nome está nos créditos do filme Central
do Brasil, que concorreu ao Oscar em 1999. Mas ele logo descobriu
que a televisão é seu veículo preferido. "A
massa me encanta mais", diz. Carneiro fez seus primeiros trabalhos
para a TV como colaborador na minissérie A Muralha
e na novela Desejos de Mulher. Estava escalado para participar
da equipe de Gilberto Braga em Celebridade quando a sinopse
de Da Cor do Pecado foi pinçada pela Globo, dentre
outras setenta opções, para tornar-se novela. Carneiro
ganha 20.000 reais por mês. Conta
que está há três meses sem sair de casa para
divertir-se. Acorda às 3 da tarde e, até as 7 horas,
retoca capítulos que três colaboradores lhe enviam.
Depois disso, escreve uma cota diária de vinte páginas
de texto. Vai dormir às 8 horas da manhã. "Agora entendo
por que os autores de novela costumam ficar doentes", diz ele. A
Globo, que logo deve ver medalhões como Manoel Carlos e Benedito
Ruy Barbosa se aposentarem, está felicíssima por receber
em seu time um noveleiro jovem e entusiasmado, que estreou com o
pé direito. O Carneiro é um leão.
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