Edição 1848 . 7 de abril de 2004

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Odontologia
Risadas no dentista

Sim, isso é possível, graças ao uso do gás
hilariante nos tratamentos dentários


Giuliana Bergamo

Claudio Rossi
Faccio, no dentista: vai um gás aí?
Nova seção de VEJA Saúde: Odontologia


Uma boa nova para quem treme só de pensar em sentar na cadeira do dentista. Nos últimos quatro anos, aumentou em dez vezes o número de odontologistas que recorrem ao gás hilariante nos tratamentos. Feito à base de uma substância chamada óxido nitroso, o gás serve para diminuir a ansiedade e a tensão dos clientes mais medrosos. A procura por ele tem sido tão grande que o Conselho Federal de Odontologia decidiu normatizar o uso do gás hilariante no Brasil. Na prática, isso significa que, além do estabelecimento de regras sobre como e quando utilizá-lo, serão criados cursos para habilitar os dentistas a empregar o gás em seus consultórios. Os cerca de 1.000 profissionais que hoje recorrem ao gás para tranqüilizar seus pacientes foram habilitados fora do país, sobretudo nos Estados Unidos. Lá, a prática é regulamentada desde a década de 50.

Na semana passada, o estudante Leonardo Ferrari Faccio, de 23 anos, experimentou pela primeira vez o gás hilariante. Ele foi ao dentista para tratar uma cárie superficial. Tradicionalmente, esse tipo de intervenção não exige o uso de anestesia, mas causa um certo desconforto no paciente. O tratamento de Faccio durou aproximadamente meia hora. Ao final, o estudante estava impressionado. "Fiquei tão relaxado que parece não ter passado mais do que dez minutos", diz ele. Ainda não se decifrou por completo o mecanismo de ação do gás (veja quadro), mas é fato que ele diminui a tensão, altera a noção de espaço e de tempo e aumenta a resistência à dor, embora não substitua a anestesia. O gás hilariante é contra-indicado para pacientes com problemas pulmonares e desvio de septo nasal – duas condições que dificultam a inalação do gás.

Ao sentar na cadeira do dentista, o paciente recebe uma máscara sobre o nariz. Antes do início do tratamento, ele inala o gás por quatro minutos. Ao longo desse tempo, o especialista vai aumentando aos poucos a dose, enquanto pergunta ao paciente se ele está mais calmo e se a sua sensibilidade à dor diminuiu. Ao perceber que o paciente está sedado, o dentista inicia o procedimento. Uma das grandes vantagens do gás hilariante é que, ao contrário de outros sedativos, ao final do tratamento, todas as sensações voltam ao normal. A única complicação para o paciente é conter o riso enquanto mantém a boca aberta.

O uso da substância pelos dentistas data de 1844. O pioneiro foi o americano Horace Wells. Até então, o gás hilariante era utilizado principalmente em circos – os artistas o inalavam e o ofereciam à platéia. Durante uma apresentação, Wells notou que um dos malabaristas conseguia se apresentar com um sorriso estampado no rosto, apesar do corte profundo que tinha numa das pernas. Ele associou a aparente ausência de dor ao gás e resolveu experimentá-lo. Pediu que um de seus assistentes lhe arrancasse um molar. Wells não sentiu dor nenhuma. Mas seu final não teve nada de hilariante. Acusado de charlatanismo, o americano se suicidou. Só muitos anos depois foi reconhecido como um dos pioneiros da anestesia.

 

 
 
 
 
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