Edição 1848 . 7 de abril de 2004

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Brasil
"Não muda, não muda
e não muda"

O presidente Lula se exaspera quando se
diz que ele ainda não foi suficientemente
claro sobre seu compromisso com
a política econômica austera


Eurípedes Alcântara

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está se recuperando de um terçol na pálpebra direita. O pequeno abscesso dá a seu rosto um aspecto extenuado. Lula garante que é só aparência. Ele não se sente abatido. Está conseguindo fazer caminhadas no Palácio da Alvorada e correr na esteira quase todos os dias. O episódio Waldomiro Diniz, garante Lula, não lhe roubou um minuto sequer de sono. "Sofri pelo Zé Dirceu. Ele foi chamado de ladrão por ter conhecido um ladrão. Não se pode acusar alguém com base no comportamento de um amigo, de um conhecido, de um funcionário e até de um parente." Para o presidente, José Dirceu também sofreu mais do que devia "porque ele é honesto". Lula acha que o clima político está dominado pela proximidade das eleições municipais de outubro e que a ebulição do momento faz com que qualquer notícia ruim para o governo faça mais barulho do que seria normal apenas por seu conteúdo substantivo. "Se você tomar os números macroeconômicos, verá que as finanças estão em ordem, que estamos diminuindo rapidamente as distorções provocadas pelos gastos do Estado de uma maneira que nenhum outro governo anterior conseguiu fazer em tão pouco tempo."

Lula tem uma leitura própria do que os petistas chamam de "herança maldita". Para o presidente, esse conceito não é subjetivo. Ele é medido em bilhões. "Só para pagar as compensações que o Fernando Henrique generosamente deu aos anistiados do regime militar foram 4 bilhões de reais. Em outras rubricas, a conta passa dos 40 bilhões de reais. Ninguém fala sobre isso com a ênfase necessária", diz Lula. O que mais exaspera o presidente nos dias que correm, no entanto, são as interpretações que fazem de sua posição em relação à política econômica de austeridade conduzida por Antonio Palocci, seu ministro da Fazenda. "Já disse publicamente com todas as letras que o governo não fará nenhuma aventura econômica. A política de austeridade não é do Palocci, nem do Meirelles nem minha. Ela é do governo."

O presidente revela que durante muitos meses ouviu de interlocutores a proposta de mudar a política econômica. No começo, conta ele, ouvia calado. De algum tempo para cá, toda vez que alguém sugere mudar os rumos da economia, Lula encomenda ao interlocutor um plano detalhado de quais são as mudanças, como e quando elas devem ser feitas e quais os prós e os contras das medidas propostas. Como era de prever, apareceram pouquíssimos planos concretos de mudanças. O presidente diz que os planos que lhe chegaram continham mais riscos potenciais do que soluções. Diz Lula: "Uma das idéias sugeria deixar de controlar a inflação com juros e usar alíquota zero de importação para produtos cujos preços subissem muito. Ora, o risco que se corre com isso é muito grande. O menor deles é controlar a inflação à custa de acabar com parte do parque industrial brasileiro". O presidente diz que está consciente de que imprimir artificialmente um ritmo maior de crescimento à economia seria um grande trunfo político para ele e seu partido. "Mas, como ficou provado no passado recente, essa alegria duraria pouco. Logo viriam o descontrole inflacionário e a conta amarga para os setores mais pobres da população pagarem. Por isso, nós, no governo, temos de ter a sabedoria de entender que estamos fazendo a coisa certa e que, como resultado disso, o crescimento sólido e sustentado virá no tempo certo." Como no filme O Carteiro e o Poeta, em se tratando de Lula, uma metáfora é infalível em qualquer conversa: "A semeadura foi feita, e a colheita virá. Jogar mais água do que o necessário, além de não apressar o crescimento da planta, pode matá-la".

Se alguém lembra ao presidente que sua mensagem de austeridade fica enfraquecida sempre que um ministro, um chefe de partido aliado ou um petista de alto escalão prega justamente o contrário, ele rebate com o argumento de que atacou esse problema na raiz. Lula diz que ficou acertado que os ministros podem divergir internamente nas reuniões, mas devem evitar embates em público. Lula garante que não teve nenhuma decepção pesada nestes quinze meses de governo. Mas fez uma constatação. A de que não é fácil apressar o ritmo de trabalho da máquina governamental. "Governo não é só o Executivo. Você toma uma decisão e ela pode emperrar na Justiça ou no Ministério Público. Pode ser contestada, e quando você vai ver meses depois as coisas não saíram do lugar que estavam quando você achava que estava tudo solucionado." Para tentar contornar a paralisia da máquina, Lula decidiu fazer reuniões com a participação de todo mundo que possa ter algo a dizer mais tarde e que atrase as decisões. A essa técnica de reunião o presidente chama de "transversalidade".

 
 
 
 
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