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Venezuela
Um
país na contramão
A
maioria dos países latino-americanos vive
um período de recuperação econômica e
consolidação democrática a grande
exceção é a Venezuela
Fotos AP
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AP
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| Chávez
com seus adeptos: estratégia de confronto que acirrou
a crise política e econômica |
Manifestação
oposicionista: 3,6 milhões de assinaturas por um plebiscito
contra Chávez |
A Venezuela
era até poucos anos atrás uma exceção
na América Latina, cuja história continental foi marcada
por economias conturbadas e pelos regimes autoritários. Durante
quatro décadas, entre 1958 e 1998, o país foi um exemplo
de estabilidade política e de democracia. Hoje, continua
a ser uma exceção, só que com os sinais invertidos.
Enquanto os países vizinhos passam por um período
de consolidação da democracia e de modernização
e dão sinais de recuperação econômica,
a Venezuela convive com inflação crescente e um trauma
político que paralisa o país desde a eleição
do presidente Hugo Chávez, em 1998. Com um discurso populista,
mistura de esquerdismo tosco com caudilhismo em estado puro, ele
acirrou a cizânia entre os venezuelanos e produziu um desastre
econômico e social. Apenas nos últimos dois anos, o
produto interno bruto (PIB) caiu 18%, a renda per capita recuou
para níveis da década de 50 e a dívida externa
quadruplicou.
A
situação na Venezuela é um lembrete da dificuldade
latino-americana em aproveitar as oportunidades para dar o salto
decisivo para o desenvolvimento e para a consolidação
da democracia. "A América Latina é uma região
privilegiada do mundo, dotada de recursos abundantes em relação
à população. Enfrenta poucos conflitos étnicos
ou religiosos e está longe das áreas principais de
tensão internacional", escreveu Norman Gall, diretor do Instituto
Fernand Braudel de Economia Mundial, com sede em São Paulo.
Por que, apesar dessas vantagens, apresenta desempenho econômico
e institucional medíocres? A única receita conhecida
(mas não infalível) para o desenvolvimento é
incentivar a iniciativa privada, respeitar as leis e exercer boa
governança. Trata-se de um conjunto difícil de encontrar
na América Latina. É mais comum que cada manda-chuva
pretenda reinventar a roda. "Virou tradição na região
que, a cada novo governo, as prioridades mudem e os avanços
anteriores sejam desprezados", disse Gall a VEJA.
A
modernização da economia e os avanços nas áreas
de saúde e educação são comuns à
maioria dos países latino-americanos. Mas o continente não
consegue resolver seu maior problema, a desigualdade social. Um
estudo divulgado no ano passado pelo Banco Mundial mostrou que os
10% mais abonados concentram metade da riqueza da região.
No total, 44% dos latino-americanos vivem abaixo da linha de pobreza.
O temor é que a falta de resultados sociais coloque em risco
a idéia de que a democracia é o melhor caminho para
eliminar a pobreza e a miséria no continente. Uma pesquisa
do instituto chileno Latinobarómetro em vários países
da região mostrou que a confiança na democracia caiu
de 61% em 1996 para 53% no ano passado. A decepção
com os políticos reforça a impressão de que
a América Latina vive perigosamente numa encruzilhada que
aponta, de um lado, o populismo, e, do outro, a normalidade democrática.
A
ascensão de Hugo Chávez mostra a facilidade com que
países importantes se deixam seduzir pelo populismo. Antes
dele, apenas dois partidos políticos se revezaram no poder
durante décadas. Acostumada com a bonança do petróleo
o país tem a sexta maior reserva do mundo ,
a elite venezuelana não se empenhou em diversificar a economia.
Até hoje, o petróleo representa 25% do PIB. A partir
dos anos 80, com a queda da participação venezuelana
no mercado mundial do petróleo e a corrupção
contaminando todos os setores do Estado, a Venezuela mergulhou num
pesadelo. Chávez primeiro fracassou numa sangrenta tentativa
de se apossar do poder pelas armas, em 1992. Ressurgiu mais tarde
com um discurso agressivo contra as "oligarquias" e foi eleito com
56% dos votos. Em menos de seis anos, venceu seis plebiscitos e
duas eleições, reescreveu a Constituição,
interveio no Judiciário, prolongou o próprio mandato
e fez maioria no Congresso. Há duas semanas, com um golpe
branco, ele impugnou 3,6 milhões de assinaturas (1,2 milhão
a mais que o necessário) coletadas pela oposição
para convocar um novo plebiscito para encurtar seu mandato. Ao fazer
isso, ele fechou mais uma porta a uma solução constitucional
para a crise política. De acordo com as pesquisas, restam-lhe
o apoio de apenas três em cada dez venezuelanos. A única
meta do presidente venezuelano é agora se manter no poder
e tocar adiante sua "revolução bolivariana", como
pomposamente apelidou seu governo.
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