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Entrevista: Roberto Abdenur
Nem na ditadura
O diplomata diz que a política
externa do governo
Lula é contaminada pelo antiamericanismo e pela
orientação ideológica

Otávio Cabral
Oscar Cabral
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"Há um sentimento generalizado
de que hoje os diplomatas são promovidos de acordo
com sua afinidade política e ideológica,
e não por competência"
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Roberto Abdenur,
64 anos, era um dos mais experientes diplomatas do quadro
do Itamaraty até a semana passada, quando se aposentou
depois de 44 anos de carreira. Seu último posto foi
o de embaixador brasileiro nos Estados Unidos. Amigo do chanceler
Celso Amorim há décadas, nos últimos
meses desencantou-se com ele e com sua política. As
divergências começaram depois que Abdenur disse
publicamente que era uma ilusão o fato de o Brasil
considerar a China como parceiro comercial, isso depois da
decisão do governo brasileiro de reconhecer aquele
país como uma economia de mercado. Amorim exigiu uma
retratação de Abdenur. Ela nunca veio. Em entrevista
a VEJA, o ex-embaixador preferiu não falar sobre o
embate entre ele e o chanceler, mas não economiza palavras
para criticar a política externa e a doutrinação
ideológica em curso no Itamaraty. As decisões
hoje, segundo ele, são pautadas pela miopia de um grupo
de esquerdistas. As promoções internas têm
como critério a afinidade de pensamento, e não
a competência. Os acordos de cooperação
privilegiam países menos desenvolvidos. Diz ele: "Um
processo de doutrinação assim no Itamaraty não
aconteceu nem na ditadura".
Veja O
senhor está se aposentando depois de 44 anos de trabalho
no Itamaraty e parece muito incomodado com a situação
da diplomacia brasileira.
Abdenur
Existe
um elemento ideológico muito forte presente na política
externa brasileira. A idéia do SulSul como eixo
preponderante revela um antiamericanismo atrasado. Isso tem
se manifestado dentro do Itamaraty de diversas maneiras. Está
havendo uma doutrinação. Diplomatas de categoria,
não apenas jovens, são forçados a fazer
certas leituras quando entram ou saem de Brasília.
Livros que têm viés dessa postura ideológica.
É uma coisa vexatória. O Itamaraty não
é lugar para bedel.
Veja De
que outras maneiras a doutrinação ideológica
se manifesta no Itamaraty?
Abdenur
Há um sentimento
generalizado de que os diplomatas hoje são promovidos
de acordo com sua afinidade política e ideológica,
e não por competência. Eu vi funcionários
de competência indiscutível ser passados para
trás porque não são alinhados. Há
intolerância à pluralidade de opinião.
O Itamaraty sempre teve um prestígio singular na diplomacia
internacional pela continuidade da política externa,
pelo equilíbrio, pela excelência de seus quadros
e pelo apartidarismo. O Itamaraty precisa resgatar o profissionalismo
a salvo de posturas ideológicas, de atitudes intolerantes
e de identificação partidária com a força
política dominante no momento.
Veja
Essa situação que o senhor descreve já
aconteceu antes?
Abdenur
Nunca, nem na ditadura
militar. De 1964 até o início do governo Ernesto
Geisel, na primeira década do regime militar, adotou-se
uma política externa simplória, baseada na ideologia
anticomunista. Isso foi imposto à força pelos
militares. Mas nunca houve tentativa de convencer os diplomatas
dessa ideologia. O rumo foi imposto e se exigia o seu cumprimento,
mas não se cobrava dos profissionais nenhuma afinidade
com a ideologia que definia aquele rumo. Do governo Geisel
até o fim do governo FHC, a pressão ideológica
desapareceu. Agora, infelizmente, as decisões são
permeadas por elementos ideológicos.
Veja A
difusão dessa política externa ideologizada
é responsabilidade do ministro Celso Amorim ou do secretário-geral
Samuel Pinheiro Guimarães?
Abdenur
Samuel, Celso e
eu fomos grandes amigos, e eu tenho recordações
muito gratas do tempo em que fomos amigos.
Veja O
senhor disse que foi amigo de Celso Amorim e de Samuel Guimarães.
Com o verbo no passado.
Abdenur Fica
no passado. Fomos grandes amigos.
Veja O
senhor ficou magoado com a maneira como saiu da embaixada
de Washington?
Abdenur
Acho que já falei demais.
Veja Substantivamente,
houve pontos positivos na política externa brasileira
no primeiro mandato do presidente Lula?
Abdenur
Sim, sem dúvida.
O Brasil engatou uma parceria com Índia, Japão
e Alemanha para obter uma cadeira definitiva no Conselho de
Segurança da ONU. É luta válida, que
vai trazer resultados. Acho muito bom o que o governo tem
feito para abrir novas frentes de comércio com países
árabes, com o Sudeste Asiático, com a Ásia
Central, com a África. Acho muito positiva também
a forma inovadora de trabalho com o Ibas (grupo que reúne
Índia, Brasil e África do Sul). É a primeira
vez que três países grandes, de três continentes
diferentes, se unem para buscar iniciativas conjuntas. Acho
que o Brasil tem conduzido com amplo equilíbrio e proficiência
as negociações da Rodada de Doha. O Brasil é
um jogador decisivo, tem uma atuação de liderança
no G20 muito importante. Há ainda a questão
do Haiti, onde lideramos pela primeira vez uma ação
de países latino-americanos em favor da paz. Enfim,
houve acertos...
Veja E
os erros substantivos?
Abdenur
A minha
maior crítica à atuação do Itamaraty
está na dimensão exagerada dada à cooperação
entre os países menos desenvolvidos como eixo básico
da nossa diplomacia. Com a queda do Muro de Berlim, desapareceu
completamente o paralelo que dividia o mundo em Ocidente e
Oriente. O meridiano Norte-Sul não desapareceu de todo,
mas se desvaneceu. O diálogo Norte-Sul é uma
realidade. A esta altura da vida, com o mundo em transformação
vertiginosa, não vale mais valorizar tanto a dimensão
Sul-Sul. Isso é um substrato ideológico vagamente
anticapitalista, antiglobalização, antiamericano,
totalmente superado. A nossa relação com a China
e com a Índia também apresenta equívocos.
É preciso ter parceria com os dois países, mas
eles não podem ser considerados nossos aliados.
Veja
Há uma tendência no Itamaraty de priorizar
as relações com os países da América
do Sul em detrimento dos Estados Unidos?
Abdenur
Não
é positivo superestimar o valor das afinidades ideológicas.
Tem prosperado no Itamaraty uma idéia de que uma maior
afinidade ideológica entre os governos da América
do Sul tornaria nossa vida mais fácil. Estamos vendo
que não. Apesar das afinidades que existem entre o
Brasil e outros países da região, estamos enfrentando
problemas para consolidar o Mercosul.
Veja É
crescente a influência de Hugo Chávez em países
como Bolívia e Equador. Como o senhor avalia essa mudança
de poder na América Latina?
Abdenur
Fui embaixador
no Equador de 1985 a 1988 e, durante aqueles anos, a população
mais pobre, de origem indígena, não tinha poder
nem influência na vida política. A ascensão
dessas camadas indígenas da população,
como ocorre no Equador, na Bolívia e no Peru, é
positiva. Mas há uma diferença básica
entre Evo Morales e Hugo Chávez. O Morales vem de baixo,
é um líder camponês que virou presidente
da República. Mal comparando, uma trajetória
semelhante à do presidente Lula. Já Chávez
caiu de pára-quedas, tentou um golpe, depois chegou
ao poder pela via democrática. Infelizmente, ele está
acabando com a democracia na Venezuela.
Veja O
que o senhor acha da defesa feita pelo governo brasileiro
a favor da entrada da Venezuela no Mercosul?
Abdenur
Foi um
erro ter incorporado de chofre a Venezuela ao Mercosul. Devíamos
ter privilegiado o aperfeiçoamento do Mercosul sobre
a expansão a qualquer custo. Foi vexatório ver
Chávez na última reunião dizendo que
o Mercosul era um corpo que precisava ser enterrado. Chávez
tem idéias sobre economia que não se coadunam
com os pressupostos do Mercosul. Ele tem idéia de regresso
ao escambo, de troca de mercadorias. Isso obviamente é
um passo para trás. O Mercosul tem um compromisso democrático.
Democracia, é bom lembrar, não é só
realização de eleições. Acho que
o Brasil tem a responsabilidade de soltar a voz para tornar
menos cômoda a vida de governos autoritários
e ditatoriais na região. Não se pode ignorar
o que está acontecendo na Venezuela. O Brasil deve
expressar claramente seu compromisso democrático amplo,
profundo e irrestrito e denunciar situações
como a que Chávez criou na Venezuela.
Veja Como
o senhor avalia a relação do Brasil com os Estados
Unidos nos três anos em que serviu como embaixador em
Washington?
Abdenur
Pode
parecer paradoxal, mas a relação do Brasil com
os Estados Unidos prosperou significativamente nos últimos
anos. Graças a uma pessoa que manda muito no governo
brasileiro, uma pessoa de extremo pragmatismo e lucidez, que
é o presidente Lula. Ele não esconde seu desagrado
com algumas coisas que o governo Bush tem feito, particularmente
no Iraque. Mas Lula sabe que uma relação melhor
com os Estados Unidos é de interesse do Brasil. Quando
fui assumir a embaixada, ele me disse: "Roberto, quero deixar
como legado para o futuro bases ainda mais sólidas
e mais amplas na relação entre os dois países".
Como embaixador, tive algumas dificuldades, mas nada que fosse
impeditivo.
Veja O
senhor não deixou o cargo de embaixador espontaneamente,
correto?
Abdenur Há
no Brasil setores, embora minoritários, que têm
aversão aos Estados Unidos, inclusive dentro do governo
e do Itamaraty. Há esse ranço, mas isso não
atrapalhou meu trabalho. A relação Brasil-Estados
Unidos nunca esteve tão bem. Lula inclusive deve visitar
o presidente Bush nos próximos meses.
Veja Apesar
dessa relação forte com os Estados Unidos, a
Alca está em compasso de espera.
Abdenur
O Brasil está, na melhor das hipóteses, deixando
de ganhar dinheiro. O mercado americano está se aproximando
dos 2 trilhões de dólares. Seria vital para
o Brasil ter vantagens preferenciais, de parceria, com os
Estados Unidos. Não estou dizendo que deveríamos
ter assinado a Alca de qualquer jeito, mas deveríamos
ter seguido com a negociação. Os Estados Unidos
têm assinado vários acordos de comércio
bilaterais, e nós temos perdido competitividade no
mercado americano. Nós estamos estacionados há
dez anos em 1,4% do mercado americano. Há vinte anos,
nossa participação era de 2,2%. Eu lamento que
o único aspecto da relação Brasil-Estados
Unidos em que não houve progresso tenha sido o comércio.
Foram mínimos os recursos alocados para promoção
comercial nos Estados Unidos pelo governo brasileiro.
Veja Qual
é a imagem do presidente Lula nos Estados Unidos? Ele
ainda é um político respeitado ou sua imagem
foi deteriorada pelos escândalos de corrupção?
Abdenur
É uma imagem positiva, os escândalos de corrupção
não repercutiram muito por lá. Ele é
o líder de uma democracia estável, um governante
que tem uma biografia louvável. O governo Lula tem
merecido respeito mundo afora por conciliar uma política
econômica pragmática com políticas sociais
efetivas e uma política externa séria. Isso
começou com Fernando Henrique, mas o governo Lula avançou.
Veja
O senhor disse em um evento no ano passado em São
Paulo que a China é nossa concorrente, não nossa
parceira. O senhor mantém essa avaliação?
Abdenur
Fui nomeado embaixador na China no governo Sarney,
trabalhei quatro anos e meio lá, tenho autoridade para
falar desse país. Nós não podemos ter
uma visão romântica daquela China do passado,
pobre, atrasada, camponesa, isolada do mundo. A China deu
um salto extraordinário e hoje é uma potência.
Tem um comércio exterior de 1,8 trilhão de dólares,
oito vezes o do Brasil. Nós temos de atualizar a visão
da China e ver que, sem deixar de ser parceira valiosa, é
cada vez mais nossa concorrente dentro do mercado brasileiro
e no exterior. Isso não quer dizer que devamos construir
uma muralha e nos fechar aos chineses. Pelo contrário.
É preciso manter uma parceria estratégica com
a China em novos termos e não ter ilusões. Quando
criamos mitos e queremos dar a impressão de que a China
é nossa aliada, que nós a lideramos, é
uma bobagem. A China hoje busca o capitalismo, a globalização,
o mercado.
Veja
O senhor acha que o Brasil errou ao reconhecer a China
como economia de mercado?
Abdenur
Acho que foi precipitado. Embora o Estado chinês
como produtor e empreendedor esteja diminuindo de tamanho,
ele ainda interfere muitíssimo na economia, usa instrumentos
arbitrários. Ao reconhecermos a economia de mercado,
nós abrimos mão de usar mecanismos de defesa
contra os produtos chineses. Isso tornou inevitável
uma entrada cada vez maior de produtos chineses no Brasil.
O prejuízo é inevitável.
Veja A
divulgação dessa posição do senhor
sobre a China causou problemas dentro do Itamaraty?
Abdenur
Causou, sim.
Veja
É verdade que seu amigo antigo, o ministro Amorim,
exigiu que o senhor se retratasse publicamente?
Abdenur
Não quero fulanizar essa discussão.
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