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Brasil
"Não
muda, não muda
e não muda"
O
presidente Lula se exaspera quando se
diz que ele ainda não foi suficientemente
claro sobre seu compromisso com
a política econômica austera

Eurípedes
Alcântara
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva está se recuperando
de um terçol na pálpebra direita. O pequeno abscesso
dá a seu rosto um aspecto extenuado. Lula garante que é
só aparência. Ele não se sente abatido. Está
conseguindo fazer caminhadas no Palácio da Alvorada e correr
na esteira quase todos os dias. O episódio Waldomiro Diniz,
garante Lula, não lhe roubou um minuto sequer de sono. "Sofri
pelo Zé Dirceu. Ele foi chamado de ladrão por ter
conhecido um ladrão. Não se pode acusar alguém
com base no comportamento de um amigo, de um conhecido, de um funcionário
e até de um parente." Para o presidente, José Dirceu
também sofreu mais do que devia "porque ele é honesto".
Lula acha que o clima político está dominado pela
proximidade das eleições municipais de outubro e que
a ebulição do momento faz com que qualquer notícia
ruim para o governo faça mais barulho do que seria normal
apenas por seu conteúdo substantivo. "Se você tomar
os números macroeconômicos, verá que as finanças
estão em ordem, que estamos diminuindo rapidamente as distorções
provocadas pelos gastos do Estado de uma maneira que nenhum outro
governo anterior conseguiu fazer em tão pouco tempo."
Lula
tem uma leitura própria do que os petistas chamam de "herança
maldita". Para o presidente, esse conceito não é subjetivo.
Ele é medido em bilhões. "Só para pagar as
compensações que o Fernando Henrique generosamente
deu aos anistiados do regime militar foram 4 bilhões de reais.
Em outras rubricas, a conta passa dos 40 bilhões de reais.
Ninguém fala sobre isso com a ênfase necessária",
diz Lula. O que mais exaspera o presidente nos dias que correm,
no entanto, são as interpretações que fazem
de sua posição em relação à política
econômica de austeridade conduzida por Antonio Palocci, seu
ministro da Fazenda. "Já disse publicamente com todas as
letras que o governo não fará nenhuma aventura econômica.
A política de austeridade não é do Palocci,
nem do Meirelles nem minha. Ela é do governo."
O
presidente revela que durante muitos meses ouviu de interlocutores
a proposta de mudar a política econômica. No começo,
conta ele, ouvia calado. De algum tempo para cá, toda vez
que alguém sugere mudar os rumos da economia, Lula encomenda
ao interlocutor um plano detalhado de quais são as mudanças,
como e quando elas devem ser feitas e quais os prós e os
contras das medidas propostas. Como era de prever, apareceram pouquíssimos
planos concretos de mudanças. O presidente diz que os planos
que lhe chegaram continham mais riscos potenciais do que soluções.
Diz Lula: "Uma das idéias sugeria deixar de controlar a inflação
com juros e usar alíquota zero de importação
para produtos cujos preços subissem muito. Ora, o risco que
se corre com isso é muito grande. O menor deles é
controlar a inflação à custa de acabar com
parte do parque industrial brasileiro". O presidente diz que está
consciente de que imprimir artificialmente um ritmo maior de crescimento
à economia seria um grande trunfo político para ele
e seu partido. "Mas, como ficou provado no passado recente, essa
alegria duraria pouco. Logo viriam o descontrole inflacionário
e a conta amarga para os setores mais pobres da população
pagarem. Por isso, nós, no governo, temos de ter a sabedoria
de entender que estamos fazendo a coisa certa e que, como resultado
disso, o crescimento sólido e sustentado virá no tempo
certo." Como no filme O Carteiro e o Poeta, em se tratando
de Lula, uma metáfora é infalível em qualquer
conversa: "A semeadura foi feita, e a colheita virá. Jogar
mais água do que o necessário, além de não
apressar o crescimento da planta, pode matá-la".
Se
alguém lembra ao presidente que sua mensagem de austeridade
fica enfraquecida sempre que um ministro, um chefe de partido aliado
ou um petista de alto escalão prega justamente o contrário,
ele rebate com o argumento de que atacou esse problema na raiz.
Lula diz que ficou acertado que os ministros podem divergir internamente
nas reuniões, mas devem evitar embates em público.
Lula garante que não teve nenhuma decepção
pesada nestes quinze meses de governo. Mas fez uma constatação.
A de que não é fácil apressar o ritmo de trabalho
da máquina governamental. "Governo não é só
o Executivo. Você toma uma decisão e ela pode emperrar
na Justiça ou no Ministério Público. Pode ser
contestada, e quando você vai ver meses depois as coisas não
saíram do lugar que estavam quando você achava que
estava tudo solucionado." Para tentar contornar a paralisia da máquina,
Lula decidiu fazer reuniões com a participação
de todo mundo que possa ter algo a dizer mais tarde e que atrase
as decisões. A essa técnica de reunião o presidente
chama de "transversalidade".
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