Edição 1848 . 7 de abril de 2004

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Saúde
Faça o que eu digo...

Quando o assunto é alimentação,
médicos não seguem as próprias
recomendações


Bel Moherdaui

Fotos Carol Quintanilha
Lanchinho no simpósio de endocrinologistas: 800 calorias durante a palestra


O paciente chega ao consultório um pouco acima do peso e ouve o conhecido sermão: equilibrar os diferentes grupos alimentares, comer de três em três horas, mastigar bem, evitar frituras, doces e refrigerantes, fazer no jantar uma refeição mais leve. E, claro, contentar-se com aquela miséria de calorias diárias. Os mais crédulos supõem que do outro lado da escrivaninha essas regras, prescritas com tanta firmeza, sejam seguidas sem pestanejar. Quem sempre teve uma certa desconfiança agora verá suas suspeitas confirmadas. Os médicos sabem muito bem como deve ser uma alimentação saudável, mas, na hora de encher a própria barriga, muitos burlam todas as normas que recomendam. "É aquela coisa: faça o que eu digo, não faça o que eu faço. A filosofia é uma, mas a prática costuma ser muito diferente", constata o endocrinologista Giuseppe Repetto, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade.

O fenômeno é universal. Uma pesquisa liderada pelo endocrinologista John La Puma, do Institute for Medical Nutrition and Healthy Weight de Santa Bárbara, Califórnia, confirmou que os médicos americanos consomem alimentos cheios de açúcar, gordurosos e calóricos, principalmente nos congressos, que freqüentam várias vezes ao ano. Os pesquisadores entrevistaram organizadores de congressos de treze especialidades, com participação total de mais de 250.000 médicos e preparo de 2 milhões de refeições e lanches. Dos entrevistados, 61,5% declararam ser os preceitos nutricionais "muito importantes" – para os outros. Todos os jantares e almoços incluíam sobremesa altamente calórica. Refrigerantes, doces e salgadinhos eram regra nos lanches. VEJA acompanhou dois congressos médicos em São Paulo no último mês e concluiu que aqui a história não é muito diferente.

 
A médica Elizabeth se serve de pão de queijo: fartura de canapés, bebidas e doces (como a torre de carolinas, abaixo) no congresso de quem vive prescrevendo uma alimentação saudável
Claudio Rossi
Carol Quintanilha

Em um encontro de endocrinologistas – aqueles médicos que cuidam, entre outras coisas, da dieta dos pacientes –, o coffee break incluía bandejadas de pães de queijo, croissants e bolos. "É muito salgadinho e cafezinho. Já sei que no terceiro dia não vou mais agüentar ver pão de queijo na minha frente", comentou a endocrinologista Elizabeth Baccili, de Campinas, que garante seguir uma dieta saudável no dia-a-dia – que é confirmada pela silhueta esguia. "A gente desaconselha totalmente esse tipo de alimentação de congresso para os nossos pacientes", diz ela. Acabado o intervalo, Elizabeth e seus colegas foram encaminhados para uma palestra. Antes de entrar, cada um ganhou seu lunch box – uma caixinha contendo suco, sanduíche de queijo com peito de peru, uma empadinha, biscoitos, um queijinho, um bombom e uma bala, num total de 800 calorias – para ser consumido ali mesmo, na palestra sobre um novo remédio para combater o excesso de prolactina no corpo. No mesmo dia, em outra reunião dos homens de branco, 500 cirurgiões plásticos almoçavam um PF de luxo composto de medalhão de filé com molho de champignon, arroz com ervilhas, salada de maionese (isso mesmo, a execrada maionese) com salmão e alface. De sobremesa, musse de framboesa com calda vermelha. "De modo geral, os médicos comem mal. Acho que principalmente por falta de tempo. Quando a gente opera, fica até dez horas em cirurgia. Se fosse seguir a orientação da nutricionista e comer de três em três horas, teria de esterilizar o sanduíche", brinca a cirurgiã Renata Rita Oliveira Fernandes, que pulou os salgados e mergulhou direto na sobremesa – "Acabei de tomar café", avisou.

Na noite seguinte, os cirurgiões plásticos foram brindados com um elegante (e calórico) jantar no restaurante O Leopolldo. "Eles não pedem comida mais light nem bebem menos por ser médicos. Na verdade, até pediram duas opções de sorvete, além da que a gente já oferece", entrega Stella Franceschi, responsável pelo jantar. Fora os doces (que incluíam uma montanha de carolinas recheadas de gianduia e amêndoas), foram servidos cerca de 1.500 canapés, 30 quilos de filé, 20 quilos de peixe, 12 quilos de massa e 6 quilos de risoto. "Os médicos não fazem o que pregam. E, à noite, ainda jantam bastante e dormem em seguida", conforma-se Rodrigo d'Eça Neves, que além de cirurgião plástico é vice-diretor científico do Clube do Gourmet de Florianópolis. Ou, em outras palavras, são humanos.

 
 
 
 
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