Edição 1848 . 7 de abril de 2004

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Internacional
Show de horror em
cidade iraquiana

Multidão massacra civis americanos
e depois mutila seus corpos em
explosão de
ódio selvagem

 
AFP
Corpos trucidados de dois civis americanos pendurados numa ponte de Falluja, no Iraque

As cenas registradas por uma câmera de TV em Falluja, cidade a 50 quilômetros de Bagdá e um dos redutos de partidários de Saddam Hussein, eram tão chocantes que nenhuma emissora americana pôde levá-las ao ar integralmente. Mostravam centenas de iraquianos festejando a morte de quatro civis americanos, vítimas de uma emboscada ocorrida pouco antes, na quarta-feira passada. Os dois carros em que viajavam tinham sido metralhados por guerrilheiros, mas um deles foi tirado com vida dos escombros. O americano ferido mal teve tempo de implorar por ajuda. Foi linchado pela multidão. Os corpos foram então queimados, espancados, espetados com ferros e finalmente desmembrados. Um pedaço de carne, talvez um braço, foi amarrado com barbante a um tijolo e pendurado num fio de energia elétrica – do jeito que as crianças brasileiras fazem com tênis velhos. Os cadáveres esquartejados e calcinados dos dois americanos que ocupavam o segundo jipe foram arrastados algumas quadras até uma ponte sobre o Rio Eufrates. Ali, foram pendurados de cabeça para baixo e apedrejados, para delírio da turba, que xingava o presidente americano George W. Bush.

Centenas de americanos já foram mortos no Iraque e muitos outros ainda serão. Mas a força emocional das imagens de iraquianos rindo e dançando diante dos corpos despedaçados, como se tivessem vencido uma Copa do Mundo, é devastadora. Não se sabe se o massacre selvagem foi ou não planejado como uma reedição de outro episódio terrível, ocorrido na Somália, em 1993. Lá, no dia em que os Estados Unidos perderam dezoito soldados numa desastrosa batalha com milícias somalis, uma multidão exultante arrastou pelas ruas da capital, Mogadíscio, o corpo de um militar americano. As perdas na batalha urbana e a cena de barbarismo captada pelas câmeras de televisão fizeram com que os americanos saíssem às pressas da Somália. Os inimigos dos Estados Unidos tomaram o episódio como o modelo da estratégia que pode derrotar e desmoralizar a superpotência. Osama bin Laden, o arquiteto do terror islâmico, citou a fuga diante do barbarismo somali como prova de que os infiéis não têm estômago para ver seus soldados despedaçados. Alguns especialistas acreditam que aí esteja a lógica dos atentados de 11 de setembro de 2001.

As analogias entre Mogadíscio e Falluja só falham num detalhe: os americanos não tinham, na Somália, o grau de comprometimento político e militar que mantêm no Iraque. Naquele país, a missão era apenas humanitária, a serviço das Nações Unidas. A aposta no Iraque é mais ambiciosa e não passa pela cabeça de Bush permitir que a emoção determine a política a seguir. Ao contrário, o que as terríveis imagens mostram é que o problema reside no próprio Iraque e que só vai piorar se as forças estrangeiras forem embora. Os Estados Unidos planejam entregar o poder aos iraquianos em junho. Liderada pelo grande aiatolá Al Sistani – que só conversa com os americanos por meio de intermediários –, a maioria xiita exige uma versão de democracia que assegure sua supremacia. Isso é inaceitável para os curdos, minoria étnica do norte do Iraque, e para a minoria sunita, como os moradores de Falluja. A cidade está no coração do chamado triângulo sunita, a região em torno de Bagdá que é a fortaleza dessa minoria à qual pertence Saddam Hussein e onde se concentram os ataques contra as forças de ocupação.

 
AFP
Reuters
Iraquiano mostra cartaz com a inscrição "Falluja, cemitério americano" e Bush (ao lado): pesadelo em ano eleitoral

Em abril do ano passado, tropas americanas abriram fogo contra uma manifestação em Falluja e mataram mais de uma dúzia de iraquianos. A cidade, dominada pela tradição tribal que exige vingança pelo sangue derramado, nunca perdoou os americanos. O massacre dos civis americanos – que eram guardas de segurança contratados para substituir os soldados em algumas tarefas, como proteger comboios de alimentos – é uma demonstração de ódio profundo aos invasores estrangeiros. Mas é também a comprovação da baderna que reina no Iraque um ano depois da invasão e de como o país está próximo de uma guerra civil. As forças de ocupação não conseguiram dar segurança à população nem preencher, com rapidez e eficiência, o vácuo de poder após a queda do regime. Há certos ganhos na reconstrução da infra-estrutura, mas o desemprego continua alto. Os avanços são lentos e sabotados por grupos terroristas interessados em desestabilizar a transição. Embora tenham se livrado de uma ditadura cruel, os iraquianos se mostram ressentidos por ver uma força de ocupação estrangeira dar as ordens no país. O projeto estratégico de Bush é criar no Iraque uma democracia que sirva de exemplo para o Oriente Médio. Já está claro que isso não poderá ser imposto à ponta de fuzil.

Nos Estados Unidos, o que se vê é o acirramento do debate interno sobre a intervenção no Iraque. Os americanos acreditam na democracia e atribuem o sucesso do país aos valores que ela representa. Foi em nome da liberdade e da democracia que os Estados Unidos lutaram na II Guerra e em todos os conflitos em que estiveram envolvidos nos últimos cinqüenta anos. Ocorre que, desde os anos 70, a opinião pública americana recorre à televisão para se indagar se a causa nobre compensa o preço a ser pago para defendê-la. A Guerra do Vietnã não foi perdida nos campos de batalha do Sudeste Asiático, mas pela oposição crescente da opinião pública, que se fartou de ver seus filhos abatidos numa selva do outro lado do mundo. Foram as imagens da TV mostrando os soldados americanos mortos no campo de batalha ou seus corpos embalados em sacos plásticos que tornaram a campanha bélica politicamente insustentável.

Nos anos 80, o presidente Ronald Reagan despachou tropas para o Líbano para tentar impor uma solução militar à guerra civil. Também saiu às pressas após um atentado suicida contra o QG das tropas americanas em Beirute, em 1983, que matou 241 soldados. Depois do desastre de Mogadíscio, o Pentágono alterou sua doutrina militar. A nova ordem é só entrar em batalha com esmagadora supremacia aérea para evitar expor a vida da infantaria. Deu certo nos Bálcãs e também no Iraque. O problema é que depois da vitória sobre Saddam Hussein foi preciso ocupar o Iraque. Tomando posições fixas e circulando por rotas conhecidas, as tropas ficam vulneráveis aos ataques dos remanescentes das forças de Saddam Hussein e dos terroristas estrangeiros infiltrados no país. Será que a opinião pública americana suportará por muito tempo imagens como as de Falluja?

 
 
 
 
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