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Internacional
Show
de horror em
cidade iraquiana
Multidão
massacra civis americanos
e depois mutila seus corpos em
explosão de ódio
selvagem
AFP
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| Corpos
trucidados de dois civis americanos pendurados numa ponte de
Falluja, no Iraque |
As
cenas registradas por uma câmera de TV em Falluja, cidade
a 50 quilômetros de Bagdá e um dos redutos de partidários
de Saddam Hussein, eram tão chocantes que nenhuma emissora
americana pôde levá-las ao ar integralmente. Mostravam
centenas de iraquianos festejando a morte de quatro civis americanos,
vítimas de uma emboscada ocorrida pouco antes, na quarta-feira
passada. Os dois carros em que viajavam tinham sido metralhados
por guerrilheiros, mas um deles foi tirado com vida dos escombros.
O americano ferido mal teve tempo de implorar por ajuda. Foi linchado
pela multidão. Os corpos foram então queimados, espancados,
espetados com ferros e finalmente desmembrados. Um pedaço
de carne, talvez um braço, foi amarrado com barbante a um
tijolo e pendurado num fio de energia elétrica do
jeito que as crianças brasileiras fazem com tênis velhos.
Os cadáveres esquartejados e calcinados dos dois americanos
que ocupavam o segundo jipe foram arrastados algumas quadras até
uma ponte sobre o Rio Eufrates. Ali, foram pendurados de cabeça
para baixo e apedrejados, para delírio da turba, que xingava
o presidente americano George W. Bush.
Centenas
de americanos já foram mortos no Iraque e muitos outros ainda
serão. Mas a força emocional das imagens de iraquianos
rindo e dançando diante dos corpos despedaçados, como
se tivessem vencido uma Copa do Mundo, é devastadora. Não
se sabe se o massacre selvagem foi ou não planejado como
uma reedição de outro episódio terrível,
ocorrido na Somália, em 1993. Lá, no dia em que os
Estados Unidos perderam dezoito soldados numa desastrosa batalha
com milícias somalis, uma multidão exultante arrastou
pelas ruas da capital, Mogadíscio, o corpo de um militar
americano. As perdas na batalha urbana e a cena de barbarismo captada
pelas câmeras de televisão fizeram com que os americanos
saíssem às pressas da Somália. Os inimigos
dos Estados Unidos tomaram o episódio como o modelo da estratégia
que pode derrotar e desmoralizar a superpotência. Osama bin
Laden, o arquiteto do terror islâmico, citou a fuga diante
do barbarismo somali como prova de que os infiéis não
têm estômago para ver seus soldados despedaçados.
Alguns especialistas acreditam que aí esteja a lógica
dos atentados de 11 de setembro de 2001.
As
analogias entre Mogadíscio e Falluja só falham num
detalhe: os americanos não tinham, na Somália, o grau
de comprometimento político e militar que mantêm no
Iraque. Naquele país, a missão era apenas humanitária,
a serviço das Nações Unidas. A aposta no Iraque
é mais ambiciosa e não passa pela cabeça de
Bush permitir que a emoção determine a política
a seguir. Ao contrário, o que as terríveis imagens
mostram é que o problema reside no próprio Iraque
e que só vai piorar se as forças estrangeiras forem
embora. Os Estados Unidos planejam entregar o poder aos iraquianos
em junho. Liderada pelo grande aiatolá Al Sistani
que só conversa com os americanos por meio de intermediários
, a maioria xiita exige uma versão de democracia que
assegure sua supremacia. Isso é inaceitável para os
curdos, minoria étnica do norte do Iraque, e para a minoria
sunita, como os moradores de Falluja. A cidade está no coração
do chamado triângulo sunita, a região em torno de Bagdá
que é a fortaleza dessa minoria à qual pertence Saddam
Hussein e onde se concentram os ataques contra as forças
de ocupação.
AFP
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Reuters
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| Iraquiano
mostra cartaz com a inscrição "Falluja, cemitério americano"
e Bush (ao lado): pesadelo em ano eleitoral |
Em
abril do ano passado, tropas americanas abriram fogo contra uma
manifestação em Falluja e mataram mais de uma dúzia
de iraquianos. A cidade, dominada pela tradição tribal
que exige vingança pelo sangue derramado, nunca perdoou os
americanos. O massacre dos civis americanos que eram guardas
de segurança contratados para substituir os soldados em algumas
tarefas, como proteger comboios de alimentos é uma
demonstração de ódio profundo aos invasores
estrangeiros. Mas é também a comprovação
da baderna que reina no Iraque um ano depois da invasão e
de como o país está próximo de uma guerra civil.
As forças de ocupação não conseguiram
dar segurança à população nem preencher,
com rapidez e eficiência, o vácuo de poder após
a queda do regime. Há certos ganhos na reconstrução
da infra-estrutura, mas o desemprego continua alto. Os avanços
são lentos e sabotados por grupos terroristas interessados
em desestabilizar a transição. Embora tenham se livrado
de uma ditadura cruel, os iraquianos se mostram ressentidos por
ver uma força de ocupação estrangeira dar as
ordens no país. O projeto estratégico de Bush é
criar no Iraque uma democracia que sirva de exemplo para o Oriente
Médio. Já está claro que isso não poderá
ser imposto à ponta de fuzil.
Nos
Estados Unidos, o que se vê é o acirramento do debate
interno sobre a intervenção no Iraque. Os americanos
acreditam na democracia e atribuem o sucesso do país aos
valores que ela representa. Foi em nome da liberdade e da democracia
que os Estados Unidos lutaram na II Guerra e em todos os conflitos
em que estiveram envolvidos nos últimos cinqüenta anos.
Ocorre que, desde os anos 70, a opinião pública americana
recorre à televisão para se indagar se a causa nobre
compensa o preço a ser pago para defendê-la. A Guerra
do Vietnã não foi perdida nos campos de batalha do
Sudeste Asiático, mas pela oposição crescente
da opinião pública, que se fartou de ver seus filhos
abatidos numa selva do outro lado do mundo. Foram as imagens da
TV mostrando os soldados americanos mortos no campo de batalha ou
seus corpos embalados em sacos plásticos que tornaram a campanha
bélica politicamente insustentável.
Nos
anos 80, o presidente Ronald Reagan despachou tropas para o Líbano
para tentar impor uma solução militar à guerra
civil. Também saiu às pressas após um atentado
suicida contra o QG das tropas americanas em Beirute, em 1983, que
matou 241 soldados. Depois do desastre de Mogadíscio, o Pentágono
alterou sua doutrina militar. A nova ordem é só entrar
em batalha com esmagadora supremacia aérea para evitar expor
a vida da infantaria. Deu certo nos Bálcãs e também
no Iraque. O problema é que depois da vitória sobre
Saddam Hussein foi preciso ocupar o Iraque. Tomando posições
fixas e circulando por rotas conhecidas, as tropas ficam vulneráveis
aos ataques dos remanescentes das forças de Saddam Hussein
e dos terroristas estrangeiros infiltrados no país. Será
que a opinião pública americana suportará por
muito tempo imagens como as de Falluja?
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