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Arte A
recriação do mundo A
obra monumental do indiano anish kapoor ι tema de uma mostra de sucesso no
brasil. E que nγo deixa duvida: a grandeza da arte contemporanea passa
por seu nome 
Marcelo Marthe
Scott Olson/Getty Images  |
Cloud Gate,
em Chicago: o "feijão" de aço consumiu 23 milhões de
dólares e levou sete anos para ser polido |
Anish
Kapoor é um artista que pensa grande. Também pensa colorido, pensa
translúcido, pensa refletivo, pensa esfumaçado e o que é
quase um anátema na arte contemporânea pensa belo. O resultado
disso tudo se traduz em filas. A mostra Ascension (Ascensão), que
estreou recentemente em São Paulo, é o maior sucesso das artes plásticas
no Brasil nos últimos tempos. No Rio de Janeiro, onde foi inaugurada em
julho passado, atraiu mais de 400 000 visitantes. Em Brasília, sua parada
seguinte, foram outros 50 000 espectadores. Números tão retumbantes
(ainda que se expliquem também pelo acesso gratuito às filiais do
Centro Cultural Banco do Brasil, o CCBB, onde se realiza) só costumam ser
alcançados por exposições dedicadas a monstros consagrados,
como a do escultor francês Auguste Rodin (1840-1917), nos anos 90. Bem mais
difícil é ver longas filas para conferir uma mostra de arte contemporânea.
Anish Kapoor tem apelo público não porque seja "fácil" ou
faça concessões ao gosto não lapidado das massas embora
ele entenda perfeitamente o que causa impacto , mas porque tem qualidades
que distinguem as obras de arte em qualquer lugar ou qualquer tempo. Suas esculturas
e instalações, não raro de proporções monumentais,
levam o espectador a ver o mundo por ângulos inusitados e lhe proporcionam
uma experiência metafísica. Dão-se as costas a elas com a
sensação de que se ganhou algo, em termos estéticos, sensoriais
ou até existenciais. Um exemplo é a obra que dá mote à
mostra brasileira. Ascension consiste numa coluna de fumaça que
se desprende do chão e se eleva até o teto um conjunto que
causou impacto no CCBB carioca com seus 36 metros de altura (reduzidos para 8
em São Paulo por questão de espaço). "Trabalhos em grande
escala produzem um efeito de admiração e assombro. É essa
sensação que persigo em meu trabalho", disse Kapoor a VEJA, durante
uma passagem por São Paulo.
Roberto Setton
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| A concha de bronze de 4,5 metros de comprimento em
exibição em São Paulo: formas elementares e intuitivas, de
apelo imediato |
Mais fácil que definir o trabalho de Kapoor é elencar os defeitos
que ele não tem. Pode-se começar por um rótulo que ele rechaça
com toda a força: o de "artista étnico". Filho de pai indiano de
fé hinduísta e mãe judia oriunda do Iraque, Kapoor nasceu
em Bombaim, hoje rebatizada de Mumbai, e mora na Inglaterra desde a juventude.
Tão logo despontou, nos anos 80, foi saudado por uma parcela da crítica
como um expoente do multiculturalismo. Uma estupidez, já que a característica
que define sua obra é justamente a universalidade. Kapoor, aliás,
afirma que não suportaria trabalhar em seu país de origem, por causa
do culto à "indianidade". "Os nacionalistas que me desculpem, mas não
me interessa criar obras que exijam conhecimento prévio de uma cultura
para ser compreendidas", diz Kapoor, cuja obra evoca a sensação
de transcendência que se costuma associar à catarse religiosa
um fenômeno presente, de maneiras diferentes, tanto na cultura indiana quanto
na ocidental.
Apesar das reflexões
complicadas que Kapoor provoca, seu apelo popular é facilitado pelo uso
de formas elementares e intuitivas. A concha de bronze de 4,5 metros de comprimento
que se encontra no hall de entrada do CCBB paulistano sugere um órgão
sexual feminino, imantado simultaneamente de materialidade e de pureza. Marsyas,
a imensa estrutura de aço e PVC vermelho com que Kapoor ocupou em 2002
o vão central da galeria Tate Modern, em Londres, lembra duas trompas de
Falópio ligadas a um útero. O artista lida ainda com um ingrediente
imediatamente acessível: a ilusão visual. Assim como os velhos mestres
da pintura, Kapoor maneja formas e materiais de maneira a provocar vertigem no
espectador e pôr em xeque suas noções de tempo e espaço.
Pertence, enfim, a uma rara estirpe, seja nas artes plásticas, na literatura
ou na música: a dos artistas que criam universos próprios, que reinventam
o mundo. Reinventam e conquistam: ele é um artista que tem fome e sede
de espaços públicos, impulso que, quando levado a sério,
dá um trabalho tremendo. Para
viabilizar seus projetos ambiciosos, Kapoor se vale de técnicas da arquitetura,
da aeronáutica e da indústria pesada. Sua obra mais famosa, Cloud
Gate, é uma estrutura de aço com 20 metros de comprimento e
12 de altura, que resplandece num parque de Chicago e custou 23 milhões
de dólares o que faz dela, possivelmente, a obra de arte pública,
executada por um artista vivo, mais cara do mundo. Para adquirir a superfície
brilhante que reflete os arranha-céus da cidade americana, o "feijão"
o apelido popular; a idéia original é de gota gigante de
mercúrio passou por sete anos de polimento. No ano passado, ele
fez outra intervenção, essa de caráter temporário,
em Nova York. Instalado no Rockefeller Center, Sky Mirror era um espelho
de 10 metros de diâmetro e 23 toneladas, que refletia e distorcia
a paisagem urbana em torno de si.
Roberto Setton
 | Nancy
Kaszerman/Uma Press  | |
| Peça de lona montada em praça
de Nápoles (à esq.), o Sky Mirror de Nova York
(à dir.) e instalação feita de cera trazida ao Brasil:
vertigem e ilusão, como os velhos mestres | |

Roberto Setton | |
Nos últimos anos, as
artes plásticas vêm passando por um período de efervescência,
como provam o mercado superaquecido e o florescer de experiências que testam
constantemente os limites do que, afinal, pode ser considerado arte hoje
quando não a paciência do público em geral. Isso ocorre, em
especial, na Inglaterra. Embora integre esse quadro geral, Kapoor nunca comungou
daquela que é a peça de resistência de outros representantes
conhecidos da nova arte inglesa: chocar, chocar e chocar mais ainda. Esse expediente
foi adotado às últimas conseqüências nos anos 90 pela
geração dos chamados Young British Artists (Jovens Artistas Britânicos).
Na época, suas obras elaboradas com cadáveres de animais, sangue
e excrementos causaram impacto e escândalo mas, com o tempo, a estreiteza
do horizonte e o vazio das idéias foram se tornando evidentes. "No início,
eu me impressionava com a energia deles. Hoje, infelizmente, vejo que estão
preocupados é com dinheiro", critica Kapoor, que, no entanto, não
tem nada contra o moderno culto à celebridade e às contas bancárias
recheadas. Aos 52 anos, casado, uma filha de 11 e um menino de 10, inclui entre
seus amigos o roqueiro Mick Jagger e o escritor Salman Rushdie. O incentivo do
cantor dos Rolling Stones, aliás, foi decisivo para a realização
de sua mostra no Brasil impressionado com a presença de 1,5 milhão
de pessoas num show que fez na Praia de Copacabana, Jagger teria dito a Kapoor
que ele não deveria subestimar o público do país. Quanto
ao dinheiro, o artista é um pragmático. Para ele, fazer obras pensando
apenas em satisfazer o mercado é um pecado mortal. "Mas, fora isso, não
existe nada de errado em faturar um pouquinho", brinca Kapoor, que há pouco
vendeu um trabalho por 2,2 milhões de dólares. A recriação
do mundo, evidentemente, tem seu preço. |