Edição 1848 . 7 de abril de 2004

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Partidos
PT: o "P" é de propaganda

Isso é que é união entre prática e teoria: lavradores e intelectuais foram figurantes
em campanhas publicitárias petistas


Monica Weinberg e Sandra Brasil


Duda, o marqueteiro de Lula, em ação: socióloga emprestou seu nome para programa eleitoral (à esq.) e lavradora contratada por 50 reais virou exemplo de "sucesso" do projeto de incentivo à agricultura familiar

O hábito petista de usar boas imagens para vender uma idéia nem sempre tão boa assim sofreu um abalo na semana passada. O governo foi obrigado a tirar do ar uma propaganda destinada a divulgar seu programa de incentivo à agricultura familiar, depois que se descobriu que o filme era um engodo. Idealizada pela agência do marqueteiro Duda Mendonça, o mesmo que fez a campanha de Lula, a peça mostrava uma bonita fazenda repleta de alfaces recém-brotadas, em meio às quais laboriosos camponeses trabalhavam contentes. Pois nem a fazenda era um exemplo de agricultura familiar nem os lavradores eram pequenos lavradores beneficiados pelo governo. A propriedade, pertencente a um empresário dono de 1 milhão de metros quadrados de terra, não passava de uma locação, e os trabalhadores, de figurantes contratados por 50 reais. Em resumo: era tudo cenário. O jornal Folha de S.Paulo revelou o truque.

Há que se constatar que o engodo publicitário, embora não seja invenção do PT, não é propriamente novidade na sigla. Entre as ótimas idéias que o marqueteiro de Lula teve na época da campanha eleitoral, estava a de vincular o candidato a pesos-pesados da intelectualidade universitário-petista. Uma das propagandas que levou ao ar mostrava Lula passeando por um grande escritório onde luminares apareciam debruçados sobre papéis, ou em meio ao que pareciam ser produtivas trocas de idéias com seus pares. A peça servia para transmitir três mensagens: 1) Lula, embora não tenha concluído o ensino fundamental, contava com o respaldo de respeitável parte da intelligentsia brasileira; 2) esse seleto grupo de notáveis estava ajudando o candidato a elaborar seu programa de governo; 3) o PT tinha, portanto, um programa de governo. O que se vê hoje é que apenas a primeira idéia correspondia integralmente à verdade.

Parte dos intelectuais ao lado dos quais Lula exibiu-se no horário eleitoral não trabalhou concretamente em programa de governo nenhum, como fez crer a propaganda petista. O filme que apresentava os formuladores das propostas do PT para a área de educação, por exemplo, incluía a socióloga Maria Victoria Benevides, da USP -- exibida ao lado de suas credenciais acadêmicas. Ocorre que, embora a professora tenha sido, sim, uma entusiasmada colaboradora do PT, não trabalhou no tema da propaganda em que aparece: "Não fiz parte da equipe da educação. Ajudei apenas na discussão da reforma política", esclarece. O crítico literário Antonio Candido aparece no mesmo filme, como suposto formulador da política educacional. Tido como um dos maiores intelectuais do Brasil, ele pode ter contribuído com ótimas análises literárias para a campanha, mas, na área de educação, tudo indica que só fez emprestar sua grife para a propaganda de Duda. No documento oficial em que o PT resume seu projeto para a área, o nome de Candido não aparece nem uma vez. Por meio de sua assessoria, o publicitário admite que pode ter havido "falhas".

O sociólogo Francisco de Oliveira tem outra opinião: "Houve oportunismo no uso da imagem dos intelectuais durante a campanha", acusa. Ou seja, também eles, assim como os lavradores, foram usados como figurantes. Oliveira deixou o partido no ano passado. Quando Lula ocupava os palanques, encabeçava o time de sábios que se reunia semanalmente em São Paulo, para discutir os rumos da campanha petista. O grupo, que tinha como interlocutores nomes do alto escalão do PT, como José Genoíno, Luiz Gushiken, José Dirceu e o próprio Lula, ainda existe, mas teve diminuída sua influência sobre o partido. Dos dezesseis participantes mais ativos da fase da campanha, seis ingressaram no governo; cinco estão afastados ou romperam de vez com ele; e cinco continuam no barco petista, ainda que sem o mesmo entusiasmo de antigamente. Dizem sentir-se alijados das grandes discussões e reclamam do fato de não terem trânsito em Brasília. "Os intelectuais ficaram de fora. Estão perplexos e grunhindo pelos cantos", diz o filósofo Leandro Konder, outro que rompeu com o governo. Ao lado do sociólogo Francisco de Oliveira, ele planeja organizar uma dissidência.

Intelectuais de esquerda, tanto quanto sindicalistas e representantes da Igreja, estão no DNA do PT. A debandada de parte desse suporte constitutivo só mostra quanto o Partido dos Trabalhadores mudou, em termos ideológicos, após assumir o governo. Isso não é necessariamente ruim, inclusive porque muitas dessas figuras ilustres gostariam que o governo Lula seguisse à risca a cartilha estatizante que encalacraria de vez o país. Até o momento a política econômica continua a ser realista, e o presidente jura que nada mudará nesse sentido. É uma declaração tranqüilizadora, embora não suficiente. Já passou da hora de aprofundar reformas que permitam que se vá além da ortodoxia monetarista. O problema não é não ouvir os intelectuais do partido, ou a parcela que sobrou deles. A questão é ter fingido que ouviu. E repita-se: fingir ter ouvido na elaboração de um projeto de governo que jamais existiu. Sabe-se hoje que o que o partido chamava de projeto não passava de um conjunto de promessas tiradas provavelmente da cabeça de um publicitário. Entre elas, a de gerar em quatro anos 10 milhões de empregos.

O governo do PT, que até há pouco tempo se deliciava com os benefícios da publicidade, precisa se dar conta que marketing tem limite. Ao sucumbir à prática de dar embalagem vistosa a produtos de sabor insosso ou até mesmo falsos, esquece-se de que quem adquire a mercadoria, cedo ou tarde, percebe o rabo de gato no corpo da falsa lebre. No caso do governo petista, as últimas pesquisas mostram que a fila para devolução do produto está crescendo.

 
 
 
 
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