Edição 1848 . 7 de abril de 2004

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Perfil
Bilionário e showman

Estrela da TV americana com o reality
show
O Aprendiz, Donald Trump conta
a VEJA as razões de seu sucesso
e de seu penteado


Marcelo Marthe, da Flórida

Galeria de fotos: cenas do programa O Aprendiz

O americano Donald Trump é o espécime mais exuberante de uma nova e singular categoria: a dos homens de negócios que fazem hora extra no mundo das celebridades e do entretenimento. Exuberante porque, enquanto a maioria de seus colegas se arrisca no máximo a narrar suas receitas de sucesso em autobiografias, manuais de auto-ajuda e palestras superproduzidas, ele se converteu num verdadeiro showman. Dono de um império que atua em áreas como a construção civil, a hotelaria e a exploração de cassinos, Trump acaba de se consagrar como o astro de um dos maiores sucessos da TV americana. No ar há três meses, o reality show The Apprentice (O Aprendiz) é uma gincana em que dezesseis pessoas disputam o direito de trabalhar numa de suas empresas. A cada semana, Trump elimina um candidato com a frase que virou o bordão do momento nos Estados Unidos: "Você está demitido!". O formato deve chegar à televisão brasileira, e canais de TV a cabo já disputam a exibição do original no Brasil. Na semana passada, VEJA visitou o empresário numa de suas propriedades, o resort Mar-a-Lago, no balneário de West Palm Beach, na Flórida. Trump percorreu o local com a reportagem e concedeu uma entrevista exclusiva (leia abaixo). Ele falou sobre o programa, sua vida pessoal, seus negócios no Brasil e seu novo livro, Como Ficar Rico, que tem lançamento nacional previsto para junho, pela editora Campus.

Mar-a-Lago é um dos clubes mais fechados dos Estados Unidos. Sua sede é uma mansão com 128 aposentos construída nos anos 20. Desde que a propriedade foi adquirida por Trump, em 1985, a atmosfera bucólica foi substituída pela badalação. Para se juntar aos cerca de 450 sócios do clube, como o cantor Tony Bennett e o ator Charlton Heston, pagam-se 150 000 dólares, mais uma taxa de 92 000 dólares por ano. Os sócios têm à disposição campo de golfe e praia privativa, mas arcam com os extras – entre os quais o spa e as festas animadas por artistas como Natalie Cole e Lionel Richie. Feitas as contas, um fim de semana por lá não sai por menos de 2 500 dólares por pessoa.

 
Fotos Rick Silva

Trump e o clube vip Mar-a-Lago, de West Palm Beach: sócios como Tony Bennett pagam anuidade de 92 000 dólares

A presença do dono é uma atração à parte. Trump circula pelo local em trajes esportivos e não se furta aos pedidos dos sócios para tirar fotos a seu lado. Não raro, assiste junto com eles a seu programa e os desafia a adivinhar qual participante irá demitir.

Exibido pela rede NBC, O Aprendiz é visto por mais de 20 milhões de espectadores e está entre as três atrações de maior sucesso da TV americana. Os competidores se dividem em dois times e disputam gincanas humilhantes nas quais têm de mostrar seu espírito empreendedor. Por exemplo, vendendo limonada no centro financeiro de Wall Street, em Nova York. O Aprendiz é uma caricatura divertida da luta pelo sucesso no universo ultracompetitivo das corporações. O vencedor do programa, que vai até meados de abril, terá direito a um emprego nas organizações Trump, com um salário anual 250 000 dólares.

Embora ocupe a 81ª posição no ranking dos bilionários dos Estados Unidos elaborado pela revista Forbes, Trump é capaz de causar mais barulho que qualquer outro expoente da categoria e usar a exposição na mídia em causa própria. Um dos motivos pelos quais ele topou participar de O Aprendiz é que a NBC lhe deu carta branca para fazer propaganda de seus negócios. Ele já lançou no programa uma água mineral que leva seu nome e os candidatos visitaram um de seus cassinos – e tome apologia das maravilhas do local. Trump registrou seu "Você Está Demitido!" como marca. Pretende explorá-lo em produtos como videogames e canecas. Na semana passada, comprou briga com a prefeitura de Nova York por instalar um gigantesco banner com seu retrato e seu bordão na fachada da Trump Tower, sua torre de escritórios na Quinta Avenida. As autoridades consideram a faixa "poluição visual". Mesmo sob ameaça de um processo, Trump avisou que não vai retirá-la. Ele gosta de encrenca. Há cinco anos, entrou com um processo de 75 milhões de dólares contra o poder público de West Palm Beach, por causa do barulho dos Boeing que passavam sobre seu resort. Não apenas conseguiu mudar a rota dos aviões como também obteve, de quebra, autorização para construir atrações anexas à sede de Mar-a-Lago. A principal delas é uma boate bem ao lado da mansão tombada pelo Patrimônio Histórico. "Isto aqui vai ser o máximo: imagine 2.000 pessoas se divertindo numa pista com vista para o mar", diz Trump.

Depois de fazer fortuna com a construção de arranha-céus em Nova York e transformar-se num ícone do capitalismo nos anos 80, Trump passou por momentos de aperto no começo da década seguinte. Mas, graças à retomada do mercado imobiliário americano, conseguiu dar a volta por cima. O bilionário alardeia que nunca teve tanto dinheiro, mas seu pendor pelas bravatas e frases de efeito se tornou tão notório que a revista Newsweek já sugeriu que tudo o que ele diz deve "sofrer um desconto de 20%". Ou até mais. Por exemplo: ele afirma que sua fortuna pessoal é de 5 bilhões de dólares, mas, de acordo com a revista Forbes, teria metade disso. A quem o questiona, Trump responde que a publicação – uma das mais sérias da área econômica – precisa rever seus números. Simples assim. Há, porém, um calcanhar-de-aquiles evidente em seus negócios. Seus cassinos – entre os quais o portentoso Taj Mahal, em Atlantic City – acumulam dívidas de 1,8 bilhão de dólares. Na semana passada, o jornal The New York Times afirmou que Trump se encontra na mira dos credores e que pode quebrar. "Os cassinos são apenas uma dentre 83 companhias e representam menos de 1% do patrimônio líquido de meus negócios", declara o empresário.

 
Alcir N. da Silva
A Trump Tower e o seu megacartaz: briga com a prefeitura de Nova York

A receita de sucesso de Donald Trump está no recém-lançado Como Ficar Rico, um misto de autobiografia, relato de bastidores do programa O Aprendiz e manual de auto-ajuda, com seus conselhos para triunfar nos negócios. São conselhos quase sempre curtos e grossos: Trump ensina que se deve ser implacável com os adversários e que às vezes é preciso ser "estrategicamente dramático" – quer dizer, saber portar-se como ator e blefar –, para levar a melhor numa negociação. O bilionário usa um capítulo inteiro para defender-se das chacotas em torno de um item polêmico de seu patrimônio: seu cabelo. Por causa da aparência artificial e do topete que lembra um capacete, esse tem sido um campo fértil para piadas. "Não uso peruca: meu cabelo é 100% meu", escreve Trump.

Em sua vida pessoal, ele não é menos ruidoso do que nos negócios. Seu divórcio da exuberante Ivana, com quem teve três filhos, ocupou as manchetes nos anos 90. Trump trocou a ex-atleta da equipe olímpica de esqui da então Checoslováquia, na época com 40 anos, pela loira Marla Maples. Modelo e atriz dezessete anos mais nova que ele, Marla já declarou sobre Trump: "Foi a melhor transa que tive na vida". Trump também se divorciou de Marla, mãe de sua filha mais nova, e desde então tem circulado na companhia de jovens modelos. Atualmente, namora Melania Knauss, uma morenaça eslovena "tão bela por fora quanto por dentro", em suas palavras. Ele tem 57 anos e a moça, 33.

O Brasil ocupa um lugar no universo de Trump. Ele empresta sua grife a empreendimentos nacionais ligados a seu hobby predileto: o golfe. Hoje, o principal torneio desse esporte no país leva seu nome. O projeto mais ambicioso, no entanto, é o Villa Trump, um clube de golfe que deverá ocupar uma área de 9 milhões de metros quadrados em Itatiba, no interior paulista. Trata-se de um investimento de 40 milhões de dólares, com inauguração prevista para 2006. "Donald vislumbra com entusiasmo o futuro do Brasil", diz o empresário Ricardo Bellino, seu sócio brasileiro. Trump anuncia que, em breve, deseja realizar numa cidade do país a final do concurso Miss Universo, do qual é proprietário. "Vocês, brasileiros, têm as garotas mais deslumbrantes do planeta", diz o bilionário. Garotas, digamos, tão bonitas por fora quanto por dentro.

 
Entrevista

Veja – O senhor foi um símbolo de sucesso do capitalismo americano nos anos 80, mas no começo da década de 90 enfrentou grandes dificuldades financeiras. Como saiu delas?
Trump – Poucos têm idéia do quanto eu estive em apuros naquela época. Eu devia 9 bilhões de dólares e estava à beira da falência. Hoje, tenho mais dinheiro do que nunca tive. E sabe como eu consegui dar a volta por cima? É simples: jamais me deixei abater. Manter-se altivo e no controle da situação, apesar das adversidades, é o segredo para ser bem-sucedido.

Veja – Qual foi o pior momento daquela crise?
Trump – Não foi uma crise, foi um acidente de percurso.

Veja – Foi divulgado que os seus cassinos acumulam uma dívida de 1,8 bilhão de dólares. Esse seria um novo acidente de percurso?
Trump – Os cassinos são apenas uma dentre 83 companhias e representam menos de 1% do patrimônio líquido de meus negócios.

Veja – O que é uma crise para o senhor?
Trump – É descobrir que você tem uma doença incurável, ou perder um parente querido. Dinheiro nunca é crise, é solução.

Veja – Como o senhor escolhe as pessoas de quem se cerca para trabalhar?
Trump – Meu lema é que, se alguém está jogando no seu time há muito tempo, é mais confiável do que alguém vindo de fora. Dou oportunidade para que os funcionários de minha própria corporação subam na carreira e procuro aproveitar esses quadros na hora de escolher meus braços direitos.

Veja – Na vida real, o senhor é tão duro ao demitir seus funcionários quanto no programa O Aprendiz?
Trump – Em muitos casos, ajo assim mesmo. Se não vou com a cara de um subordinado, se ele trai minha confiança ou tenta me roubar, haveria outro modo de agir? Geralmente, entretanto, procuro fazer a coisa de um jeito menos traumático.

Veja – Como?
Trump – Chamo o sujeito para uma conversa, digo que a companhia dele me agrada, que ele é maravilhoso e que infelizmente já não quero mais seu serviço.

Veja – Em seu novo livro, Como Ficar Rico, o senhor diz que uma das táticas mais eficientes numa negociação é ser "estrategicamente dramático". O que isso quer dizer?
Trump – Ser estrategicamente dramático é procurar se comportar, com a maior ênfase possível, como se desejasse exatamente o oposto daquilo que você realmente almeja. Ou seja: para obter um bom preço numa venda, você se coloca como se não estivesse querendo vender o bem em questão. Ou então finge que não quer comprar algo que realmente lhe interessa.  

Veja – Que tipo de qualidades uma pessoa precisa ter para ser bem-sucedida nos negócios?
Trump – Ela precisa, em primeiro lugar, gostar imensamente de seu trabalho. Uma pessoa que não gosta de seu trabalho dificilmente terá iniciativa e disposição para ser um vencedor. É preciso confiar em si próprio e ser bom de briga, não desistir frente às adversidades. São qualidades que, infelizmente, nem todo mundo traz em seu caráter.

Veja – Qual a importância dos instintos na hora de fazer negócios?
Trump – Eles são fundamentais. É graças aos instintos que um bom negociador sabe quando deve ter paciência, o momento de ser agressivo ou de rever suas estratégias. Mais uma vez, trata-se de uma qualidade preciosa, porque é rara: os instintos para ser um vencedor são algo que se carrega no sangue. Você nasce – ou não – com eles.  

Veja – Como se deve reagir ao ser prejudicado numa negociação?
Trump – Quando alguém faz isso comigo, não deixo barato. Se você leva uma rasteira, ou mesmo que só fareje essa intenção, é preciso revidar com toda a força e por todos os meios. Se possível, destruir seu adversário. Como já dizia a Bíblia, é olho por olho, dente por dente. Sempre acreditei nisso. Certa vez, fiz esse comentário durante um encontro com um grupo de padres e um deles me repreendeu, disse que esse não era o comportamento de uma pessoa de bem. Minha resposta foi que ele até poderia ir para o céu, mas nunca ficaria rico.  

Veja – Por que o senhor dedica um capítulo inteiro de seu novo livro aos acordos pré-nupciais?
Trump – É um fato estatístico que mais da metade dos casamentos terminou em divórcio nos Estados Unidos. Na hora em que se está apaixonado, é tudo uma maravilha, mas é recomendável que se tenha sangue-frio para pensar no que pode acontecer quando cada um for para seu lado. As pessoas que possuem fortuna não podem se dar ao luxo de cometer um erro tão primário quanto não pensar no dia de amanhã. Sei de homens bem-sucedidos que se casaram e, menos de cinco anos depois, viram suas ex pleitear na Justiça boa parte do que tinham acumulado em décadas de trabalho. Não é algo bonito ou romântico fazer um acordo pré-nupcial, mas se trata de um mal necessário para sua própria segurança.  

Veja – O senhor se separou de Ivana Trump no começo dos anos 90, quando passava por suas maiores dificuldades financeiras. Isso afetou seus negócios?
Trump – Não houve problema nenhum, pois eu tinha um ótimo acordo pré-nupcial. O vendaval passou e, feitas as contas, posso dizer que o divórcio não me custou caro.  

Veja – Por que, ao contrário de muita gente rica, o senhor não tem pudor de ostentar sua condição de bilionário?
Trump – Não tenho a mínima vergonha mesmo. E por que deveria? Se eu acumulei tanto dinheiro, o mérito é todo meu, pois me esforcei muito para chegar aonde cheguei e continuo trabalhando duro todos os dias. Além disso, sejamos francos, o marketing pessoal faz parte do negócio. Se você não fizer propaganda de seu sucesso, quem o fará por você?

Veja – De que forma o dinheiro lhe dá prazer?
Trump – Ter uma fortuna de 5 bilhões de dólares torna a vida complicada sob vários aspectos. Em certos momentos, sinto-me como um prisioneiro dentro de minha própria casa. Não posso ir a casas noturnas para ver as mulheres bonitas, por exemplo, pois a imprensa descobriria e ia dar uma confusão danada. Por outro lado, a riqueza proporciona muitas facilidades. Posso comprar tudo o que eu quiser e satisfazer todos os meus caprichos, mas nunca fiz nada com o mero intuito de ostentar. Ao contrário, procuro fazer com que cada gasto acrescente mais valor às minhas posses. Meu negócio é criar coisas belas, que dêem prazer às pessoas e também gerem dinheiro.

Veja – Em 2000, o senhor cogitou concorrer à Presidência dos Estados Unidos. Ainda acalenta esse sonho?
Trump – Não foi por minha iniciativa que se falou na candidatura. Fui sondado porque as pesquisas de opinião mostravam que o nome Trump era muito popular e teria boas chances. A princípio me empolguei muito, mas desisti na última hora. Para assumir uma tarefa tão grande, eu teria de deixar de fazer aquilo de que gosto mais, que é cuidar de meus negócios.  

Veja – Que atributos o qualificariam para ser presidente dos Estados Unidos?
Trump – Tenho muita experiência nos negócios e mesmo na política. Sempre fui, acima de tudo, uma pessoa que sabe negociar. Pode ter certeza de que, nas minhas mãos, a relação dos Estados Unidos com o mundo seria muito melhor do que a que temos agora.

Veja – Há anos seu penteado tem sido alvo de chacota. O que o senhor tem a dizer sobre isso?
Trump – Meu cabelo sempre foi assim. Pode não ser o máximo, mas funciona. E eu gosto. Além disso, ele já virou uma marca pessoal. Sugiro que esse pessoal dê uma olhada nos índices de audiência de O Aprendiz antes de sair falando mal. Lidero a audiência nos Estados Unidos contra uma porção de astros boas-pintas que têm o corte de cabelo da moda.

Veja – Existe um rumor de que o senhor já usou Botox. É verdade?
Trump – Botox, eu? Garanto que nunca usei. A prova são esses pés-de-galinha. Não acredito nos resultados do Botox, porque conheço muita gente que o usou e perdeu toda a expressão facial, todo o movimento. Recentemente, vi uma mulher que tinha usado Botox numa festa de aniversário e reparei que ela não conseguia mover os lábios para cantar os parabéns. Pelo mesmo motivo, jamais fiz plástica, ao contrário do que espalham por aí.

Veja – Deve-se levar a sério sua propalada aversão a dar apertos de mão?
Trump – Sim, totalmente. Trata-se de uma convenção social absurda, que nos torna suscetíveis a pegar germes. Nunca se sabe onde o sujeito pôs a mão antes de cumprimentá-lo. Mas é um costume estabelecido e tenho de me curvar a ele. Fazer o quê?

 

 
 
 
 
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