|
|
Especial
A
brasileirinha que voa
Daiane
dos Santos brilha num
esporte que exige coragem e
sacrifícios de seus campeões

João
Gabriel de Lima
Eduardo Monteiro
 |
|
O
TRIUNFO DA FORÇA
Capaz de saltar uma distância de 2,40 metros sem tomar
impulso e de atingir a altura de 2,80 metros durante um salto-mortal,
Daiane dos Santos tem como principal trunfo a força
muscular. Aliada à técnica, ela lhe possibilita
movimentos acrobáticos no solo e no cavalo. Seus vôos
podem dar ao Brasil uma inédita medalha olímpica
na modalidade
|
Daiane
dos Santos decola de costas. Já no ar, gira o corpo de modo
a ficar de frente para sua trajetória de vôo. Continua
subindo. Perto de atingir o ponto mais alto, quando sua cabeça
chega a 2,80 metros do solo quase a altura de uma cesta de
basquete , ela rodopia num salto-mortal com o corpo reto,
como se fosse uma hélice cujo eixo passasse pelo abdômen.
Já está na descendente quando repete o giro. O efeito
lembra o filme Matrix, com os truques virtuais se materializando
no mundo real. Daiane aterrissa de pé, com os braços
abertos para aumentar o equilíbrio, gesto elegantemente disfarçado
em saudação à platéia. O movimento aqui
descrito em câmera lenta dura menos de um segundo. Enquanto
você lia as linhas acima, Daiane poderia teoricamente ter
realizado quinze dessas dificílimas acrobacias. Em 76 anos
de competições a ginástica feminina
faz parte dos Jogos Olímpicos desde 1928 , ninguém
nunca arriscou algo parecido. Ao que se sabe, nenhuma outra atleta
está treinando para fazer algo tão assombroso nas
Olimpíadas de Atenas, em agosto.
Daiane
dos Santos é a única ginasta do mundo capaz de realizar
esse salto cujo nome técnico é "duplo twist estendido".
Twist porque ela salta de costas e faz um giro de 180 graus no ar.
Duplo porque por duas vezes a atleta dá voltas no ar sem
colocar pés ou mãos no chão, o que configura
o salto-mortal. Estendido porque o corpo fica reto e é
exatamente aí que reside a maior dificuldade. No Mundial
de 2003, nos Estados Unidos, Daiane já se firmara como um
fenômeno único no mundo da ginástica ao executar
uma manobra altamente difícil, porém mais simples.
Foi o duplo twist carpado. Em vez de ficar reto, o corpo se dobra
durante o duplo mortal, com o tórax num ângulo de 45
graus em relação às pernas, o que facilita
o giro. O movimento recebeu o nome de "Dos Santos", em homenagem
a ela. O salto estendido que Daiane prepara para Atenas é
ainda mais complicado. "A chance de Daiane conseguir uma medalha
olímpica inédita para o Brasil é considerável",
avalia o ucraniano Oleg Ostapenko, técnico da Seleção
Brasileira de Ginástica Olímpica Feminina.
Com
seu salto, Daiane instaurou um novo Everest na ginástica
olímpica. Daqui por diante, todas as atletas da modalidade
vão querer atingir esse topo. Isso a coloca num grupo seletíssimo
o das ginastas que criaram novos parâmetros no esporte.
A esse time pertencem mitos como a romena Nadia Comaneci e as soviéticas
Olga Korbut e Natalia Yurchenko. É uma proeza e tanto quando
se considera que a brasileira não teve as mesmas condições
dessas ginastas. Ela nasceu numa família de poucos recursos
de Porto Alegre, que não podia proporcionar-lhe treinamento
desde os 6 anos de idade, como é recomendado nesse esporte.
Por isso, Daiane só pôde iniciar-se na modalidade aos
12 anos, quando a maior parte das ginastas já disputa competições
internacionais. No começo de sua carreira, muitos técnicos
duvidavam da possibilidade de aquela menina negra de descomunal
força nas pernas conseguir triunfar em um esporte dominado
pelas potências olímpicas européias. Sugeriam,
movidos também pelo preconceito, que ela largasse tudo e
tentasse o atletismo. Daiane, felizmente, não os ouviu. O
que torna seu triunfo ainda mais impressionante é a natureza
da modalidade que abraçou. Uma ginasta é alguém
que abdica da infância e da adolescência para ficar
treinando num ginásio. Que se submete a uma dieta alimentar
de campo de concentração para manter a forma. Que
literalmente arrisca o pescoço e a vida todos os dias numa
infinidade de saltos que, não por acaso, são chamados
de mortais. Que atrasa voluntariamente o desenvolvimento do próprio
corpo para seguir competindo. E que se acostuma a conviver com a
dor, já que as contusões são o pão de
cada dia desse esporte de altíssimo impacto e risco. Está
longe de ser uma coincidência, portanto, que a ginástica
olímpica, desde que entrou em sua fase acrobática,
em meados dos anos 70, tenha sido uma especialidade durante tanto
tempo apenas de países que viviam sob ditaduras, como a ex-União
Soviética e as nações que orbitavam em torno
dela. Só nesses países era possível ao Estado
arrancar as crianças da família para submetê-las
a uma rotina tão desumana. Com sua difusão no Ocidente,
a prática do esporte ficou um pouco menos espartana. Mas
ainda demanda sacrifícios desmesurados, especialmente quando
se lembra que suas praticantes mal saíram da infância.
Daiane
dos Santos é fã de Nadia Comaneci, a romena cuja irrupção
nos Jogos de Montreal, em 1976, dividiu a ginástica olímpica
em um antes e um depois. Pode-se dizer que, em última análise,
foi Nadia Comaneci quem tornou Daiane dos Santos possível.
No período pré-Nadia, eram valorizados principalmente
a graça dos movimentos e o apuro da técnica. O esporte
se parecia com o balé e era dominado por atletas do Leste
Europeu que haviam estagiado no Bolshoi. Seria uma modalidade inacessível
para uma moça da periferia de Porto Alegre que não
teve contato com a dança clássica na infância.
Nadia era treinada pelo romeno Bela Karolyi, o legendário
técnico que achava que uma menina, para ser campeã
de ginástica, deveria recuperar em sua herança genética
o réptil que em algum ponto remoto da evolução
foi um ancestral da raça humana. Karolyi queria dizer com
isso que a melhor ginasta seria aquela que, ao custo de concentração,
exercícios repetitivos e extenuantes, apagasse do cérebro
o sentimento de medo no momento da execução dos movimentos
mais arriscados. Pupila dessa escola, Nadia assombrou o mundo com
suas acrobacias. O que era apenas balé adquiriu um lado circense,
e isso acabou por popularizar um esporte que, até então,
só era apreciado por especialistas. Técnica e graça
continuam importantes, mas a ginástica feminina se tornou
sobretudo um campeonato de manobras aéreas cada vez mais
difíceis e arriscadas em suas quatro variantes a trave
de equilíbrio, as barras assimétricas, o solo e o
salto sobre o cavalo.
Quando
uma atleta executa um novo movimento pela primeira vez, ele recebe
seu nome. À medida que os anos passam e a técnica
evolui, movimentos considerados difíceis podem se tornar
banais (veja quadro).
Por exemplo, o "Korbut" um salto de costas na trave com o
qual a soviética Olga Korbut mesmerizou os espectadores nas
Olimpíadas de Munique, em 1972 é considerado
hoje pelos juízes como de grau de dificuldade "B", numa escala
crescente de "A" a "E". O "Dos Santos", pelo mesmo parâmetro,
recebe a classificação "Super E" dada aos saltos
mais difíceis que existem. O "Dos Santos" estendido que Daiane
programa para Atenas é, assim, mais difícil do que
os mais difíceis. Ela promete fazer uma avant-première
da manobra e de toda coreografia que deve apresentar nos
Jogos Olímpicos, embalada por um arranjo do choro Brasileirinho,
de Waldir Azevedo na Copa do Mundo de Ginástica programada
para este fim de semana no Rio de Janeiro. Apesar de esvaziado pela
ausência das principais estrelas da modalidade, o evento,
inferior em importância às Olimpíadas e ao Mundial,
tem algum peso no calendário internacional. Além disso,
o Brasil não sediava uma Copa do Mundo havia 26 anos.
Ostapenko,
o técnico da seleção, é conhecido como
o homem que ensinou Daiane a voar. Mais correto, no entanto, seria
dizer que ele ensinou a ginasta a aterrissar. Daiane sempre teve
uma notável força nas pernas ela é capaz
de saltar a uma distância de 2,40 metros sem tomar impulso,
quando uma ginasta média chega a 2 e um ser humano sedentário
mal passa de 1. No salto-mortal, ela se eleva a 2,80 metros do solo,
contra 2 de uma ginasta média. Seu problema, no entanto,
sempre foi a descida. "Ela colocava tanta força no movimento
que, na hora de aterrissar, acabava saindo do tablado uns dois ou
três passos, prejudicando sua nota", conta Adriana Alves,
técnica que trabalha com Daiane desde o início da
carreira. Foi por isso que a atleta não conseguiu se classificar
para as Olimpíadas de 2000. Viajou para Sydney como segunda
reserva. Nas mãos de Ostapenko, a gaúcha aprendeu
a controlar sua força e a cair de pé. "Ela melhorou
bastante, mas até hoje tem muitos problemas técnicos,
provavelmente por ter começado tarde", diz o ucraniano. Segundo
ele, Daiane só tem condições de brilhar no
solo e se sair razoavelmente bem no cavalo, onde o uso da força
é fundamental. Na trave e nas barras assimétricas,
seu desempenho é apenas mediano, a anos-luz do de Daniele
Hypólito e de Camila Comin. Boas em todos os aparelhos, as
duas são as mais completas ginastas brasileiras.
Fabio Motta/AE
 |
Daiane provavelmente não chegaria a lugar nenhum se a Confederação
Brasileira de Ginástica, num lance ousado, não tivesse
trazido para o país o time de técnicos ucranianos
que hoje comanda a seleção. Oleg Ostapenko é
considerado um dos treinadores mais competentes do mundo. Foi responsável
pelos bons resultados da equipe ucraniana nas Olimpíadas
de Atlanta em 1996 e de Sydney em 2000. A polivalente Lilia Podkopayeva,
campeoníssima em Atlanta na média dos aparelhos, foi
sua pupila. No Brasil, ele chefia as compatriotas Irina Ilyaschenko
e Nadiia Ostapenko, sua mulher, além do brasileiro Ricardo
Pereira. Com a chegada de Ostapenko, em 2001, instaurou-se no Brasil
o conceito de seleção permanente. As melhores ginastas
passaram a treinar num mesmo lugar, o Centro de Excelência
de Ginástica Olímpica, localizado em Curitiba, equipado
com aparelhos de última geração. Os resultados
vieram a galope. Daniele Hypólito conseguiu medalha de prata
no solo e saiu consagrada como a quarta melhor ginasta do planeta
no Mundial de 2001 competição que é
a mais importante depois das Olimpíadas. No Mundial de 2003,
foi a vez de Daiane trazer o primeiro ouro para o Brasil no solo.
Além de lapidar talentos individuais com exceção
de Daniele, já uma ginasta pronta quando ele chegou ao país
, Ostapenko brilha no coletivo. Em 2003, o time brasileiro
chegou em oitavo lugar por equipes, ganhando pela primeira vez na
história o direito de disputar uma Olimpíada com uma
equipe completa seis ginastas.
Esses
resultados foram conseguidos à custa de muita fome, suor
e lágrimas. A fábrica de ginastas, como foi apelidado
o Centro de Excelência pilotado pelos ucranianos, funciona
como um quartel. Sete ginastas treinam lá. Das oito melhores
do Brasil, fica faltando apenas Daniele Hypólito, que prefere
morar no Rio de Janeiro, com a justificativa de ficar perto de sua
família e de sua técnica, Georgette Vidor (veja
quadro). Três das sete restantes são
de Curitiba. Elas treinam no Centro o dia inteiro e voltam à
noite para a casa dos pais. As outras quatro, forasteiras, moram
numa casa alugada ao lado do ginásio. Todas treinam em média
sete horas por dia, de segunda a sábado, em horários
rígidos (veja
o cotidiano das ginastas). As menores praticamente
nem saem do bairro. Em vez de irem à escola, a escola vai
até elas professoras particulares ministram as matérias
do ensino médio nas dependências do próprio
Centro. As mais velhas, como Daiane, saem todas as noites para a
faculdade, mas seguem um regime especial de estudos para não
atrapalhar os treinos. Elas têm de ir para a cama até
as 11 da noite. As ginastas só podem visitar a família
em feriados como Natal e Carnaval. A alimentação é
balanceada predominam os carboidratos e controlada.
As atletas ingerem apenas 900 calorias por dia, uma dieta de spa
o número equivale à metade do que alguém
que faz três refeições saudáveis diárias
costuma ingerir. A idéia é que elas comam apenas o
suficiente para repor as energias, sem engordar nem um grama. Quando
os integrantes da comissão técnica constataram que
as ginastas "contrabandeavam" doces para comer fora de hora, resolveram
incluir barras de chocolate na dieta, em substituição
a outros alimentos, para que elas pudessem matar a vontade sem ganhar
peso. As guloseimas ficam trancadas num armário no ginásio
e são distribuídas no fim dos treinos, naquele que
é o momento mais feliz do dia. Como há duas semanas
várias delas apresentaram problemas de aumento de peso, o
chocolate foi cortado como castigo até o fim da Copa do Mundo
do Rio de Janeiro (o que não impede que os "contrabandistas"
continuem existindo e atuando). As ginastas são obrigadas
a se pesar três vezes ao dia. Alguns gramas a mais são
punidos com descomposturas entremeadas de palavrões
em russo e exercícios extras. "Tudo isso parece maldade,
mas nada prejudica tanto uma ginasta quanto a oscilação
do peso. Uma variação pequena, de 500 gramas, pode
criar imensas dificuldades nos exercícios", diz a técnica
Irina Ilyaschenko.
A
ginástica olímpica é um esporte duro que tira
chocolates de crianças. Mas já foi pior. Na antiga
União Soviética, as meninas eram submetidas a regimes
de treino que chegavam a onze horas diárias. Mesmo machucadas,
eram obrigadas a realizar saltos-mortais. A mártir dessa
época, em que os acidentes eram escondidos dos olhos do Ocidente,
é a ginasta Elena Mukhina, campeã mundial de 1978
e considerada a sucessora de Nadia Comaneci. Obrigada pelo técnico
Mikhail Klimenko a treinar mesmo tendo fraturas não consolidadas
as Olimpíadas de Moscou se aproximavam e a União
Soviética não podia fazer feio , a ginasta,
num treino, caiu de cabeça no solo. Ficou tetraplégica.
Mais de vinte anos depois, a ginástica olímpica é
agora praticada sob os olhos vigilantes de médicos. Em Curitiba
existe um convênio com um hospital da cidade. Atletas machucadas
são imediatamente submetidas a exames e, se for o caso, poupadas.
Tanto
cuidado, no entanto, não evita que a dor seja algo inerente
à modalidade. Muitas das ginastas da seleção
brasileira recorrem, todas as noites, a antiinflamatórios
para conseguir dormir. As contusões são freqüentes
porque o impacto dos exercícios é tremendo. Estima-se
que Daiane dos Santos suporte o equivalente a um peso de 600 quilos,
distribuídos por suas pernas e coluna, cada vez que aterrissa
de seu vôo. Por isso, a atleta tem se poupado nestes meses
que antecedem as Olimpíadas. O custo de ter aprendido a cair
de pé foi alto para a ginasta. Como se diz no jargão
futebolístico, ela tem os dois joelhos estourados. O esquerdo
foi operado no fim de 2001, por causa de uma contusão no
tendão patelar problema semelhante, embora menor em
intensidade, ao que afastou Ronaldo Fenômeno do futebol por
quase três anos. Em 2003, pouco antes do Mundial, ela teve
de se submeter a uma artroscopia no menisco direito. A cirurgia
feita por Mario Namba, médico da seleção, foi
tão bem-sucedida que a ginasta ganharia a medalha de ouro
dois meses depois. Com os equipamentos modernos de treinamento,
os riscos de acidentes graves se reduzem bastante. Há colchões
por toda parte, e as atletas praticam os mortais na cama elástica
antes de passar para o solo cujo tablado, por sua vez, é
guarnecido com molas de efeito amortecedor. Mesmo assim, reveses
acontecem. Meses atrás Mario Namba teve de cuidar de uma
fratura exposta da ginasta Merly do Carmo, de 15 anos. Ela caiu
das barras assimétricas, quebrando os dois ossos do antebraço.
Um estudo feito nos Estados Unidos aponta a ginástica olímpica
feminina como o segundo esporte em que ocorrem mais acidentes, perdendo
apenas para o futebol americano. Nos treinos, é comum ouvir
o choro das atletas de dor por causa das contusões
constantes, de irritação quando erram um movimento,
ou mesmo de stress devido ao alto grau de competitividade. No Brasil,
são oito ginastas disputando seis vagas olímpicas.
É inevitável a frustração de quem se
sacrifica tanto e vê escorrer entre os dedos a chance de ir
a Atenas.
Mike Blake/Reuters
 |
ATLETA
MODELO
A russa Svetlana Khorkina: a Gisele Bündchen das ginastas ganha
fortunas com contratos publicitários |
O
rígido controle de comida também tem uma razão
médica. Mais do que evitar os excessos, é fundamental
atentar para a falta. De acordo com pesquisa da Universidade de
Washington, nos Estados Unidos, a ginástica olímpica
é o esporte que apresenta a maior porcentagem de praticantes
com distúrbios alimentares como anorexia e bulimia. Manter
as atletas em rígido regime de concentração
é uma forma de minimizar o problema. No início dos
anos 90, quando os Estados Unidos resolveram brigar a sério
por uma medalha de ouro olímpica e contrataram vários
técnicos do Leste Europeu, os distúrbios alimentares
explodiram entre os praticantes do esporte no país. Nos Estados
Unidos as atletas não se concentravam. Em casa, muitas deixavam
de comer ou provocavam o vômito depois das refeições
para atender às expectativas de seus técnicos. Os
americanos levaram a medalha por equipes em 1996, pilotados pelo
mesmo Bela Karolyi, que revelou Nadia Comaneci. Várias atletas,
no entanto, tombaram no caminho, como a ginasta Christy Heinrich,
que morreu de anorexia em julho de 1994, após definhar até
22 quilos. A experiência americana de certa forma humanizou
o esporte. Ao contrário do que acontecia numa ditadura como
a soviética, numa democracia os pais de uma criança
podem processar um técnico. Só na década de
90 os equipamentos de segurança para as ginastas foram aperfeiçoados
e os regimes de treinamento passaram ser um pouco mais brandos.
Os próprios aparelhos de apresentação mudaram
de feição para evitar acidentes. O arriscado salto
sobre o cavalo agora é feito não mais sobre aquele
cavalete estreito, mas sobre uma prancha mais ampla e segura. A
procura pelas academias aumentou, pois uma atleta de sucesso pode
se tornar uma superstar. O modelo das iniciantes é a russa
Svetlana Khourkina, a Gisele Bündchen das ginastas. Com uma
atípica altura de 1,64 metro e um rosto belíssimo,
ela ganha fortunas em campanhas publicitárias. Não
é fácil, no entanto, chegar a Khourkina. "Com toda
a humanização do esporte, os desafios se tornam cada
vez maiores, e a ginástica olímpica, no nível
competitivo, é ainda hoje um esporte para poucos, pela determinação
e pelos sacrifícios que exige", diz Eliane Martins, chefe
da delegação brasileira que vai a Atenas.
Um
desses sacrifícios diz respeito ao desenvolvimento normal
do próprio corpo. Meninas que não praticam esportes
de competição costumam ter a primeira menstruação
entre os 12 e os 13 anos. Com ginastas, essa média sobe para
16 a 17 anos, em razão do alto ritmo de treinos e do baixo
nível de gordura corporal o qual, mediante dieta rígida,
é mantido na faixa de 4%. Para uma ginasta, a primeira menstruação
é um estorvo. A menina tende a engordar e, com o arredondamento
das formas, os eixos de equilíbrio se deslocam. Movimentos
que antes eram realizados com facilidade se tornam subitamente difíceis,
e muitas largam o esporte. Esse é mais um ponto em que Daiane
dos Santos contradiz o figurino tradicional da ginástica.
Quando começou a treinar, aos 12 anos, ela já era
mulher. "Ela é uma rara atleta de ginástica com os
seios grandes e o físico curvilíneo da mulher brasileira",
diz a técnica Adriana Alves. "Eu não conheço
nenhuma outra ginasta que tenha começado a treinar depois
da menarca e tenha atingido nível internacional", afirma
Oleg Ostapenko. O índice de gordura corporal de Daiane se
localiza na faixa de 8% a 9%, acima da média do esporte.
Do biotipo considerado ideal para ginastas, ela tem apenas a baixa
estatura mede 1,45 metro , que hoje em dia é
considerada um pré-requisito importante da modalidade. Tanto
que a maioria dos técnicos presta atenção redobrada
no tamanho dos pais de uma candidata a ginasta. Se eles forem altos,
a menina só é encorajada a treinar se for realmente
muito boa. O princípio, repetido por eles, é que é
mais fácil virar um lápis do que uma vassoura. Quanto
menor e mais leve a ginasta, mais fácil realizar acrobacias.
Filha
de uma família de classe média baixa em Porto Alegre
seu pai é funcionário da Febem gaúcha
, Daiane dos Santos ganha hoje em torno de 20.000 reais por
mês, entre patrocínios e ajuda de custo. Começa
a ser um rosto procurado pela publicidade na semana em que
se preparava para a Copa do Mundo do Rio de Janeiro, obteve dispensa
mais cedo num treinamento para fazer fotos para uma campanha de
uma marca de refrigerantes. Com o dinheiro ganho até hoje,
adquiriu uma casa num bairro de classe média de Porto Alegre.
Ainda não pôde, no entanto, usufruir o imóvel,
pois há dois anos está morando em Curitiba. No quarto
que ocupa na casa onde se concentram as ginastas, as paredes são
cobertas de fotos. Vê-se Daiane na Muralha da China, na Acrópole
de Atenas, em frente à ponte de Sydney. Ela adora fotografar
pensa inclusive em seguir a carreira quando largar a ginástica.
Ao contrário da maior parte de suas colegas de seleção,
Daiane tem um namorado. Ela conhece o estudante de educação
física Ramón Martins da Silva desde a infância,
em Porto Alegre. Ele luta jiu-jítsu e há duas semanas
passou um dia com a namorada em Curitiba quando foi disputar uma
competição na cidade. "Foi a única vez em que
nos vimos nos últimos três meses", suspira ela. Daiane
é vaidosa. Gasta boa parte do que ganha em roupas e bijuterias.
Tem um carro pequeno, e sonha juntar dinheiro para comprar um maior.
Adora dirigir. "Este é o meu momento, e eu tenho de aproveitar",
diz. Aos 21 anos, Daiane está em seu auge. Nessa profissão
em que a consagração pode vir em um segundo, o auge
também passa num instante. Daiane aproveita ao máximo
seu momento sabe que hoje, no mundo, ninguém é
capaz de voar como ela.
|
A
fantástica fábrica sem chocolate
Um
dia na vida da Seleção Brasileira de
Ginástica Olímpica Feminina, em Curitiba
Fotos Joel Rocha
 |
 |
8h
O treino começa pontualmente. No aquecimento,
o técnico Oleg Ostapenko faz massagem na
coluna vertebral de Daiane dos Santos |
9h
As ginastas fazem aula de balé orientadas
pela mulher do técnico, Nadiia Ostapenko
|
 |
 |
|
9h30
Começam
as séries de exercícios. Numa delas,
a ginasta Ana Paula Rodrigues cai de mau jeito
da trave e contunde o tornozelo. Nadiia Ostapenko
traz uma bolsa de gelo e o treino continua
|
12h
Após
o primeiro período de treinos, as ginastas
comem frango com salada no almoço, que
tem lugar na casa onde quatro delas moram. As
que estão acima do peso são obrigadas
a comer no ginásio, sob a vista dos técnicos
|
 |
 |
|
13h15
As atletas mais jovens têm aulas particulares
das matérias do ensino médio, nas
próprias dependências do conjunto
esportivo onde se realizam os treinos
|
15h
Antes
do segundo período de treinos, as ginastas
são obrigadas a se pesar. São três
pesagens diárias: de manhã, depois
do almoço e no fim do dia. Mau resultado:
com excesso de peso, as meninas tiveram o chocolate
cortado da dieta
|
 |
 |
|
16h30
O treino segue puxado, e a dor de Ana Paula Rodrigues
continua. Entre uma série de exercícios
e outra, ela chora
|
18h
Acaba o treino e a sala de fisioterapia lota.
As atletas que sentem dores recebem antiinflamatórios.
Daiane aproveita o exame médico para fazer
a lição de casa
|
 |
19h
Daiane
dos Santos vai para a faculdade, onde cursa educação
física. Três das ginastas têm
um regime especial de estudos numa universidade
do Paraná, para não atrapalhar os
treinos
|
|
|
|
A
brasileira polivalente
AP
 |
DANIELE
HYPÓLITO
Ela já foi a quarta melhor do mundo e agora tem
de treinar muito mais para recuperar a posição |
Durante os preparativos da Copa do Mundo do Rio de Janeiro,
uma pergunta digna de novela de televisão ecoava
pelos bastidores do evento. Afinal, Daniele Hypólito
volta ou não para os braços de Oleg Ostapenko?
A atleta paulista, dona do melhor resultado brasileiro
na história dos mundiais de ginástica
alcançou um excelente quarto lugar na
classificação geral do evento realizado
em Ghent, na Bélgica, em 2001 , abandonou
os treinamentos em Curitiba no fim do ano passado. Resolveu
voltar para o Rio de Janeiro, onde mora sua família,
para o Flamengo, seu clube, e para a esfera de influência
da treinadora Georgette Vidor, com quem se iniciou no
esporte. A ruptura gerou um mal-estar na Confederação
Brasileira de Ginástica. "O treinamento que a
Daniele vem fazendo no Rio é completamente errado,
e assim ela não tem a mínima chance de
medalha em Atenas. Corre até o risco de não
conseguir índice para participar das Olimpíadas",
critica Ostapenko. "Ela obteve os melhores resultados
de sua vida antes que a seleção passasse
a treinar em Curitiba. Por que iria modificar sua rotina?",
devolve Georgette Vidor. O teor das declarações
reflete a rivalidade entre a turma do Flamengo, que
até pouco tempo atrás monopolizava o treinamento
dos ginastas de alto nível no Brasil, e os ucranianos
estabelecidos em Curitiba com uma estrutura melhor.
O rumor que corria nos bastidores da Copa do Mundo,
no entanto, é que, salvo um recuo de última
hora, Daniele deveria anunciar sua volta à concentração
paranaense nos próximos dias. Ela não
pode se arriscar a ficar fora das Olimpíadas
que seriam provavelmente as últimas de sua carreira.
Empresariada por Marlene Mattos, Daniele, arrimo de
uma família grande, tem compromissos com patrocinadores
que lhe garantem um rendimento de cerca de 40 000 reais
mensais. Para o bem de sua imagem, é importante
que esteja em evidência. Segundo amigos da atleta,
ela entrou em crise no ano passado, quando acumulou
maus resultados, devidos em parte a uma seqüência
de contusões, enquanto via Daiane dos Santos
roubar seu lugar de ginasta mais famosa do Brasil. Daniele
é sincera: "O sucesso da Daiane estimula todas
as ginastas a se superar, e eu não sou exceção".
|
|
|
Movimentos
que fizeram história
KORBUT
É
realizado quando a ginasta dá um salto para trás,
apóia as mãos na trave e, na aterrissagem,
fica de barriga no aparelho, com o corpo em forma de
mata-borrão. Com esse movimento, a soviética
Olga Korbut causou sensação nas Olimpíadas
de Munique, em 1972. Hoje é um salto quase corriqueiro.
Seu grau de dificuldade é "B", na escala crescente
que vai de "A" a "E"
AP
 |
COMANECI
É
um Everest das barras assimétricas. Com as pernas
afastadas, a ginasta solta a barra superior, lança
o corpo para trás, dá um salto-mortal
e retoma a barra. Foi apresentado pela romena Nadia
Comaneci (à direita) nas Olimpíadas
de Montreal, em 1976. Ainda hoje poucas atletas se arriscam
a realizá-lo. Seu grau de dificuldade é
"E"
YURCHENKO
Trata-se
de uma família de movimentos do salto sobre o
cavalo. Sua principal característica é
que a ginasta se projeta sobre o aparelho de costas,
acrobacia que consagrou a soviética Natalia Yurchenko
nos anos 80. Antes que o aparelho fosse redesenhado,
era considerado perigosíssimo. A atleta americana
Julissa Gomez perdeu a vida em 1991 após acidentar-se
em um
Yurchenko. Suas variações podem ter graus
de dificuldade que vão de "C" a "E"
|
|
|