Edição 1848 . 7 de abril de 2004

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Polícia
O Big Brother é inglês

Milhões de câmeras de segurança
não reduzem a criminalidade no
país mais vigiado do mundo

 
AP
Nos monitores, a visita de Bush a Londres, em 2003: cidade sob observação

Os ingleses são, de longe, o povo mais observado que existe. Um levantamento divulgado recentemente por grupos preocupados com a privacidade dos cidadãos constatou que o número de câmeras de vigilância instaladas nas ruas e em locais fechados da ilha passa de 4 milhões. O mesmo informe registra que há perto de 50 milhões de aparelhos desse tipo no mundo. A Inglaterra abriga, portanto, quase 10% das câmeras de vigilância do planeta, uma para cada catorze habitantes. Uma pergunta óbvia é se com isso as cidades inglesas estão ou não mais seguras. Um relatório do governo inglês concluiu que vigiar eletronicamente as ruas é eficaz na prevenção de delitos menores, como infração de trânsito, roubo de veículos e depredação do patrimônio. Não funciona tão bem em crimes graves, como assalto a mão armada e seqüestro. Uma câmera pode até ajudar a identificar seu autor, mas quase sempre só depois que ele agiu. De acordo com o relatório, a adoção de outras medidas preventivas, como o aumento do policiamento ostensivo e a melhoria da iluminação de ruas e avenidas, seria mais útil no combate à criminalidade. Essa certeza foi reforçada por uma pesquisa recente da Universidade Leicester com criminosos detidos. A maioria afirmou nunca ter se preocupado com as câmeras, até ser flagrada por uma delas.

A falsa sensação de segurança que esse tipo de tecnologia oferece é um dos argumentos usados pelos ativistas que lutam para pôr freio na disseminação de seu uso. "O montante investido nos últimos dez anos pelo governo inglês em câmeras de vigilância (o equivalente a 1,3 bilhão de reais) poderia ser mais bem utilizado na área de segurança pública, e sem invadir a privacidade dos cidadãos", disse a VEJA Simon Davies, diretor da Privacy International, organização não-governamental com sede em Londres que defende o direito à privacidade. Segundo Davies, as câmeras instaladas nas ruas violam um direito elementar dos cidadãos nas sociedades democráticas, o da presunção de inocência.

O boom do Big Brother inglês teve início em 1992, quando as câmeras de vigilância de um shopping center de Liverpool registraram o seqüestro de um menino de 2 anos. Ele morreu dias depois, mas seus seqüestradores foram identificados graças às imagens das câmeras. Desde então, a onda de bisbilhotice eletrônica atingiu supermercados, restaurantes, bancos e até igrejas. A legislação inglesa, mais frouxa nesse assunto que a de outros países europeus, contribuiu para a expansão dessa prática. Como no Brasil, não há restrição ao uso de vigilância eletrônica em estabelecimentos privados. A lei inglesa determina apenas que uma placa indique o monitoramento do local por câmera. Mesmo assim, 80% dos estabelecimentos ignoram a exigência.

 
 
 
 
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