Edição 1848 . 7 de abril de 2004

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Especial
A brasileirinha que voa

Daiane dos Santos brilha num
esporte que exige coragem e
sacrifícios de seus campeões


João Gabriel de Lima

 
Eduardo Monteiro

O TRIUNFO DA FORÇA
Capaz de saltar uma distância de 2,40 metros sem tomar impulso e de atingir a altura de 2,80 metros durante um salto-mortal, Daiane dos Santos tem como principal trunfo a força muscular. Aliada à técnica, ela lhe possibilita movimentos acrobáticos no solo e no cavalo. Seus vôos podem dar ao Brasil uma inédita medalha olímpica na modalidade


Galeria de fotos
SALTOS (em flash)
Duplo twist carpado
Duplo twist estendido

Daiane dos Santos decola de costas. Já no ar, gira o corpo de modo a ficar de frente para sua trajetória de vôo. Continua subindo. Perto de atingir o ponto mais alto, quando sua cabeça chega a 2,80 metros do solo – quase a altura de uma cesta de basquete –, ela rodopia num salto-mortal com o corpo reto, como se fosse uma hélice cujo eixo passasse pelo abdômen. Já está na descendente quando repete o giro. O efeito lembra o filme Matrix, com os truques virtuais se materializando no mundo real. Daiane aterrissa de pé, com os braços abertos para aumentar o equilíbrio, gesto elegantemente disfarçado em saudação à platéia. O movimento aqui descrito em câmera lenta dura menos de um segundo. Enquanto você lia as linhas acima, Daiane poderia teoricamente ter realizado quinze dessas dificílimas acrobacias. Em 76 anos de competições – a ginástica feminina faz parte dos Jogos Olímpicos desde 1928 –, ninguém nunca arriscou algo parecido. Ao que se sabe, nenhuma outra atleta está treinando para fazer algo tão assombroso nas Olimpíadas de Atenas, em agosto.

Daiane dos Santos é a única ginasta do mundo capaz de realizar esse salto cujo nome técnico é "duplo twist estendido". Twist porque ela salta de costas e faz um giro de 180 graus no ar. Duplo porque por duas vezes a atleta dá voltas no ar sem colocar pés ou mãos no chão, o que configura o salto-mortal. Estendido porque o corpo fica reto – e é exatamente aí que reside a maior dificuldade. No Mundial de 2003, nos Estados Unidos, Daiane já se firmara como um fenômeno único no mundo da ginástica ao executar uma manobra altamente difícil, porém mais simples. Foi o duplo twist carpado. Em vez de ficar reto, o corpo se dobra durante o duplo mortal, com o tórax num ângulo de 45 graus em relação às pernas, o que facilita o giro. O movimento recebeu o nome de "Dos Santos", em homenagem a ela. O salto estendido que Daiane prepara para Atenas é ainda mais complicado. "A chance de Daiane conseguir uma medalha olímpica inédita para o Brasil é considerável", avalia o ucraniano Oleg Ostapenko, técnico da Seleção Brasileira de Ginástica Olímpica Feminina.

Com seu salto, Daiane instaurou um novo Everest na ginástica olímpica. Daqui por diante, todas as atletas da modalidade vão querer atingir esse topo. Isso a coloca num grupo seletíssimo – o das ginastas que criaram novos parâmetros no esporte. A esse time pertencem mitos como a romena Nadia Comaneci e as soviéticas Olga Korbut e Natalia Yurchenko. É uma proeza e tanto quando se considera que a brasileira não teve as mesmas condições dessas ginastas. Ela nasceu numa família de poucos recursos de Porto Alegre, que não podia proporcionar-lhe treinamento desde os 6 anos de idade, como é recomendado nesse esporte. Por isso, Daiane só pôde iniciar-se na modalidade aos 12 anos, quando a maior parte das ginastas já disputa competições internacionais. No começo de sua carreira, muitos técnicos duvidavam da possibilidade de aquela menina negra de descomunal força nas pernas conseguir triunfar em um esporte dominado pelas potências olímpicas européias. Sugeriam, movidos também pelo preconceito, que ela largasse tudo e tentasse o atletismo. Daiane, felizmente, não os ouviu. O que torna seu triunfo ainda mais impressionante é a natureza da modalidade que abraçou. Uma ginasta é alguém que abdica da infância e da adolescência para ficar treinando num ginásio. Que se submete a uma dieta alimentar de campo de concentração para manter a forma. Que literalmente arrisca o pescoço e a vida todos os dias numa infinidade de saltos que, não por acaso, são chamados de mortais. Que atrasa voluntariamente o desenvolvimento do próprio corpo para seguir competindo. E que se acostuma a conviver com a dor, já que as contusões são o pão de cada dia desse esporte de altíssimo impacto e risco. Está longe de ser uma coincidência, portanto, que a ginástica olímpica, desde que entrou em sua fase acrobática, em meados dos anos 70, tenha sido uma especialidade durante tanto tempo apenas de países que viviam sob ditaduras, como a ex-União Soviética e as nações que orbitavam em torno dela. Só nesses países era possível ao Estado arrancar as crianças da família para submetê-las a uma rotina tão desumana. Com sua difusão no Ocidente, a prática do esporte ficou um pouco menos espartana. Mas ainda demanda sacrifícios desmesurados, especialmente quando se lembra que suas praticantes mal saíram da infância.

Daiane dos Santos é fã de Nadia Comaneci, a romena cuja irrupção nos Jogos de Montreal, em 1976, dividiu a ginástica olímpica em um antes e um depois. Pode-se dizer que, em última análise, foi Nadia Comaneci quem tornou Daiane dos Santos possível. No período pré-Nadia, eram valorizados principalmente a graça dos movimentos e o apuro da técnica. O esporte se parecia com o balé e era dominado por atletas do Leste Europeu que haviam estagiado no Bolshoi. Seria uma modalidade inacessível para uma moça da periferia de Porto Alegre que não teve contato com a dança clássica na infância. Nadia era treinada pelo romeno Bela Karolyi, o legendário técnico que achava que uma menina, para ser campeã de ginástica, deveria recuperar em sua herança genética o réptil que em algum ponto remoto da evolução foi um ancestral da raça humana. Karolyi queria dizer com isso que a melhor ginasta seria aquela que, ao custo de concentração, exercícios repetitivos e extenuantes, apagasse do cérebro o sentimento de medo no momento da execução dos movimentos mais arriscados. Pupila dessa escola, Nadia assombrou o mundo com suas acrobacias. O que era apenas balé adquiriu um lado circense, e isso acabou por popularizar um esporte que, até então, só era apreciado por especialistas. Técnica e graça continuam importantes, mas a ginástica feminina se tornou sobretudo um campeonato de manobras aéreas cada vez mais difíceis e arriscadas em suas quatro variantes – a trave de equilíbrio, as barras assimétricas, o solo e o salto sobre o cavalo.

Quando uma atleta executa um novo movimento pela primeira vez, ele recebe seu nome. À medida que os anos passam e a técnica evolui, movimentos considerados difíceis podem se tornar banais (veja quadro). Por exemplo, o "Korbut" – um salto de costas na trave com o qual a soviética Olga Korbut mesmerizou os espectadores nas Olimpíadas de Munique, em 1972 – é considerado hoje pelos juízes como de grau de dificuldade "B", numa escala crescente de "A" a "E". O "Dos Santos", pelo mesmo parâmetro, recebe a classificação "Super E" – dada aos saltos mais difíceis que existem. O "Dos Santos" estendido que Daiane programa para Atenas é, assim, mais difícil do que os mais difíceis. Ela promete fazer uma avant-première da manobra – e de toda coreografia que deve apresentar nos Jogos Olímpicos, embalada por um arranjo do choro Brasileirinho, de Waldir Azevedo – na Copa do Mundo de Ginástica programada para este fim de semana no Rio de Janeiro. Apesar de esvaziado pela ausência das principais estrelas da modalidade, o evento, inferior em importância às Olimpíadas e ao Mundial, tem algum peso no calendário internacional. Além disso, o Brasil não sediava uma Copa do Mundo havia 26 anos.  

Ostapenko, o técnico da seleção, é conhecido como o homem que ensinou Daiane a voar. Mais correto, no entanto, seria dizer que ele ensinou a ginasta a aterrissar. Daiane sempre teve uma notável força nas pernas – ela é capaz de saltar a uma distância de 2,40 metros sem tomar impulso, quando uma ginasta média chega a 2 e um ser humano sedentário mal passa de 1. No salto-mortal, ela se eleva a 2,80 metros do solo, contra 2 de uma ginasta média. Seu problema, no entanto, sempre foi a descida. "Ela colocava tanta força no movimento que, na hora de aterrissar, acabava saindo do tablado uns dois ou três passos, prejudicando sua nota", conta Adriana Alves, técnica que trabalha com Daiane desde o início da carreira. Foi por isso que a atleta não conseguiu se classificar para as Olimpíadas de 2000. Viajou para Sydney como segunda reserva. Nas mãos de Ostapenko, a gaúcha aprendeu a controlar sua força e a cair de pé. "Ela melhorou bastante, mas até hoje tem muitos problemas técnicos, provavelmente por ter começado tarde", diz o ucraniano. Segundo ele, Daiane só tem condições de brilhar no solo e se sair razoavelmente bem no cavalo, onde o uso da força é fundamental. Na trave e nas barras assimétricas, seu desempenho é apenas mediano, a anos-luz do de Daniele Hypólito e de Camila Comin. Boas em todos os aparelhos, as duas são as mais completas ginastas brasileiras.

Fabio Motta/AE


Daiane provavelmente não chegaria a lugar nenhum se a Confederação Brasileira de Ginástica, num lance ousado, não tivesse trazido para o país o time de técnicos ucranianos que hoje comanda a seleção. Oleg Ostapenko é considerado um dos treinadores mais competentes do mundo. Foi responsável pelos bons resultados da equipe ucraniana nas Olimpíadas de Atlanta em 1996 e de Sydney em 2000. A polivalente Lilia Podkopayeva, campeoníssima em Atlanta na média dos aparelhos, foi sua pupila. No Brasil, ele chefia as compatriotas Irina Ilyaschenko e Nadiia Ostapenko, sua mulher, além do brasileiro Ricardo Pereira. Com a chegada de Ostapenko, em 2001, instaurou-se no Brasil o conceito de seleção permanente. As melhores ginastas passaram a treinar num mesmo lugar, o Centro de Excelência de Ginástica Olímpica, localizado em Curitiba, equipado com aparelhos de última geração. Os resultados vieram a galope. Daniele Hypólito conseguiu medalha de prata no solo e saiu consagrada como a quarta melhor ginasta do planeta no Mundial de 2001 – competição que é a mais importante depois das Olimpíadas. No Mundial de 2003, foi a vez de Daiane trazer o primeiro ouro para o Brasil no solo. Além de lapidar talentos individuais – com exceção de Daniele, já uma ginasta pronta quando ele chegou ao país –, Ostapenko brilha no coletivo. Em 2003, o time brasileiro chegou em oitavo lugar por equipes, ganhando pela primeira vez na história o direito de disputar uma Olimpíada com uma equipe completa – seis ginastas.

Esses resultados foram conseguidos à custa de muita fome, suor e lágrimas. A fábrica de ginastas, como foi apelidado o Centro de Excelência pilotado pelos ucranianos, funciona como um quartel. Sete ginastas treinam lá. Das oito melhores do Brasil, fica faltando apenas Daniele Hypólito, que prefere morar no Rio de Janeiro, com a justificativa de ficar perto de sua família e de sua técnica, Georgette Vidor (veja quadro). Três das sete restantes são de Curitiba. Elas treinam no Centro o dia inteiro e voltam à noite para a casa dos pais. As outras quatro, forasteiras, moram numa casa alugada ao lado do ginásio. Todas treinam em média sete horas por dia, de segunda a sábado, em horários rígidos (veja o cotidiano das ginastas). As menores praticamente nem saem do bairro. Em vez de irem à escola, a escola vai até elas – professoras particulares ministram as matérias do ensino médio nas dependências do próprio Centro. As mais velhas, como Daiane, saem todas as noites para a faculdade, mas seguem um regime especial de estudos para não atrapalhar os treinos. Elas têm de ir para a cama até as 11 da noite. As ginastas só podem visitar a família em feriados como Natal e Carnaval. A alimentação é balanceada – predominam os carboidratos – e controlada. As atletas ingerem apenas 900 calorias por dia, uma dieta de spa – o número equivale à metade do que alguém que faz três refeições saudáveis diárias costuma ingerir. A idéia é que elas comam apenas o suficiente para repor as energias, sem engordar nem um grama. Quando os integrantes da comissão técnica constataram que as ginastas "contrabandeavam" doces para comer fora de hora, resolveram incluir barras de chocolate na dieta, em substituição a outros alimentos, para que elas pudessem matar a vontade sem ganhar peso. As guloseimas ficam trancadas num armário no ginásio e são distribuídas no fim dos treinos, naquele que é o momento mais feliz do dia. Como há duas semanas várias delas apresentaram problemas de aumento de peso, o chocolate foi cortado como castigo até o fim da Copa do Mundo do Rio de Janeiro (o que não impede que os "contrabandistas" continuem existindo e atuando). As ginastas são obrigadas a se pesar três vezes ao dia. Alguns gramas a mais são punidos com descomposturas – entremeadas de palavrões em russo – e exercícios extras. "Tudo isso parece maldade, mas nada prejudica tanto uma ginasta quanto a oscilação do peso. Uma variação pequena, de 500 gramas, pode criar imensas dificuldades nos exercícios", diz a técnica Irina Ilyaschenko.

A ginástica olímpica é um esporte duro que tira chocolates de crianças. Mas já foi pior. Na antiga União Soviética, as meninas eram submetidas a regimes de treino que chegavam a onze horas diárias. Mesmo machucadas, eram obrigadas a realizar saltos-mortais. A mártir dessa época, em que os acidentes eram escondidos dos olhos do Ocidente, é a ginasta Elena Mukhina, campeã mundial de 1978 e considerada a sucessora de Nadia Comaneci. Obrigada pelo técnico Mikhail Klimenko a treinar mesmo tendo fraturas não consolidadas – as Olimpíadas de Moscou se aproximavam e a União Soviética não podia fazer feio –, a ginasta, num treino, caiu de cabeça no solo. Ficou tetraplégica. Mais de vinte anos depois, a ginástica olímpica é agora praticada sob os olhos vigilantes de médicos. Em Curitiba existe um convênio com um hospital da cidade. Atletas machucadas são imediatamente submetidas a exames e, se for o caso, poupadas.

Tanto cuidado, no entanto, não evita que a dor seja algo inerente à modalidade. Muitas das ginastas da seleção brasileira recorrem, todas as noites, a antiinflamatórios para conseguir dormir. As contusões são freqüentes porque o impacto dos exercícios é tremendo. Estima-se que Daiane dos Santos suporte o equivalente a um peso de 600 quilos, distribuídos por suas pernas e coluna, cada vez que aterrissa de seu vôo. Por isso, a atleta tem se poupado nestes meses que antecedem as Olimpíadas. O custo de ter aprendido a cair de pé foi alto para a ginasta. Como se diz no jargão futebolístico, ela tem os dois joelhos estourados. O esquerdo foi operado no fim de 2001, por causa de uma contusão no tendão patelar – problema semelhante, embora menor em intensidade, ao que afastou Ronaldo Fenômeno do futebol por quase três anos. Em 2003, pouco antes do Mundial, ela teve de se submeter a uma artroscopia no menisco direito. A cirurgia feita por Mario Namba, médico da seleção, foi tão bem-sucedida que a ginasta ganharia a medalha de ouro dois meses depois. Com os equipamentos modernos de treinamento, os riscos de acidentes graves se reduzem bastante. Há colchões por toda parte, e as atletas praticam os mortais na cama elástica antes de passar para o solo – cujo tablado, por sua vez, é guarnecido com molas de efeito amortecedor. Mesmo assim, reveses acontecem. Meses atrás Mario Namba teve de cuidar de uma fratura exposta da ginasta Merly do Carmo, de 15 anos. Ela caiu das barras assimétricas, quebrando os dois ossos do antebraço. Um estudo feito nos Estados Unidos aponta a ginástica olímpica feminina como o segundo esporte em que ocorrem mais acidentes, perdendo apenas para o futebol americano. Nos treinos, é comum ouvir o choro das atletas – de dor por causa das contusões constantes, de irritação quando erram um movimento, ou mesmo de stress devido ao alto grau de competitividade. No Brasil, são oito ginastas disputando seis vagas olímpicas. É inevitável a frustração de quem se sacrifica tanto e vê escorrer entre os dedos a chance de ir a Atenas.  

 
Mike Blake/Reuters
ATLETA MODELO
A russa Svetlana Khorkina: a Gisele Bündchen das ginastas ganha fortunas com contratos publicitários

O rígido controle de comida também tem uma razão médica. Mais do que evitar os excessos, é fundamental atentar para a falta. De acordo com pesquisa da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, a ginástica olímpica é o esporte que apresenta a maior porcentagem de praticantes com distúrbios alimentares como anorexia e bulimia. Manter as atletas em rígido regime de concentração é uma forma de minimizar o problema. No início dos anos 90, quando os Estados Unidos resolveram brigar a sério por uma medalha de ouro olímpica e contrataram vários técnicos do Leste Europeu, os distúrbios alimentares explodiram entre os praticantes do esporte no país. Nos Estados Unidos as atletas não se concentravam. Em casa, muitas deixavam de comer ou provocavam o vômito depois das refeições para atender às expectativas de seus técnicos. Os americanos levaram a medalha por equipes em 1996, pilotados pelo mesmo Bela Karolyi, que revelou Nadia Comaneci. Várias atletas, no entanto, tombaram no caminho, como a ginasta Christy Heinrich, que morreu de anorexia em julho de 1994, após definhar até 22 quilos. A experiência americana de certa forma humanizou o esporte. Ao contrário do que acontecia numa ditadura como a soviética, numa democracia os pais de uma criança podem processar um técnico. Só na década de 90 os equipamentos de segurança para as ginastas foram aperfeiçoados e os regimes de treinamento passaram ser um pouco mais brandos. Os próprios aparelhos de apresentação mudaram de feição para evitar acidentes. O arriscado salto sobre o cavalo agora é feito não mais sobre aquele cavalete estreito, mas sobre uma prancha mais ampla e segura. A procura pelas academias aumentou, pois uma atleta de sucesso pode se tornar uma superstar. O modelo das iniciantes é a russa Svetlana Khourkina, a Gisele Bündchen das ginastas. Com uma atípica altura de 1,64 metro e um rosto belíssimo, ela ganha fortunas em campanhas publicitárias. Não é fácil, no entanto, chegar a Khourkina. "Com toda a humanização do esporte, os desafios se tornam cada vez maiores, e a ginástica olímpica, no nível competitivo, é ainda hoje um esporte para poucos, pela determinação e pelos sacrifícios que exige", diz Eliane Martins, chefe da delegação brasileira que vai a Atenas.  

Um desses sacrifícios diz respeito ao desenvolvimento normal do próprio corpo. Meninas que não praticam esportes de competição costumam ter a primeira menstruação entre os 12 e os 13 anos. Com ginastas, essa média sobe para 16 a 17 anos, em razão do alto ritmo de treinos e do baixo nível de gordura corporal – o qual, mediante dieta rígida, é mantido na faixa de 4%. Para uma ginasta, a primeira menstruação é um estorvo. A menina tende a engordar e, com o arredondamento das formas, os eixos de equilíbrio se deslocam. Movimentos que antes eram realizados com facilidade se tornam subitamente difíceis, e muitas largam o esporte. Esse é mais um ponto em que Daiane dos Santos contradiz o figurino tradicional da ginástica. Quando começou a treinar, aos 12 anos, ela já era mulher. "Ela é uma rara atleta de ginástica com os seios grandes e o físico curvilíneo da mulher brasileira", diz a técnica Adriana Alves. "Eu não conheço nenhuma outra ginasta que tenha começado a treinar depois da menarca e tenha atingido nível internacional", afirma Oleg Ostapenko. O índice de gordura corporal de Daiane se localiza na faixa de 8% a 9%, acima da média do esporte. Do biotipo considerado ideal para ginastas, ela tem apenas a baixa estatura – mede 1,45 metro –, que hoje em dia é considerada um pré-requisito importante da modalidade. Tanto que a maioria dos técnicos presta atenção redobrada no tamanho dos pais de uma candidata a ginasta. Se eles forem altos, a menina só é encorajada a treinar se for realmente muito boa. O princípio, repetido por eles, é que é mais fácil virar um lápis do que uma vassoura. Quanto menor e mais leve a ginasta, mais fácil realizar acrobacias.

Filha de uma família de classe média baixa em Porto Alegre – seu pai é funcionário da Febem gaúcha –, Daiane dos Santos ganha hoje em torno de 20.000 reais por mês, entre patrocínios e ajuda de custo. Começa a ser um rosto procurado pela publicidade – na semana em que se preparava para a Copa do Mundo do Rio de Janeiro, obteve dispensa mais cedo num treinamento para fazer fotos para uma campanha de uma marca de refrigerantes. Com o dinheiro ganho até hoje, adquiriu uma casa num bairro de classe média de Porto Alegre. Ainda não pôde, no entanto, usufruir o imóvel, pois há dois anos está morando em Curitiba. No quarto que ocupa na casa onde se concentram as ginastas, as paredes são cobertas de fotos. Vê-se Daiane na Muralha da China, na Acrópole de Atenas, em frente à ponte de Sydney. Ela adora fotografar – pensa inclusive em seguir a carreira quando largar a ginástica. Ao contrário da maior parte de suas colegas de seleção, Daiane tem um namorado. Ela conhece o estudante de educação física Ramón Martins da Silva desde a infância, em Porto Alegre. Ele luta jiu-jítsu e há duas semanas passou um dia com a namorada em Curitiba quando foi disputar uma competição na cidade. "Foi a única vez em que nos vimos nos últimos três meses", suspira ela. Daiane é vaidosa. Gasta boa parte do que ganha em roupas e bijuterias. Tem um carro pequeno, e sonha juntar dinheiro para comprar um maior. Adora dirigir. "Este é o meu momento, e eu tenho de aproveitar", diz. Aos 21 anos, Daiane está em seu auge. Nessa profissão em que a consagração pode vir em um segundo, o auge também passa num instante. Daiane aproveita ao máximo seu momento – sabe que hoje, no mundo, ninguém é capaz de voar como ela.

 

A fantástica fábrica sem chocolate

Um dia na vida da Seleção Brasileira de
Ginástica Olímpica Feminina, em Curitiba

 
Fotos Joel Rocha
8h
O treino começa pontualmente. No aquecimento, o técnico Oleg Ostapenko faz massagem na coluna vertebral de Daiane dos Santos

9h
As ginastas fazem aula de balé orientadas pela mulher do técnico, Nadiia Ostapenko


9h30
Começam as séries de exercícios. Numa delas, a ginasta Ana Paula Rodrigues cai de mau jeito da trave e contunde o tornozelo. Nadiia Ostapenko traz uma bolsa de gelo e o treino continua

12h
Após o primeiro período de treinos, as ginastas comem frango com salada no almoço, que tem lugar na casa onde quatro delas moram. As que estão acima do peso são obrigadas a comer no ginásio, sob a vista dos técnicos


13h15
As atletas mais jovens têm aulas particulares das matérias do ensino médio, nas próprias dependências do conjunto esportivo onde se realizam os treinos

15h
Antes do segundo período de treinos, as ginastas são obrigadas a se pesar. São três pesagens diárias: de manhã, depois do almoço e no fim do dia. Mau resultado: com excesso de peso, as meninas tiveram o chocolate cortado da dieta


16h30
O treino segue puxado, e a dor de Ana Paula Rodrigues continua. Entre uma série de exercícios e outra, ela chora

18h
Acaba o treino e a sala de fisioterapia lota. As atletas que sentem dores recebem antiinflamatórios. Daiane aproveita o exame médico para fazer a lição de casa


19h
Daiane dos Santos vai para a faculdade, onde cursa educação física. Três das ginastas têm um regime especial de estudos numa universidade do Paraná, para não atrapalhar os treinos

 

A brasileira polivalente

AP
DANIELE HYPÓLITO
Ela já foi a quarta melhor do mundo e agora tem de treinar muito mais para recuperar a posição


Durante os preparativos da Copa do Mundo do Rio de Janeiro, uma pergunta digna de novela de televisão ecoava pelos bastidores do evento. Afinal, Daniele Hypólito volta ou não para os braços de Oleg Ostapenko? A atleta paulista, dona do melhor resultado brasileiro na história dos mundiais de ginástica – alcançou um excelente quarto lugar na classificação geral do evento realizado em Ghent, na Bélgica, em 2001 –, abandonou os treinamentos em Curitiba no fim do ano passado. Resolveu voltar para o Rio de Janeiro, onde mora sua família, para o Flamengo, seu clube, e para a esfera de influência da treinadora Georgette Vidor, com quem se iniciou no esporte. A ruptura gerou um mal-estar na Confederação Brasileira de Ginástica. "O treinamento que a Daniele vem fazendo no Rio é completamente errado, e assim ela não tem a mínima chance de medalha em Atenas. Corre até o risco de não conseguir índice para participar das Olimpíadas", critica Ostapenko. "Ela obteve os melhores resultados de sua vida antes que a seleção passasse a treinar em Curitiba. Por que iria modificar sua rotina?", devolve Georgette Vidor. O teor das declarações reflete a rivalidade entre a turma do Flamengo, que até pouco tempo atrás monopolizava o treinamento dos ginastas de alto nível no Brasil, e os ucranianos estabelecidos em Curitiba com uma estrutura melhor. O rumor que corria nos bastidores da Copa do Mundo, no entanto, é que, salvo um recuo de última hora, Daniele deveria anunciar sua volta à concentração paranaense nos próximos dias. Ela não pode se arriscar a ficar fora das Olimpíadas que seriam provavelmente as últimas de sua carreira. Empresariada por Marlene Mattos, Daniele, arrimo de uma família grande, tem compromissos com patrocinadores que lhe garantem um rendimento de cerca de 40 000 reais mensais. Para o bem de sua imagem, é importante que esteja em evidência. Segundo amigos da atleta, ela entrou em crise no ano passado, quando acumulou maus resultados, devidos em parte a uma seqüência de contusões, enquanto via Daiane dos Santos roubar seu lugar de ginasta mais famosa do Brasil. Daniele é sincera: "O sucesso da Daiane estimula todas as ginastas a se superar, e eu não sou exceção".

 

Movimentos que fizeram história

KORBUT
É realizado quando a ginasta dá um salto para trás, apóia as mãos na trave e, na aterrissagem, fica de barriga no aparelho, com o corpo em forma de mata-borrão. Com esse movimento, a soviética Olga Korbut causou sensação nas Olimpíadas de Munique, em 1972. Hoje é um salto quase corriqueiro. Seu grau de dificuldade é "B", na escala crescente que vai de "A" a "E"

AP


COMANECI

É um Everest das barras assimétricas. Com as pernas afastadas, a ginasta solta a barra superior, lança o corpo para trás, dá um salto-mortal e retoma a barra. Foi apresentado pela romena Nadia Comaneci (à direita) nas Olimpíadas de Montreal, em 1976. Ainda hoje poucas atletas se arriscam a realizá-lo. Seu grau de dificuldade é "E"

 

YURCHENKO
Trata-se de uma família de movimentos do salto sobre o cavalo. Sua principal característica é que a ginasta se projeta sobre o aparelho de costas, acrobacia que consagrou a soviética Natalia Yurchenko nos anos 80. Antes que o aparelho fosse redesenhado, era considerado perigosíssimo. A atleta americana Julissa Gomez perdeu a vida em 1991 após acidentar-se em um Yurchenko. Suas variações podem ter graus de dificuldade que vão de "C" a "E"

 

 

 
 
 
 
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