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Saúde
Faça
o que eu digo...
Quando
o assunto é alimentação,
médicos não seguem as próprias
recomendações

Bel
Moherdaui
Fotos Carol Quintanilha
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| Lanchinho
no simpósio de endocrinologistas: 800 calorias durante
a palestra |
O paciente chega ao consultório um pouco acima do peso e
ouve o conhecido sermão: equilibrar os diferentes grupos
alimentares, comer de três em três horas, mastigar bem,
evitar frituras, doces e refrigerantes, fazer no jantar uma refeição
mais leve. E, claro, contentar-se com aquela miséria de calorias
diárias. Os mais crédulos supõem que do outro
lado da escrivaninha essas regras, prescritas com tanta firmeza,
sejam seguidas sem pestanejar. Quem sempre teve uma certa desconfiança
agora verá suas suspeitas confirmadas. Os médicos
sabem muito bem como deve ser uma alimentação saudável,
mas, na hora de encher a própria barriga, muitos burlam todas
as normas que recomendam. "É aquela coisa: faça o
que eu digo, não faça o que eu faço. A filosofia
é uma, mas a prática costuma ser muito diferente",
constata o endocrinologista Giuseppe Repetto, presidente da Associação
Brasileira para o Estudo da Obesidade.
O
fenômeno é universal. Uma pesquisa liderada pelo endocrinologista
John La Puma, do Institute for Medical Nutrition and Healthy Weight
de Santa Bárbara, Califórnia, confirmou que os médicos
americanos consomem alimentos cheios de açúcar, gordurosos
e calóricos, principalmente nos congressos, que freqüentam
várias vezes ao ano. Os pesquisadores entrevistaram organizadores
de congressos de treze especialidades, com participação
total de mais de 250.000 médicos e preparo de 2 milhões
de refeições e lanches. Dos entrevistados, 61,5% declararam
ser os preceitos nutricionais "muito importantes" para os
outros. Todos os jantares e almoços incluíam sobremesa
altamente calórica. Refrigerantes, doces e salgadinhos eram
regra nos lanches. VEJA acompanhou dois congressos médicos
em São Paulo no último mês e concluiu que aqui
a história não é muito diferente.
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A
médica Elizabeth se serve de pão de queijo: fartura
de canapés, bebidas e doces (como a torre de carolinas,
abaixo) no congresso de quem vive prescrevendo uma alimentação
saudável |
Claudio Rossi
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Carol Quintanilha
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Em
um encontro de endocrinologistas aqueles médicos que
cuidam, entre outras coisas, da dieta dos pacientes , o coffee
break incluía bandejadas de pães de queijo, croissants
e bolos. "É muito salgadinho e cafezinho. Já sei que
no terceiro dia não vou mais agüentar ver pão
de queijo na minha frente", comentou a endocrinologista Elizabeth
Baccili, de Campinas, que garante seguir uma dieta saudável
no dia-a-dia que é confirmada pela silhueta esguia.
"A gente desaconselha totalmente esse tipo de alimentação
de congresso para os nossos pacientes", diz ela. Acabado o intervalo,
Elizabeth e seus colegas foram encaminhados para uma palestra. Antes
de entrar, cada um ganhou seu lunch box uma caixinha
contendo suco, sanduíche de queijo com peito de peru, uma
empadinha, biscoitos, um queijinho, um bombom e uma bala, num total
de 800 calorias para ser consumido ali mesmo, na palestra
sobre um novo remédio para combater o excesso de prolactina
no corpo. No mesmo dia, em outra reunião dos homens de branco,
500 cirurgiões plásticos almoçavam um PF de
luxo composto de medalhão de filé com molho de champignon,
arroz com ervilhas, salada de maionese (isso mesmo, a execrada maionese)
com salmão e alface. De sobremesa, musse de framboesa com
calda vermelha. "De modo geral, os médicos comem mal. Acho
que principalmente por falta de tempo. Quando a gente opera, fica
até dez horas em cirurgia. Se fosse seguir a orientação
da nutricionista e comer de três em três horas, teria
de esterilizar o sanduíche", brinca a cirurgiã Renata
Rita Oliveira Fernandes, que pulou os salgados e mergulhou direto
na sobremesa "Acabei de tomar café", avisou.
Na
noite seguinte, os cirurgiões plásticos foram brindados
com um elegante (e calórico) jantar no restaurante O Leopolldo.
"Eles não pedem comida mais light nem bebem menos por ser
médicos. Na verdade, até pediram duas opções
de sorvete, além da que a gente já oferece", entrega
Stella Franceschi, responsável pelo jantar. Fora os doces
(que incluíam uma montanha de carolinas recheadas de gianduia
e amêndoas), foram servidos cerca de 1.500 canapés,
30 quilos de filé, 20 quilos de peixe, 12 quilos de massa
e 6 quilos de risoto. "Os médicos não fazem o que
pregam. E, à noite, ainda jantam bastante e dormem em seguida",
conforma-se Rodrigo d'Eça Neves, que além de cirurgião
plástico é vice-diretor científico do Clube
do Gourmet de Florianópolis. Ou, em outras palavras, são
humanos.
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