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Golpe
de 64
O
olho dos EUA
no golpe de 64
Washington
sabia dos preparativos
e queria ajudar, mas não foi preciso
O
papel desempenhado pelos Estados Unidos no golpe militar que derrubou
o presidente João Goulart, em 1964, ainda é motivo
de polêmica. A versão mais aceita é a de que
o movimento foi produto 100% nacional, tendo o governo americano
como espectador disposto a dar uma mão aos golpistas caso
algo desse errado. Essa versão é reforçada
pela divulgação periódica pelo governo dos
Estados Unidos de documentos secretos de valor histórico,
depois de uma fase de quarentena. Uma nova leva de papéis
publicada na semana passada no site do National Security Archive
entidade de pesquisa e divulgação de documentos
secretos do governo americano , por ocasião dos quarenta
anos do golpe, acrescenta novos detalhes sobre a participação
americana no episódio. Gravações de conversas
do primeiro escalão do governo, inclusive do presidente Lyndon
Johnson, evidenciam que os acontecimentos no Brasil eram vistos
no contexto da Guerra Fria. Para Washington, o que estava em jogo
era o confronto global entre o comunismo soviético e a democracia.
Por essa razão, estava disposto a fazer o que fosse preciso
para ajudar o movimento que derrubou João Goulart.
O
material contém pelo menos três esclarecimentos. O
primeiro é que os agentes da CIA estavam tão bem informados
sobre a conspiração que puderam comunicar a seus chefes
que o levante era iminente. O segundo é que a embaixada americana
no Brasil recebia com freqüência pedidos de apoio de
grupos de conspiradores. Mas o embaixador Lincoln Gordon preferia
o do general Humberto Castello Branco, por considerá-lo o
grupo com maior liderança e comprometimento com a democracia.
O terceiro, revelação inédita, é que
o governo americano mandou preparar, no dia 1º de abril, um
avião carregado com armamentos para ser enviados aos militares
golpistas, caso ocorresse um conflito prolongado. O que, como se
sabe, não ocorreu, já que Jango preferiu não
resistir e fugiu para o exterior.
O
governo dos Estados Unidos tinha dois canais de informação
no Brasil. Um era a equipe de agentes da CIA instalada no país.
O outro, os relatórios enviados pelo embaixador Gordon, cujas
análises eram o resultado de conversas com políticos,
jornalistas, militares e empresários mais influentes. O papel
de maior destaque no trabalho de inteligência cabia ao adido
do Exército americano no Brasil, o coronel Vernon Walters.
O militar americano era muito amigo do general Humberto Castello
Branco, com quem dividiu uma barraca de campanha na Itália,
durante a II Guerra. Uma informação só revelada
na semana passada é que Arma, várias vezes citado
na correspondência diplomática como principal fonte
da conspiração, era o codinome de Walters. Ele estava
bem a par dos preparativos para o golpe, conforme mostra trecho
do documento de 27 de março: "Na próxima semana, nós
vamos ser informados da estimativa (feita pelos militares golpistas)
das armas necessárias, através do contato entre
Arma e o general (Ulhoa) Cintra, braço direito de
Castello Branco".
Em
entrevista a VEJA na semana passada, Gordon, hoje com 90 anos, explicou
a função de Walters. "Ele sabia que existia um movimento
liderado por Castello Branco e outros generais, mas não estava
participando dos planos do golpe", diz o ex-embaixador. A documentação
divulgada na semana passada confirma a disposição
do governo americano em não permitir o fracasso do golpe.
O trecho da conversa telefônica entre o presidente Lyndon
Johnson e o subsecretário de Estado George Ball, no dia 31
de março de 1964, é uma prova disso. "Eu acho que
devemos dar cada passo que pudermos, estar preparados para fazer
tudo o que for preciso", diz Johnson na gravação.
"Nós só não podemos ficar com esse daí",
diz, aparentemente referindo-se a João Goulart. "Mas as coisas
deram tão certo para os golpistas que, no fim, não
houve necessidade de os americanos auxiliarem diretamente no golpe",
diz o historiador Boris Fausto, da Universidade de São Paulo.
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CIA
ACERTA A DATA, MAS ERRA
NA RESISTÊNCIA
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A
embaixada e os consulados americanos no Brasil tinham
agentes da CIA, encarregados de levantar informações
sobre as atividades de comunistas e militares no país.
Em documento com data de 30 de março de 1964
(acima), um observador do serviço de inteligência
americano em Belo Horizonte prevê o golpe que
seria dado dois dias depois, acertando inclusive que
começaria em Minas Gerais. Em um dos trechos,
encontra-se a afirmação: "Uma revolução
feita por forças anti-Goulart definitivamente
acontecerá esta semana, provavelmente nos próximos
dias. Negociações de último minuto
estão sendo feitas agora envolvendo estados sob
controle de governadores democráticos". O erro
do informante foi imaginar que haveria grande derramamento
de sangue e que o desfecho do golpe seria demorado.
Ocorreu o contrário.
BALCÃO
DE RECLAMAÇÕES NA EMBAIXADA
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Os
militares e empresários que conspiravam contra
Jango tinham o hábito de pedir apoio aos americanos
para suas aspirações golpistas, revela
um relatório de Lincoln Gordon de 27 de março
de 1964. Entre eles, informa o embaixador americano,
só um tinha cacife para depor o presidente: "Ao
contrário dos muitos grupos golpistas anti-Goulart
que nos procuraram durante os últimos dois anos
e meio, o movimento de Castello Branco demonstra uma
perspectiva de amplo apoio e liderança competente".
Só agora se sabe quem é Arma, citado no
documento. Tratava-se do codinome de Vernon Walters,
adido militar americano e amigo de Castello Branco,
com quem dividira uma barraca na Itália, na II
Guerra.
UM
AVIÃO CARREGADO DE ARMAS
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No
dia 1º de abril de 1964, em encontro na Casa Branca,
o presidente americano Lyndon Johnson, ministros e a
chefia da CIA discutiram os acontecimentos no Brasil.
No memorando da reunião (acima) ficou
registrado: "As armas e munições estão
agora sendo reunidas para transporte aéreo em
Nova Jersey, e o vôo de emergência levaria
dezesseis horas a partir do momento da decisão".
Em mensagens aos superiores, o embaixador dos EUA no
Brasil, Lincoln Gordon, já havia transmitido
a necessidade de abastecer os golpistas com armas, caso
houvesse resistência. Mas nem Gordon soube do
avião com armamentos. "Esse é um detalhe
que eu desconhecia", disse Gordon a VEJA, na semana
passada. De qualquer forma, o avião não
decolou. É que o golpe havia sido um sucesso,
sem resistência dos legalistas. (O trecho em branco
no documento ao lado foi suprimido pelos americanos
antes de ser liberado.)
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