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História
As
memórias de FHC
A
luta pela redemocratização do Brasil
e
as lições aprendidas no exercício do
poder são temas do livro que o
ex-presidente
está escrevendo
Desde que deixou a Presidência da República, em janeiro
de 2003, Fernando Henrique Cardoso burila idéias para três
livros, juntamente com o editor Sérgio Machado, que comanda
o grupo editorial Record. Um livro deve falar sobre política
internacional. Um segundo deve retomar conceitos da teoria da dependência,
desenvolvida pelo sociólogo FHC no fim da década de
60, no contexto da globalização. O projeto mais avançado,
contudo, é de uma obra que reunirá relatos sobre os
bastidores da política brasileira nas duas últimas
décadas e reflexões sobre o exercício do poder
e da liderança. Fernando Henrique Cardoso já redigiu
a introdução e o primeiro capítulo desse "manual
de política prática". Leia a seguir trechos da introdução,
que VEJA reproduz com exclusividade.
Claudio Rossi
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| Fernando
Henrique: "Vale a boutade de dizer que sou mais inteligente
do que vaidoso" |
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Hesitei em escrever a respeito do Brasil contemporâneo. Primeiro,
porque talvez se espere de um ex-presidente um livro de memórias,
e eu sempre tive implicância com a idéia de escrever
autobiografias e coisas assemelhadas. Não falta quem diga
que sou vaidoso. Imagine-se o que diriam se me dedicasse (prematuramente)
a escrever uma autobiografia... Pelo menos neste caso, valha a boutade,
que já me deu tanto trabalho, de dizer que sou mais inteligente
do que vaidoso. E afasta de mim esse cálice.
Houve
um momento, é verdade, em que tive vontade de ser um pouco
mais memorialista do que sociólogo. Gravei impressões
quase todos os dias em que exerci a Presidência. Quando o
cansaço impedia o exercício diário desse registro,
recordava dois ou três dias depois minhas observações
e sensações. Devo à cientista política
Celina Vargas do Amaral Peixoto, neta de Getúlio Vargas,
a sugestão de fazê-lo. No início do governo,
junto com uma página fotocopiada do diário de seu
avô, até então inédito, ela me deu um
caderno para eu fazer anotações. Logo percebi que
seria mais prático ditar a um gravador as impressões
do que escrevê-las com minha letra de médico, difícil
de decifrar. Não tenho mais, por outro lado, a disponibilidade
de tempo para fazer uma análise aprofundada e bem documentada
do processo político e das transformações econômicas,
sociais e culturais pelas quais o Brasil tem passado nestes últimos
vinte anos. Refiro-me tanto ao tempo real (as pressões do
dia-a-dia do mundo contemporâneo e as específicas de
um ex-presidente) quanto ao imaginário. Ulysses Guimarães
repetia sempre que o tempo não perdoa quem não sabe
trabalhar com ele. Por isso, tomei uma decisão prática.
Deixarei as gravações para ser analisadas mais tarde,
por quem possa interessar-se em ver como são distintas as
sensações do momento, vividas por quem está
exercendo o governo, e aquilo que realmente acontece. Isso não
quer dizer que deixarei de consultar esses registros. Mas não
o farei sistematicamente.
Sonhei
que, deixando a Presidência, teria o vagar para voltar aos
arquivos do Congresso, às atas de reuniões, enfim,
à documentação necessária para imitar,
guardadas as proporções e sem a pretensão de
comparar, o que Joaquim Nabuco fez com seu pai em Um Estadista
do Império. Para isso seria preciso ser Nabuco e ter
havido de verdade um estadista na República. Quando se acorda
do sonho, a realidade é bem outra. Bastou reler os jornais
do período de preparação do Plano Real e mergulhar
em algumas entrevistas com os meus colaboradores da época
para perceber que não seria possível um estadista
onde o Estado era uma quase-ruína. Se algo fizemos durante
os últimos dez anos não apenas eu, mas dezenas
de pessoas, anônimas umas, notórias outras e algumas
notáveis , foi reconstruir a máquina administrativa,
dar mais consistência às políticas públicas,
enfim refazer o Estado, sempre no contexto de uma sociedade que
se democratiza e quer voltar aos valores republicanos. Por ironia,
o cantochão contra mim e contra o governo quase sempre foi
o de que éramos "neoliberais", queríamos privatizar
tudo, minimizar o Estado e servir ao capital. O tempora! O mores!
Cansei
de ler que "desde pequenininho" eu queria ser presidente... se não
pudesse ser papa. A verdade é que passei boa parte da vida
na universidade. Aos 37 anos era professor catedrático de
ciências políticas da USP, tendo feito antes, na própria
USP, as teses de mestrado, doutorado e livre-docência em sociologia.
Também havia sido diretor adjunto de um dos principais institutos
da Comissão Econômica para a América Latina
e o Caribe (Cepal) e professor de sociologia na Universidade de
Paris, em Nanterre. Não teria tido tempo para cogitar qualquer
outra coisa fora da vida intelectual. A insensatez do regime autoritário
me levou a sair do Brasil em 1964. Depois de haver obtido um habeas-corpus
no Superior Tribunal Militar para cancelar uma ordem de prisão
e ter ganho, em 1968, um concurso de cátedra, foi de novo
o regime autoritário que me aposentou pelo AI-5, e, paradoxalmente,
me trouxe à vida política. Nos anos 70, ajudei a fundar
o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e
fiz pregação contínua em favor da democracia.
Escrevi em todo jornal de oposição que pude. Participei
de inúmeros atos públicos, principalmente da Sociedade
Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Ajudei
com um punhado de professores marginalizados pelo regime
o MDB a fazer seu programa de campanha em 1974. Disso decorreu que,
em 1977, fui proposto, por um grupo de intelectuais de esquerda,
para ser candidato ao Senado pelo MDB paulista. Fiquei em segundo
lugar na legenda, sendo eleito o senador Franco Montoro. O curioso
é que eu, quando me inscrevi como candidato, não sabia
que isso, pelas regras da época, fazia de mim o suplente
de Montoro. Daí por diante ganhei um lugar ao sol na política.
Fui para o Senado em 1983. Antes da campanha estava lecionando em
Berkeley, no departamento de sociologia. Quase ao final do período
letivo o diretor do departamento, professor Robert Bellah, especialista
em sociologia das religiões, convidou-me para tomar chá.
Para minha surpresa ofereceu-me um posto permanente em Berkeley
para substituir ninguém menos do que Jürgen Habermas,
autor de uma das mais sólidas obras filosóficas da
segunda metade do século XX, que voltava para a Alemanha.
Envaidecido pelo convite, mas encabulado pela desproporção
intelectual entre quem partia e quem era convidado para permanecer,
respondi: "Só se o senhor me oferecer também uma cadeira
no Senado americano, porque sou suplente de um senador que deverá
ganhar as eleições para o governo de São Paulo".
Conto isso pelo pitoresco e também para reiterar o papel
do acaso, da fortuna: tornei-me senador sem jamais haver tido esse
propósito seriamente.
Mais
tarde, em 1985, concorri à prefeitura de São Paulo.
Perdi por poucos votos (cerca de 2%). Há várias especulações
sobre as razões da derrota e uma só verdade: não
fui capaz de convencer o povo de que seria bom prefeito. Não
é certo que tenha dito na TV que era ateu e que isso me teria
levado à derrota. O jornal Folha de S. Paulo me fez
a pergunta que lhe pareceu oportuna sobre minhas convicções
religiosas. Respondi que isso é questão de foro íntimo,
sem utilidade para avaliar o desempenho de um prefeito. Inútil:
no dia seguinte a cidade estava cheia de panfletos contra o "ateu".
Pior, os adversários utilizaram uma entrevista que eu havia
dado alguns anos antes e, deturpando o sentido das respostas, difundiram
que eu era fumador de maconha. Minha ingenuidade política
era tamanha que não percebi quão devastador era o
boato. Parecia-me tão descabido alguém acreditar que
fosse verdade (eu tenho horror a cigarros, nunca fumei) que não
acreditei que a história "pegasse". Pois pegou. E teve efeito
mais devastador do que o ateísmo. Política, principalmente
eleitoral, é assim mesmo. Há momentos em que vale
tudo e nos quais se acredita em qualquer coisa. A outra "explicação"
da derrota tem a ver com uma foto publicada em um jornal no dia
das eleições, na qual apareço sentado na cadeira
de prefeito, antes da hora. A foto prova que eu merecia perder
por ingenuidade. Fiz um acordo com os repórteres de uma revista
para tirar várias fotos para o caso de vitória, pois
as eleições estavam muito apertadas. Um fotógrafo
de outra publicação viu a cena, clicou e "deu o furo".
Vanitas vanitatum? Não, mais grave: despreparo para
a aspereza da luta política. Pedágio pago por um professor
catapultado à arena cheia de feras.
Os
primeiros dias depois da derrota foram amargos. Eu estava por baixo.
Hélio Jaguaribe, fiel amigo e intelectual generoso, procurou-me
em 1986 pedindo que não me afastasse da política nem
concorresse ao Senado, pelas poucas chances de vitória, mas
à Câmara. Concordei com ele, até que se publicaram
as primeiras pesquisas eleitorais. Mário Covas e eu éramos
imbatíveis para o Senado. O eleitorado é assim mesmo,
pratica uma espécie de "justiça distributiva": quem
perde hoje, se não se desmoralizar, tem boa chance de ganhar
amanhã. Não por acaso os políticos profissionais
são sempre candidatos a alguma coisa. Ganhar é melhor,
mas perder não chega a ser uma tragédia. E a derrota
deve ser assumida plenamente pelo candidato derrotado. De nada adianta
buscar culpados nem guardar ressentimentos e menos ainda discutir
lealdades. O melhor cimento para elas é a vitória.
Foi o que fiz. Agradeci a todos, inclusive aos que não me
apoiaram no PMDB, e assumi a derrota. E se eu tivesse ganhado a
prefeitura, teria sido presidente? Impossível responder,
mas a chance seria pequena, até porque há um descasamento
entre o final do mandato dos prefeitos e o início dos mandatos
de governadores e presidentes.
Orlando Brito
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| Itamar
Franco: "Você acha que eu sou burro?" |
Minhas relações com Itamar Franco são um capítulo
à parte. Conhecemo-nos no Senado. O senador Itamar fazia
oposição cerrada e bizarra. Era nacionalista extremado
e contendor permanente na política mineira. Nossas relações
eram de respeito e bom humor. Mas não tínhamos amizade
pessoal. Itamar Franco surpreendeu a todos quando surgiu como candidato
a vice-presidente na chapa de Fernando Collor. Recordo que Mário
Covas e eu fomos a Belo Horizonte e nos encontramos com Itamar no
avião. Os dois acreditávamos que ele apoiaria o PSDB.
Foi a Minas firmar sua candidatura no partido de Collor, o PRN.
Na
antevéspera da aceitação do impeachment de
Collor pela Câmara, fui procurado pelo senador Jutahy Magalhães,
este sim amigo de Itamar. O vice-presidente queria falar comigo.
Fui ter com ele no anexo do Palácio do Planalto, gabinete
do vice-presidente. A seu modo matreiro, perguntou-me o que acreditava
que ia acontecer. Eu tivera uma reunião a dois com o senador
José Sarney, na sala dos arquivos do Senado, para que não
fôssemos vistos. Sarney sempre mencionava o "Sacro Colégio
dos Cardeais", ou seja, um grupo de políticos de vários
partidos que, por sua experiência e responsabilidade, tinham
uma visão institucional. Na hora das crises é a esses
que se deve apelar. Nas nossas avaliações, nada mais
sustentava o governo Collor, dados os escândalos. Eu não
estive na primeira linha do impeachment até ler a entrevista
a VEJA em que o irmão do presidente, Pedro Collor, devassava
os bastidores do governo. Temia as conseqüências institucionais
da deposição de um presidente. Mas àquela altura
não havia mais condições morais para sustentar
outro caminho. Sarney era da mesma opinião, até mais
veemente. Tinha informações sobre a reação
neutra das Forças Armadas. Estas seguiriam
a Constituição. Relatei tudo isso a Itamar, que me
perguntou: "E seus amigos em São Paulo?". Nem sei bem a quem
ele se referia, mas o fato é que São Paulo parecia
ser para Itamar uma espécie de buraco negro. Disse-lhe que
havia desconfianças quanto à linha que ele adotaria,
que o tinham em geral como ultranacionalista e "atrasado". De rompante,
perguntou-me: "Você acha que eu sou burro?". "Claro que não.
Mas teimoso você é, e muito", respondi. Assegurou-me
que teria um comportamento responsável e autorizou-me, depois
que eu sugeri, a dar uma entrevista dizendo isso. Foi o que fiz,
em O Estado de S. Paulo. A partir desse dia, até o
final de seu governo, Itamar Franco manteve as melhores relações
comigo. Tornamo-nos amigos. Um certo dia, quando conversávamos
sobre o futuro ministério, na cozinha do meu apartamento,
tomando café, Itamar me perguntou se eu aceitava ser ministro
das Relações Exteriores. Disse-lhe, como de praxe,
que isso não era necessário, mas que, se ele assim
desejasse, eu aceitaria. E fiquei bem contente com o cargo.
As
conversas decisivas sobre a formação do ministério
que deveria ser de "união nacional", salvo o PT, que
não aceitou participar foram na casa do então
senador Maurício Corrêa. A última foi no gabinete
da Vice-Presidência, no dia 7 de setembro de 1992, pouco antes
do afastamento de Collor por resolução da Câmara.
Afastamento ainda provisório, até que o Senado julgasse
o impeachment, o que só ocorreu em dezembro. Essa reunião
foi dramática. Faltava escolher o ministro da Fazenda. O
PMDB paulista, Orestes Quércia à frente, indicaria
um nome, mas o dia passava e nada de chegar a indicação.
Nesse dia notei qualquer coisa de estranho no semblante dos ministros
da Aeronáutica e da Marinha, com os quais cruzara nos corredores.
Ao anoitecer, sem acordo quanto à pasta da Fazenda, o futuro
presidente pediu que ficássemos com ele se não
me falha a memória, seu futuro líder no Senado, Pedro
Simon, e os senadores Maurício Corrêa, Alexandre Costa,
Jutahy Magalhães, eu, e possivelmente Henrique Hargreaves.
Passou-me uma nota que recebera do gabinete do presidente Collor
e pediu-me que a lesse para todos. Tratava-se de uma requisição
de forças de segurança para o presidente durante o
período de seu afastamento. Diante disso, Itamar nos comunicou
que havia afastado todos os ministros militares e que nomearia outros,
de sua confiança. Acreditava que o pedido de Collor revelava
uma disposição de resistir a um eventual impeachment.
Isso explicou o comportamento dos militares com os quais eu havia
cruzado. Tinham sido informados de que seriam substituídos.
Houve forte constrangimento, principalmente por parte do senador
Simon, que manifestou seu desagrado pela decisão. Itamar
foi taxativo: é assim que eu atuo, e ponto final. E é
isso mesmo. Quem imagina que Itamar Franco é ingênuo
ou não dispõe de "vontade política", engana-se.
Se nem sempre o rumo que ele persegue é claro para os demais,
e parece ziguezagueante, é porque essa é sua prática
política. É inegável que tem faro, embora a
lógica do comportamento esteja longe de ser cartesiana. À
noite informou-nos o nome do ministro da Fazenda: Gustavo Krause,
que ninguém esperava.
A
grande causa da minha geração não foi a da
estabilização da economia. Tampouco a do desenvolvimento
econômico. Foi a da democracia. Por isso, para mim, nossa
história contemporânea começa com as lutas dos
anos 70 pela volta à democracia. O cerco ao regime autoritário,
sua transformação interna e o redescobrimento dos
canais partidários que deixariam de ser a "oposição
consentida", como diziam do MDB, para ser a oposição
de verdade, marcaram a antecâmara de um novo Brasil. Mas o
marco mesmo de tudo isso foi a Assembléia Nacional Constituinte,
convocada com as eleições de 1986.
João Ramid
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| Ulysses
Guimarães: "A democracia hoje é patrimônio de todos os brasileiros"
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Ulysses Guimarães foi o gigante da Assembléia. O presidente
Sarney custou a convocá-la. Foi Pimenta da Veiga, na época
líder do PMDB na Câmara, quem mais insistiu. Eu era
líder do governo no Congresso, invenção de
Montoro e de Tancredo para darem a mim um lugar ao sol do poder.
Aquela Assembléia caótica era a expressão do
Brasil popular gerado, nas décadas anteriores, pelo e contra
o regime autoritário. Pelo regime, porque havia o "milagre
econômico", com mais urbanização, mais migração
interna, mais diferenciação de classes. Contra, porque
as novas classes, desde o fim dos anos 70, começaram a mobilizar-se
e não encontravam mais posições no mercado
e na sociedade, com o início da inflação mais
forte e a perda do dinamismo econômico.
Ulysses
Guimarães designou-me para ser o relator do regimento interno
da Assembléia Constituinte. Pedi ajuda ao deputado Nelson
Jobim, então porta-voz da OAB em matéria constitucional.
Os constituintes recusavam partir de um texto elaborado fora da
Assembléia. O anteprojeto da Comissão Arinos (que
Tancredo imaginara que pudesse organizar o debate, com Afonso Arinos
presidindo-a, tendo-me como relator) era desdenhado pelos parlamentares.
Até um famoso jurista de oposição, Fábio
Konder Comparato, fez um anteprojeto, para pasmo de muitos, fortemente
corporativo, com laivos ingenuamente autoritários, propondo
um planejamento central. O regimento que nós apresentamos
e que acabou prevalecendo tentava apenas pôr
ordem nos procedimentos. E predefiniu a divisão de capítulos
da Constituição, tal como até hoje se mantém.
Foi recebido, entretanto, como se fosse uma "rolha". Cada parlamentar
sentia-se no direito e no dever de participar de tudo e tudo fazer.
Recordei-me muito, naqueles dias, do meu tempo de Nanterre, da Revolução
de Maio de 1968, quando "era proibido proibir".
O
presidente Sarney, por seu lado, temia o que pudesse estar sendo
engendrado contra sua autoridade presidencial. A posição
dele não era fácil. Vice transformado em presidente
da República, ex-presidente da Arena, sustentado pelo seu
novo partido, o PMDB, com um ministério que não escolhera
e à sombra do prestígio de Ulysses Guimarães.
Um dia, chamou-me porque estava preocupado com um dispositivo do
regimento interno que dizia que a Constituinte poderia barrar decisões
do Executivo que ferissem sua vontade soberana. Via nisso um golpe
branco. Não era minha intenção. Queria apenas
reafirmar o óbvio: a Constituinte é soberana. Mas
não visava ao casuísmo. O dispositivo permaneceu,
e não foi usado para manobras menores.
Com
esse clima de incertezas, a Constituinte foi um grande momento da
vida política nacional. É certo que a Constituição
votada veio a destempo: era estatizante e corporativa, e isso às
vésperas da queda do Muro de Berlim e das viradas anticorporativistas
de parte das esquerdas mundiais. É certo, como diziam o presidente
Sarney e seu ministro Mailson da Nóbrega, que o sistema tributário
sufocaria a União (só não a sufocou porque
esta passou a usar as "contribuições sociais" como
válvula de escape). Mas, sobre tudo isso, é mais certo
ainda que razão tinha Ulysses: é uma "Constituição
Cidadã".
A
ampla liberdade partidária, a independência do Ministério
Público (por mais dor de cabeça que causem os abusos
de alguns procuradores), o novo papel do Supremo Tribunal Federal,
a extensão a novos atores políticos do direito de
argüir a inconstitucionalidade de leis, as liberdades civis,
a aspiração à maior igualdade de gênero,
de classe e de raça todos esses constituem marcos
bem fincados na prática de nossa sociedade. E dizer que a
oposição da época, principalmente o PT (que
não aprovou o texto final), a considerava uma Carta burguesa!
Ainda bem que, pela própria dinâmica da sociedade,
agora ancorada na Lei Suprema, tudo isso mudou muito e a prática
democrática, se não é vigente a toda hora e
em toda parte no Brasil, é certamente um valor que tem apoio
na Constituição e nas aspirações do
povo. Voltarei ao tema neste livro. Mas não queria começá-lo
sem reafirmar que a construção das instituições
democráticas é a verdadeira marca do novo Brasil.
Foi dentro desse quadro, com absoluto respeito à Constituição
(também para alterá-la), que abracei a outra causa
que será analisada nos próximos capítulos,
a da estabilização da moeda. E foi com o mesmo amor
à democracia que presidi o Brasil no momento em que se fez
a transição entre um governo e outro, formado a partir
de um partido que guerreava sem quartel tudo o que meu governo propôs.
Transição entre partidos no poder, mas não
entre regimes. A solidez da democracia brasileira cuidará
de colocar limite aos devaneios de recém-vindos ao poder,
se for necessário. Mas não será: a democracia
hoje é patrimônio de todos os brasileiros.
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