|
|
Partidos
PT:
o "P" é de propaganda
Isso
é que é união entre prática e teoria:
lavradores e intelectuais foram figurantes
em campanhas publicitárias petistas

Monica
Weinberg e Sandra Brasil
 |
 |
| Duda,
o marqueteiro de Lula, em ação: socióloga
emprestou seu nome para programa eleitoral (à esq.)
e lavradora contratada por 50 reais virou exemplo de "sucesso"
do projeto de incentivo à agricultura familiar |
 |
O hábito
petista de usar boas imagens para vender uma idéia nem sempre
tão boa assim sofreu um abalo na semana passada. O governo
foi obrigado a tirar do ar uma propaganda destinada a divulgar seu
programa de incentivo à agricultura familiar, depois que
se descobriu que o filme era um engodo. Idealizada pela agência
do marqueteiro Duda Mendonça, o mesmo que fez a campanha
de Lula, a peça mostrava uma bonita fazenda repleta de alfaces
recém-brotadas, em meio às quais laboriosos camponeses
trabalhavam contentes. Pois nem a fazenda era um exemplo de agricultura
familiar nem os lavradores eram pequenos lavradores beneficiados
pelo governo. A propriedade, pertencente a um empresário
dono de 1 milhão de metros quadrados de terra, não
passava de uma locação, e os trabalhadores, de figurantes
contratados por 50 reais. Em resumo: era tudo cenário. O
jornal Folha de S.Paulo revelou o truque.
Há
que se constatar que o engodo publicitário, embora não
seja invenção do PT, não é propriamente
novidade na sigla. Entre as ótimas idéias que o marqueteiro
de Lula teve na época da campanha eleitoral, estava a de
vincular o candidato a pesos-pesados da intelectualidade universitário-petista.
Uma das propagandas que levou ao ar mostrava Lula passeando por
um grande escritório onde luminares apareciam debruçados
sobre papéis, ou em meio ao que pareciam ser produtivas trocas
de idéias com seus pares. A peça servia para transmitir
três mensagens: 1) Lula, embora não tenha concluído
o ensino fundamental, contava com o respaldo de respeitável
parte da intelligentsia brasileira; 2) esse seleto grupo de notáveis
estava ajudando o candidato a elaborar seu programa de governo;
3) o PT tinha, portanto, um programa de governo. O que se vê
hoje é que apenas a primeira idéia correspondia integralmente
à verdade.
Parte
dos intelectuais ao lado dos quais Lula exibiu-se no horário
eleitoral não trabalhou concretamente em programa de governo
nenhum, como fez crer a propaganda petista. O filme que apresentava
os formuladores das propostas do PT para a área de educação,
por exemplo, incluía a socióloga Maria Victoria Benevides,
da USP -- exibida ao lado de suas credenciais acadêmicas.
Ocorre que, embora a professora tenha sido, sim, uma entusiasmada
colaboradora do PT, não trabalhou no tema da propaganda em
que aparece: "Não fiz parte da equipe da educação.
Ajudei apenas na discussão da reforma política", esclarece.
O crítico literário Antonio Candido aparece no mesmo
filme, como suposto formulador da política educacional. Tido
como um dos maiores intelectuais do Brasil, ele pode ter contribuído
com ótimas análises literárias para a campanha,
mas, na área de educação, tudo indica que só
fez emprestar sua grife para a propaganda de Duda. No documento
oficial em que o PT resume seu projeto para a área, o nome
de Candido não aparece nem uma vez. Por meio de sua assessoria,
o publicitário admite que pode ter havido "falhas".
O
sociólogo Francisco de Oliveira tem outra opinião:
"Houve oportunismo no uso da imagem dos intelectuais durante a campanha",
acusa. Ou seja, também eles, assim como os lavradores, foram
usados como figurantes. Oliveira deixou o partido no ano passado.
Quando Lula ocupava os palanques, encabeçava o time de sábios
que se reunia semanalmente em São Paulo, para discutir os
rumos da campanha petista. O grupo, que tinha como interlocutores
nomes do alto escalão do PT, como José Genoíno,
Luiz Gushiken, José Dirceu e o próprio Lula, ainda
existe, mas teve diminuída sua influência sobre o partido.
Dos dezesseis participantes mais ativos da fase da campanha, seis
ingressaram no governo; cinco estão afastados ou romperam
de vez com ele; e cinco continuam no barco petista, ainda que sem
o mesmo entusiasmo de antigamente. Dizem sentir-se alijados das
grandes discussões e reclamam do fato de não terem
trânsito em Brasília. "Os intelectuais ficaram de fora.
Estão perplexos e grunhindo pelos cantos", diz o filósofo
Leandro Konder, outro que rompeu com o governo. Ao lado do sociólogo
Francisco de Oliveira, ele planeja organizar uma dissidência.
Intelectuais
de esquerda, tanto quanto sindicalistas e representantes da Igreja,
estão no DNA do PT. A debandada de parte desse suporte constitutivo
só mostra quanto o Partido dos Trabalhadores mudou, em termos
ideológicos, após assumir o governo. Isso não
é necessariamente ruim, inclusive porque muitas dessas figuras
ilustres gostariam que o governo Lula seguisse à risca a
cartilha estatizante que encalacraria de vez o país. Até
o momento a política econômica continua a ser realista,
e o presidente jura que nada mudará nesse sentido. É
uma declaração tranqüilizadora, embora não
suficiente. Já passou da hora de aprofundar reformas que
permitam que se vá além da ortodoxia monetarista.
O problema não é não ouvir os intelectuais
do partido, ou a parcela que sobrou deles. A questão é
ter fingido que ouviu. E repita-se: fingir ter ouvido na elaboração
de um projeto de governo que jamais existiu. Sabe-se hoje que o
que o partido chamava de projeto não passava de um conjunto
de promessas tiradas provavelmente da cabeça de um publicitário.
Entre elas, a de gerar em quatro anos 10 milhões de empregos.
O
governo do PT, que até há pouco tempo se deliciava
com os benefícios da publicidade, precisa se dar conta que
marketing tem limite. Ao sucumbir à prática de dar
embalagem vistosa a produtos de sabor insosso ou até mesmo
falsos, esquece-se de que quem adquire a mercadoria, cedo ou tarde,
percebe o rabo de gato no corpo da falsa lebre. No caso do governo
petista, as últimas pesquisas mostram que a fila para devolução
do produto está crescendo.
|