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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Triunfo da Mãe Joana
Gente fora do lugar, muitos
falando
ao mesmo tempo, uns sem ouvir
os outros: eis a Câmara
O que mais fez falta na interminável,
tediosa, tola, incongruente e inconseqüente campanha
para a presidência da Câmara dos Deputados foi
uma menção ao artigo de que aquela casa mais
necessita boas maneiras. Sem elas, nada feito. Não
haverá esforço de moralização,
reforma política ou reestruturação partidária
que dêem certo. Não haverá presidente
da mesa, por mais bem-intencionado, que dê jeito nos
vícios que atravancam o funcionamento da Casa e lhe
proporcionam tão má acolhida junto à
opinião pública. Na falta de abordagem da questão
por quem deveria fazê-lo, elencam-se a seguir alguns
itens a ela relativos:
SENTADOS,
POR FAVOR. O ambiente na Câmara é de feira.
Muita gente falando ao mesmo tempo, muita gente de pé.
Muita gente circulando no largo corredor que separa as cadeiras
do lado direito das do lado esquerdo do plenário. Formam-se
grupinhos que conversam como em porta de botequim. A maior
aglomeração se constitui em torno do chamado
microfone de apartes, no ponto em que o corredor central se
encontra com o pé do estrado no qual se empoleira a
mesa diretora. Ali, o aperto é maior do que o da grande
área, antes da cobrança do escanteio, nos jogos
de futebol. E, à semelhança da grande área
nessas ocasiões, já houve ali agarra-agarra,
empurra-empurra e até troca de sopapos, como no episódio
que envolveu, não faz muito, os deputados Arlindo Chinaglia
e Inocêncio Oliveira. Ora, na Câmara, como nos
teatros ou nas salas de aula, o ambiente é, basicamente,
de uma platéia que acompanha a apresentação
de uma ou mais pessoas lá na frente. É de todo
desaconselhável, no teatro ou nas escolas, que, enquanto
transcorre a peça ou a aula, se forme uma aglomeração
de gente de pé junto ao palco, ou à mesa do
professor, ao mesmo tempo em que outros circulam pela sala.
Se grande parte dos deputados, tomada pela doença do
bicho-carpinteiro, não consegue ficar sentada, então
que se retirem as cadeiras. Como há gente na Câmara
que gosta de dançar, a adequação do recinto
a esse tipo de expansão se completaria. Mas, caso se
queira que os trabalhos ocorram com um mínimo de seriedade,
muito se terá a ganhar se cada um se mantiver educadamente
em seu lugar, só se levantando ou andando pela sala
quando sua participação na sessão assim
o exigir.
QUANDO
UM FALA, O OUTRO FICA QUIETO. Eis um preceito que certamente
todos ouviram da mãe, ou da primeira professora, mas
o lugar em que é menos observado é aquele em
que mais deveria sê-lo a casa onde se fazem (ou
melhor, se deveriam fazer) as leis e se discutem (ou melhor,
se deveriam discutir) as questões nacionais. Difícil
encontrar outro ambiente em que o desrespeito pela palavra
alheia seja maior. Enquanto se manifesta o orador, uns lêem
o jornal, outros cochicham, uns terceiros cochilam, uns quartos
formam rodinha em que se soltam gargalhadas.
QUEIRAM
DESLIGAR SEUS CELULARES. A invenção do telefone
celular representou um grande avanço tecnológico
e um correspondente retrocesso no terreno das boas maneiras.
Há decisivas questões irresolvidas. Por exemplo:
quando se caminha na rua, a falar ao celular, e cruza-se com
um amigo, que fazer? Ignorá-lo? Apenas acenar e continuar
andando? Fazer sinal para que o amigo espere, até terminar
a conversa telefônica, para então cumprimentá-lo
adequadamente? Cortar a conversa telefônica, para dar
a devida atenção ao amigo? Todas as soluções
parecem insatisfatórias. Uma coisa, porém, já
foi definida: no teatro, no concerto, no cinema, nas conferências,
nos seminários ou na sala de aula, os celulares devem
ser desligados. Reina quanto a isso consenso absoluto. Já
na Câmara... Na Câmara, entre todos os lugares,
neste vasto mundo, os celulares encontraram o locus ideal
para uma balbúrdia maior do que a de periquitos voando
em bando.
RESPEITO,
ESTA É A MESA DIRETORA. Na mesa se concentram a
autoridade e a expectativa de boa ordem nos trabalhos. Deveria
ser respeitada como a tribuna do magistrado ou o púlpito
do padre. Mas como respeitá-la se ela não se
respeita? Um dos mais intrigantes espetáculos oferecidos
pela Câmara é o passa-passa atrás dos
componentes da mesa, enquanto transcorre a sessão.
Por que aquilo? Que move aquela gente que ali desfila, como
intrusos infiltrados por detrás dos atores, num teatro?
Outros ficam parados nas costas do presidente, na posição
abstrusa e lamentável de papagaios de pirata. Outros
ainda se põem a falar aos ouvidos dos membros da mesa,
que nesse ínterim, se estavam fazendo algo de relevante,
claro que já perderam o fio da meada. Difícil
acreditar que, reinando tal confusão na direção
dos trabalhos, se vá produzir algo de conseqüente.
Se a Câmara é a Casa da Mãe Joana, com
aquele monte de gente de pé, muitos falando ao mesmo
tempo, uns não prestando atenção nos
outros, a mesa é seu epicentro, o quarto da casa reservado
às maiores estripulias. Do teatro do absurdo em que
consiste a Câmara como um todo, a mesa é o palco
onde sobe quem quiser, na hora em que bem entender.
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