Edição 1848 . 7 de abril de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Guia
Artes e Espetáculos
Lya Luft
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Venezuela
Um país na contramão

A maioria dos países latino-americanos vive
um período de recuperação econômica e
consolidação democrática – a grande
exceção é a Venezuela


Fotos AP
AP
Chávez com seus adeptos: estratégia de confronto que acirrou a crise política e econômica Manifestação oposicionista: 3,6 milhões de assinaturas por um plebiscito contra Chávez

A Venezuela era até poucos anos atrás uma exceção na América Latina, cuja história continental foi marcada por economias conturbadas e pelos regimes autoritários. Durante quatro décadas, entre 1958 e 1998, o país foi um exemplo de estabilidade política e de democracia. Hoje, continua a ser uma exceção, só que com os sinais invertidos. Enquanto os países vizinhos passam por um período de consolidação da democracia e de modernização e dão sinais de recuperação econômica, a Venezuela convive com inflação crescente e um trauma político que paralisa o país desde a eleição do presidente Hugo Chávez, em 1998. Com um discurso populista, mistura de esquerdismo tosco com caudilhismo em estado puro, ele acirrou a cizânia entre os venezuelanos e produziu um desastre econômico e social. Apenas nos últimos dois anos, o produto interno bruto (PIB) caiu 18%, a renda per capita recuou para níveis da década de 50 e a dívida externa quadruplicou.

A situação na Venezuela é um lembrete da dificuldade latino-americana em aproveitar as oportunidades para dar o salto decisivo para o desenvolvimento e para a consolidação da democracia. "A América Latina é uma região privilegiada do mundo, dotada de recursos abundantes em relação à população. Enfrenta poucos conflitos étnicos ou religiosos e está longe das áreas principais de tensão internacional", escreveu Norman Gall, diretor do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, com sede em São Paulo. Por que, apesar dessas vantagens, apresenta desempenho econômico e institucional medíocres? A única receita conhecida (mas não infalível) para o desenvolvimento é incentivar a iniciativa privada, respeitar as leis e exercer boa governança. Trata-se de um conjunto difícil de encontrar na América Latina. É mais comum que cada manda-chuva pretenda reinventar a roda. "Virou tradição na região que, a cada novo governo, as prioridades mudem e os avanços anteriores sejam desprezados", disse Gall a VEJA.

A modernização da economia e os avanços nas áreas de saúde e educação são comuns à maioria dos países latino-americanos. Mas o continente não consegue resolver seu maior problema, a desigualdade social. Um estudo divulgado no ano passado pelo Banco Mundial mostrou que os 10% mais abonados concentram metade da riqueza da região. No total, 44% dos latino-americanos vivem abaixo da linha de pobreza. O temor é que a falta de resultados sociais coloque em risco a idéia de que a democracia é o melhor caminho para eliminar a pobreza e a miséria no continente. Uma pesquisa do instituto chileno Latinobarómetro em vários países da região mostrou que a confiança na democracia caiu de 61% em 1996 para 53% no ano passado. A decepção com os políticos reforça a impressão de que a América Latina vive perigosamente numa encruzilhada que aponta, de um lado, o populismo, e, do outro, a normalidade democrática.

A ascensão de Hugo Chávez mostra a facilidade com que países importantes se deixam seduzir pelo populismo. Antes dele, apenas dois partidos políticos se revezaram no poder durante décadas. Acostumada com a bonança do petróleo – o país tem a sexta maior reserva do mundo –, a elite venezuelana não se empenhou em diversificar a economia. Até hoje, o petróleo representa 25% do PIB. A partir dos anos 80, com a queda da participação venezuelana no mercado mundial do petróleo e a corrupção contaminando todos os setores do Estado, a Venezuela mergulhou num pesadelo. Chávez primeiro fracassou numa sangrenta tentativa de se apossar do poder pelas armas, em 1992. Ressurgiu mais tarde com um discurso agressivo contra as "oligarquias" e foi eleito com 56% dos votos. Em menos de seis anos, venceu seis plebiscitos e duas eleições, reescreveu a Constituição, interveio no Judiciário, prolongou o próprio mandato e fez maioria no Congresso. Há duas semanas, com um golpe branco, ele impugnou 3,6 milhões de assinaturas (1,2 milhão a mais que o necessário) coletadas pela oposição para convocar um novo plebiscito para encurtar seu mandato. Ao fazer isso, ele fechou mais uma porta a uma solução constitucional para a crise política. De acordo com as pesquisas, restam-lhe o apoio de apenas três em cada dez venezuelanos. A única meta do presidente venezuelano é agora se manter no poder e tocar adiante sua "revolução bolivariana", como pomposamente apelidou seu governo.

 
 
 
 
topo voltar